Sexta-feira, 16 de Novembro de 2007
O glorioso caminho para a novilíngua socialista
Vieira da Silva parece ter atingido o ponto em que o seu discurso deixou de ser inteligível, um processo também conhecido como o síndroma Manuel Pinho e Mário Lino. Hoje, reagindo às notícias que dão conta que o desemprego permaneceu nos 7,9% no último trimestre, congratulou-se com os números, dizendo que "este ano a taxa de desemprego não cresceu do segundo para o terceiro trimestre. É um bom sinal". O bom sinal perscrutado por Vieira da Silva corresponde à estabilização do desemprego no nível mais elevado de sempre e na terceira taxa mais elevada da zona euro. As suas declarações revelam um notável esforço para torturar os números até eles cederem, pelo cansaço, ao notável esforço para criar uma novilíngua socialista. Vejamos.
O ministro reconheceu que o problema do desemprego ainda não está resolvido. Ainda bem que reconhece. Há 444 400 boas razões para que assim proceda.

publicado por Pedro Sales às 19:02
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Quinta-feira, 1 de Novembro de 2007
É assumir o risco




Fotos de cabelinho à paulo bento
Ver também riscoaomeioexatamentameioepamesmomeio.


Aqui há dias, enquanto aproveitava um telefonema para exercitar a minha veia Lusitana - queixava-me portanto - ouvi uma coisa curiosa. Como resposta ao meu lamento pela falta de tempo para cortar o cabelo obtive: 'desde que não andes com um cabelinho à Paulo Bento'.

Como emigrante a minha interacção com a figura de Paulo Bento é diária mas distante. Mal me lembro de quando jogava à bola, não estava em Portugal quando entrou para treinador e nunca vi nenhum jogo do Sporting desde então. Fico-me pela imprensa desportiva online que consumo aqui e ali, sempre intermitente e de frases curtas. Aí, à distância e filtrado, Paulo Bento não parece diferir de outros: os soundbytes da ordem ao sabor dos resultados. E ninguém fez referência ao cabelinho, nunca.

Mas quando me disseram 'cabelinho à Paulo Bento', soou bem, natural, Luso mesmo. Mas como é que eu me esqueci que o 'olha práquele cabelinho' - seguido de arroto - faz todo o sentido? O inho que serve de escala para tudo. O escárnio constante, exacto e cortante, ideal para passar o tempo entre a jola e a cuspidela conjunta de cascas de tremoços. Pensando bem, o escárnio em inho é Portugal-redux. Desde que não vá aterrar no sapato do Senhor Doutor, serve para passar a tarde e mantém a discussão no acessório que o essencial é triste demais.

Adenda: Ou complicado demais. O pessoal que coma tremoços tailandeses e beba cerveja pelo copo de plástico comprado no LIDL e está bom de ver que isso é progresso não-referendável. Envolve mistérios que não podemos compreender. E como é sabido não é possível referendar todas as maravilhas do Senhor. Portanto, não precisamos de ouvir, não precisamos de explicar, não precisamos de argumentar. O bloco central está cá é para decidir e o resto é demagogia e gentes de morais dúbios. Só falta avisar com fumata bianca.

É o que temos feito nas últimas décadas. É o que vamos continuar a fazer. Certo? ... E de repente Paulo Bento começa a parecer um tópico mais feliz de conversa. O ciclo eterno continua, num país perto de si.

publicado por Vasco Carvalho às 01:47
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Domingo, 7 de Outubro de 2007
Tinha mais sentido chamar-lhe Ministério dos projectos apoiados pelo governo
O Governo autoriza a extracção em profundidade de mais 60 metros nas pedreiras da Arrábida, permitindo que a Secil tenha matéria prima para continuar a escavacar a serra por mais 20 anos, e o secretário de Estado do Ambiente vai à RTP dizer que, pela primeira vez, um governo está a limitar a acção das pedreiras nesta zona protegida...

As populações queixam-se das linhas de muito alta tensão, e o tribunal manda a REN desligar uma dessas linhas, e logo vem o ministro do ambiente dizer que, hoje, é “claramente maioritária” a opinião dos especialistas que recusam o impacto na saúde das linhas de alta tensão. Ora, como o ministro tem a obrigação de saber, o que a maioria dos estudos indica é que não há dados conclusivos que permitam estabelecer uma ligação causal entre a proximidade das linhas e o aumento de cancro - o que é bem diferente. Mesmo assim, a Organização Mundial de Saúde refere que a proximidade destas linhas pode aumentar em 200% o risco das crianças contraírem leucemia.

