Terça-feira, 11 de Dezembro de 2007
Debate à Esquerda 1: Forma é conteúdo.
Apesar de ânimos exaltados e de promessas de divórcio, continuo a achar que o debate blogoesférico à esquerda tem pernas para andar. A partir da leitura do que até aqui foi escrito (aqui, ali, ali, ali, ali, ali, ali e mais não sei onde), gostava de assentar, ao longo dos próximos dias, três ou quatro ideias. A primeira ideia é muito simples e é esta: o debate à esquerda é um debate sobre conteúdos e um debate sobre formas: o como se diz importa tanto quanto aquilo que se quer dizer. E importa não por “polidez” mas sim porque quem não ambiciona atingir a autoridade religiosa de uma verdade canónica – e creio que ninguém neste debate o deverá ambicionar – não diz que fulano se “converteu”. Quem não tem respeito pela nobre autoridade da honradez militarista não diz que sicrano se “rendeu”. Quem não se dá bem com a autoridade política do dogmatismo doutrinário não diz que as posições de beltrano se “desviam”. Quem não gosta da autoridade biologicizante dos purismos genéticos não diz que as leituras daquele estão “contaminadas”. Quem não aceita a autoridade científica que faz da história uma cadeia de mecanismos não diz que o partido tomado por aqueloutro conduz “objectivamente” a isto ou aquilo. Quem não quer usufruir da autoridade do paternalista não diz que há ideias "ingénuas" e que alguém pensa assim ou assado porque tem menos de 30 anos de idade. Quem não precisa de autoridade psiquiátrica não diz que o outro está “desligado da realidade”.

publicado por José Neves às 01:03
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Sexta-feira, 7 de Dezembro de 2007
São os subsídios, estúpido
Este gráfico é claro na irracionalidade dos apoios governamentais à produção agrícola. O resultado, como aponta uma das últimas edições da Good Medicine, é que um Big Mac fica mais barato do que uma salada. Os números são dos EUA mas não diferem assim tanto do que acontece na Europa, com a PAC. São milhares de milhões de dólares de subsídios governamentais essencialmente destinados à manutenção artificial dos preços dos produtos ricos em calorias e gorduras. Tudo isto, claro, no intervalo da proclamação de boas intenções sobre o combate à obesidade infantil e das "boas práticas" alimentares.

publicado por Pedro Sales às 16:07
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Domingo, 2 de Dezembro de 2007
Os Assessores do Ministério
Pela calada da caixa de comentários deste post, um assessor ministerial escreveu todo um tratado de boas maneiras a meu respeito e, pelo meio, ainda colocou uma questão importante em debate: democracia-escala-economia. Por ora deixo de lado a questão importante – voltarei a ela quando arranjar um tempinho para responder a este outro post – e vou ao encontro das bocas do Hugo Mendes. Antes porém, e para desdramatizar, convém dizer que as bocas do Hugo Mendes não configuram um ataque dirigido especialmente contra mim. Um outro qualquer Hugo poderia mandá-las a um outro qualquer Zé. E, apesar da análise psicanalítica a que o Hugo Mendes me submete se querer muito perspicaz – e é verdade que para esse efeito é sempre tentador comentarmos as práticas masturbatórias alheias - a nossa relação pessoal é praticamente inexistente: eu e o Hugo Mendes cruzámo-nos algumas vezes no ISCTE, partilhando alguns amigos dessa época em que pc’s e outros lutavam contra propinas e praxes e o Hugo passava o seu tempo livre em amena cavaqueira nuns frugais piqueniques que juntavam três ou quatro jovens intelectuais socialistas.
Na realidade, as bocas do Hugo limitam-se a fazer de mim um caso exemplar de “pessoas que vivem a sua existência numa bolha ideológica e política”.
Esta tentativa de realojar numa bolha aqueles que apresentam ideias políticas de que não gostamos, mesmo se revela o Jorge Coelho que pode haver em cada assessor ministerial, não é um exclusivo socialista. Raro é aquele que se representa como a personificação do poder e que não usa o expediente da “bolha”; não ofende quem quer, ofende quem pode, diz um provérbio que tem um alcance tantas vezes insuspeito. E a verdade é que o Hugo pode, porque o Hugo está na mó-de-cima, ali de onde fala em nome do interesse de todos; ali de onde lhe parece infantil, ineficiente, preguiçoso ou poluído tudo aquilo que seja desviante da lógica que funda o seu próprio discurso; ali de onde, em jeito muito higiénico, o Hugo pode argumentar “la réalité c’est moi” e logo concluir que os outros vivem desligados da realidade.
Trata-se aqui, bem vistas as coisas, de um mesmo argumento de sempre; do argumento dos deputados do Estado Novo quando atacam os militantes comunistas, do argumento do primeiro-ministro quando ataca os partidos da oposição, do argumento de Luís Felipe Menezes quando ataca José Pacheco Pereira, do argumento do José Pacheco Pereira de hoje quando ridiculariza o José Pacheco Pereira dos anos 70, do argumento dos dirigentes comunistas contra os militantes da extrema-esquerda, do argumento dos dirigentes da extrema-esquerda contra os anarquistas, ou, por fim, do meu argumento quando no início deste post demagogicamente contrapus a minha figura de estudante-militante-associativo à figura de estudante-intelectual-académico do Hugo Mendes.
Mas, e justiça seja feita, nem todos os que recorrem a este gesto conseguem atalhar tão abruptamente caminho como o Hugo Mendes. Na verdade, diz o Hugo que nós - eu, tu, ele, o Louçã, o Jerónimo, o Negri, a esquerda francesa, o Maio de 68 e, também, a direita e os direitolas - somos uma minoria: “as pessoas são muito menos politizadas que os 3, 4, 5% da população (estimando isto por cima), que vive, que 'respira' política (à esquerda e à direita)”. Ou seja, segundo a perícia sociológica do Hugo, é só fazer as contas e nem vale a pena estrebucharmos quanto ao futuro: é que o Hugo também nos diz que as pessoas da bolha “são - e a sociologia serve para alguma coisa, serão no futuro - uma minoria”. Perante isto, que dizer? Reconhecer que finalmente percebemos que as ideias da malta da bolha já não têm qualquer “futuro histórico”? Dizer que, nas mãos do assessor, a sociologia se torna uma ciência semi-oculta, situada a meio caminho entre a futurologia e a demografia, entre Maya e Malthus? Ou perguntar se há assim tanto e tão pouco para fazer no ministério que o assessor se dedique a escrever 12 mil caracteres de texto sobre uns animais que estão em vias de extinção?
É claro que o Hugo Mendes explica porque somos e seremos uma simples bolha. É que o povo, diz ele, não quer saber de outra política que não as muito institucionais políticas públicas “exequíveis” e “concretas”, isto é, as políticas que o Hugo Mendes analisa e planeia para alegria geral da nação; o povo está-se a borrifar para a democracia constituinte, quer mas é ler todos os dias o Diário da República onde já se nota o dedo do Hugo Mendes e dos seus companheiros. O povo está à espera do Hugo Mendes e o Hugo Mendes espera que o povo espere por ele e é justamente por isso que a rua sindical, essa bolha de milhares de manifestantes que não esperam pelas medidas progressistas do jovem Hugo, tanto incomoda à ordem dos assessores ministeriais.
A Ordem dos Assessores Ministeriais define-se pelo facto dos seus membros não viverem em nenhuma bolha, esse lugar tremendo onde apenas se respira, come, bebe, defeca, urina e ejacula uma só coisa: ideologia. Mas se os assessores não querem viver na bolha, verdade é que também não querem viver onde mora o povo. E não querem por uma razão segundo eles muito óbvia. É que enquanto na bolha há politicidade a mais, no meio do povo falta politicidade e falta porque a malta do povo vive politicamente determinada pelos seus interesses materiais particulares. Se vivessem no meio do povo, se fossem povo, os nossos assessores ministeriais não poderiam determinar politicamente o que interessa e o que não interessa ao próprio povo.
Ou seja: como acham que política é fazer 15 flexões legislativas por dia e reunir três grupos de trabalho por semana, os nossos assessores excluem da polis todos os que não cumprem esta meta. Os que identificam como mais “politizados”, alojam-nos em bolhas; e o povo, a população, a gentalha, a maioria “despolitizada”, remetem-na a uma condição de excluída ou potencial excluída, colando-lhe uma imagem de vítima através da qual a desapropriam de qualquer poder constituinte. Sobram assim, na figura de donos da política, os homens da “linha justa”, uma linha tecnicamente aferida e traçada por eles próprios. O assessor – através dos discursos que escreve para o ministro – não é povo mas fala em nome da população, um entre outros conceitos através dos quais estes tecnocratas foram apagando qualquer carga de subjectividade política que ainda existisse no próprio conceito de povo. (Por isto também, quando alguém fala em nome do povo, os nossos assessores ministeriais logo se alvoroçam a acusar esse alguém de populismo). Com efeito, a população de que o gang da bolha vive desligado é a população que pulula no gabinete ministerial do Hugo Mendes! Um gabinete que, claro está, não é um gabinete-bolha … Qual quê! No gabinete do ministério são resmas de gente, toneladas de pessoas concretas, um odor a povo que tresanda, uma multidão arrumadinha sob categorias oficiais que engavetam cidadãos e cidadãos em dezenas e dezenas de quadros estatísticos, relatórios técnicos e discursos parlamentares.
Resumindo. O assessor do ministério não pode fazer parte dos 95, 96, 97% de “despolitizados” da população porque o assessor carrega sobre os seus ombros a responsabilidade histórica de aferir o que é e o que não é politicamente interessante para melhorar a "vidinha" dos “despolitizados” lá de baixo; e o assessor também não faz parte dos 3,4,5% de ideologicizados porque, tendo que tratar da "vidinha" dos acéfalos lá de baixo, o assessor não só não tem interesses materiais particulares como também não pode ter interesses ideológicos universais. Do alto do seu lugar de assessor ministerial, o Hugo Mendes tutela em vez de existir. Lembra aquele rapaz chatinho que faz de defesa nos jogos de futebol do bairro: sempre que tem um adversário pela frente, em lugar de o procurar desarmar, transforma-se automaticamente em fiscal-de-linha e desata a gritar fora-de-jogo, fora-de-jogo, fora-de-jogo!

ps: como referi, nada de pessoal. E como o Hugo Mendes até confessa que “se há pessoas com quem se tem gosto em conversar, é com esses apaixonados”, os que vivem nas bolhas, prometo que da próxima vez que o vir lhe pagarei um suminho com bolhas e tudo. Assim poderá o Hugo continuar a conviver nas “bolhas ideológicas e políticas” com a malta que se dedica à “masturbação ideológica”. E manter o sempre difícil compromisso entre deveres públicos e gostos privados.

publicado por José Neves às 22:35
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Sábado, 25 de Agosto de 2007
Eu hei-de ir

Ceifeiros de Cuba, Cuba, Alentejo.

E enquanto não vou, ouço os contos, aqui
(via derterrorist)

publicado por Vasco Carvalho às 22:08
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