As autoridades galegas chumbaram a construção de uma unidade de aquacultura da Pescanova porque estava em terrenos da Rede Natura 2000. O governo português autoriza a sua instalação em Mira, e José Sócrates garante que todas as normas ambientais foram cumpridas, apesar de estar novamente numa Rede Natura 2000. Perante as criticas da Quercus, o ministério do Ambiente garante que não existe nenhum problema ecológico, mesmo sem ser conhecido o resultado do estudo de impacto ambiental. Se vier a ser negativo, diz, terá que ser adoptada outra solução...e o primeiro-ministro lá terá mais uma oportunidade de continuar a propaganda, em directo, num púlpito da Pescanova.
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publicado por Pedro Sales às 15:23
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Terça-feira, 4 de Setembro de 2007
o síndroma do ninho cheio e outros neologismos
Aqui há dias o Cabral, via NYTimes, chamou a atenção para um novo epíteto: a nova geração boomerang (1) dos EUA, jovens adultos que depois da universidade são forçados a regressar a casa dos pais, endividados e sem perspectivas (ver também aqui). Fiquei curioso mas pouco convencido. Seria uma mudança de monta numa sociedade onde viver com os pais depois dos 20 anos vem com uma etiqueta pesada de looser; ou no mínimo, de indolência, objecto fácil de sátira.
% de jovens adultos em casa dos pais; EUA (fonte: CPS, tabela AD1)

Os números da Current Population Survey (CPS) indicam que este fenómeno não aparece nas estatísticas oficiais. É sempre um desafio ver tendências com pouco mais de 20 observações, mas a destacar alguma coisa seria a estabilidade destes números. Ainda pensei ver um efeito cíclico ao menos, mas nada a apontar. Talvez só mesmo o fenómeno inverso para jovens (homens) entre os 18-24 anos. (ver também aqui para a mesma conclusão)

Não sendo óbvio o tal efeito boomerang, quais são então as estratégias de sobrevivência dos jovens americanos?
Bom, deixam de ter seguro de saúde (30% dos jovens americanos - mais de 13 milhões de pessoas- não têm seguro), têm filhos mais tarde, compram a primeira casa mais tarde (ver aqui para o Reino Unido), e são cada vez mais a maioria dos working poor, trabalhando mais horas para pagar a dívida com que saem da universidade (dívida que aumentou 50% na última década, em termos reais). E isto são os sortudos: 20% dos sem-abrigo americanos têm entre 18 a 30 anos (tabela 3-5). Ver aqui para mais informação sobre as condições de vida dos jovens americanos.

Neste contexto, a tal rede de apoio familiar seria muito bem vinda. A inexistência do boomerang só piora a situação e gera outro neologismo: 'disconnected young adults' (ouvir uma reportagem aqui), sem família, sem emprego, sem comunidade de apoio.


(1): No Japão, ao que parece são apelidados de solteiros parasitas.

PS: Este post foi substancialmente alterado, na forma e no conteúdo. Isto porque o Cabral tinha razão na 'big picture', e a versão inicial estava longe de o dizer. Mea culpa.


publicado por Vasco Carvalho às 17:44
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Domingo, 12 de Agosto de 2007
A novilíngua de Correia de Campos
O ministro da Saúde desvalorizou ontem a existência de mais de 208 mil doentes em lista de espera, 40 mil dos quais há mais de um ano, lembrando que estão menos 20 mil pessoas à espera de uma operação do que há seis meses. No que já vem sendo um hábito neste governo, Correia de Campos trabalha os números da forma que melhor lhe convém. Estranhamento, ninguém na imprensa se deu ao trabalho de ir comparar os números, não com os últimos seis meses apresentados pelo Governo, mas com o que existia quando o ministro tomou posse. Se o tivessem feito, e era bem simples, teriam reparado que há dois anos existiam 224 mil doentes em lista de espera. Compreende-se que o ministro omita esse dado. É bem diferente dizer que se reduziu em 10% as listas de espera nos últimos seis meses, do que dizer que se precisou de mais de dois anos para alcançar esse número. Em dois anos e meio o governo diminui as listas de espera de 224 mil para 208 mil doentes e, todo contente, diz que são “valores que não nos envergonham”. Talvez não envergonhe o ministro, mas temo que a mesma opinião não possa ser subscrita pelos 20 mil doentes em lista de espera há mais de dois anos ou pelos doentes que esperam mais de um ano para serem operados ao cancro.

Mas o cuidado em ocultar a realidade, apresentando-a com cores mais suaves, não se fica por aqui. Disse o ministro que “chegámos ao Governo com oito meses e meio de tempo mediano de espera e estamos neste momento com cinco meses”, no que foi tomado, pela quase totalidade da imprensa, como o tempo médio que cada doente espera para ser operado. Mas o ministro, cuidadoso, nunca falou em tempo médio de espera, mas sim de “tempo mediano” o que, parecendo a mesma coisa, está a léguas de o ser. A mediana é uma operação estatística que calcula o valor mais provável. Com esta regra, os tais 20 mil doentes que estão à espera há mais de dois anos foram, quase de certeza, omitidos nos cálculos de Correia de Campos.

Deixo apenas um exemplo, para se ver como as coisas são diferentes.Em Março deste ano, o Ministério da Saúde publicou um estudo sobre as listas de espera nas doenças oncológicas. O tempo médio de espera, no país, era de 105 dias, ou seja, três meses e meio. Mas, de acordo com a “mediana” traçada pelo Governo, os 105 dias passaram a 44. Um mês e meio, sendo esse o número que foi o que foi divulgado pelo Governo. Depois da forma engenhosa como Sócrates tentou esconder a sua promessa de criação de 150 mil empregos, os constantes truques utilizados por Correia de Campos começam a indicar um padrão preocupante sobre a forma como o governo martela os números para esconder os seus principais falhanços.

publicado por Pedro Sales às 15:48
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