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Zero de Conduta

Zero de Conduta

14
Fev08

Eu cá sou bom, sou muito bom...

Pedro Sales
"Sinto-me em condições de ser julgador em causa própria. Sinto, porque eu tenho uma grande autoridade moral e tenho uma grande confiança na minha honestidade pessoal". Eduardo Barroso, Director-Geral da Autoridade para os Serviços de Sangue e Transplantação, 14 Fevereiro, no Parlamento.

Eduardo Barroso é um homem vaidoso. Este médico, que foi ontem ao Parlamento garantir que não se considera um mercenário, pagou a si mesmo 277 mil euros pela disponibilidade total para as operações que não fez e pela dedicação exclusiva para um trabalho que efectuou enquanto acumulava funções no Hospital da Cruz Vermelha. É um homem bom, muito bom.
11
Fev08

Big show Berardo

Pedro Sales

O empresário Joe Berardo ganhou mais de 14 milhões de euros com a venda da Quinta da Rocha, uma propriedade de 200 hectares que se situa junto à Ria de Alvor, no concelho de Portimão. Em oito anos, uma propriedade adquirida por 500 mil euros passou a valer 15 milhões. Uma valorização estonteante, prova provada do génio empreendedor e negocial de Berardo? Sim e não.

Sim, porque a valorização tem a ver com o plano turístico e habitacional previsto para a Quinta da Rocha. Não, porque 18 as casas que estavam registadas na propriedade eram rústicas e nunca garantiriam a alteração do registo de zona agrícola para urbana. O génio e arte de Berardo fizeram o resto. A câmara reconheceu 18 casas que nunca ninguém viu e autorizou a construção. E assim, de um dia para o outro, um terreno numa zona única valorizou-se 3000% O presidente da Câmara, Manuel da Luz, garante que "não entrou até agora qualquer projecto e ao abrigo do PDM também não se pode ali fazer nada. É perder tempo falar em projectos imobiliários, pois tal não tem cabimento”.

Aqui chegados, vale a pena recordar que Manuel da Luz é o mesmo presidente de câmara que, vai para quatro anos, proporcionou um dos mais significativos momentos do patobravismo nacional. Juntamente com o presidente da Câmara de Lagos, e aproveitando uma cerimónia em que apresentaram o seu plano para proteger a Ria do Alvor, o bom do Manuel da Luz alertava para os excessos ambientais que, como todos sabemos, tantos danos têm causado ao Algarve:"não podemos ser fundamentalistas (em matéria ambiental), pois pagamos por isso nas eleições".  Ao seu lado, mais filosófico, o presidente de Lagos, explicava que “o desenvolvimento sustentável não pode ser apenas um chavão", mas que “nada disto faz sentido se não houver espaço para o homem". Resumindo, a ria precisa de ser "humanizada”, até porque "a natureza também tem de dar algo ao homem". Bem visto. Se a natureza tem que dar algo ao homem, então que comece pelo Berardo,
06
Fev08

Foi você que falou em populismo?

Pedro Sales
Ontem foi dia de José Miguel Júdice na Sic. Começou a chamar "populista" e "gordo" a Marinho Pinto, comparando-o com Mussolini e Chavéz. Dada a salganhada ideológica, deduz-se que o termo de comparação é mesmo a proeminência da barriga. O tempo das ideologias já lá vai, pelo menos para Júdice, e nada como apontar as características físicas do adversário para marcar pontos na argumentação. Mas o melhor veio mais tarde, na edição da noite, onde tentou explicar como é que um restaurante de luxo, com uma localização ímpar no alto do parque mais central da capital, paga 500 euros de renda à câmara. Não explicou, é certo, mas nem por isso gostou de ver Teresa Caeiro lembrar que o ex-bastonário dos advogados é um dos sócios de tão suculento negócio. Uma"insinuação lamentável", disse, ainda por cima vinda de alguém que tem uma "relação íntima com um dos sócios". Nada como uma insinuação sobre a vida privada para combater uma crítica pública. Júdice anda preocupado com a figura que os outros andam a fazer. Devia olhar melhor para o seu exemplo e deixar as lições de moral, carregadas de insunuações, de lado. É que nem chega a ser populista. É só marialva.
29
Jan08

O crime (desorganizado) compensa

Pedro Sales
31
Dez07

Portugal português

Pedro Sales
Amanhã entra em vigor uma lei que afecta milhões de portugueses e milhares de estabelecimentos comerciais, que têm que fazer avultados investimentos se quiserem ter espaço para fumadores, e ninguém se entende sobre os requisitos necessários para que a fiscalização reconheça a conformidade dos estabelecimentos à nova lei. Bem pode o Governo investir milhões nuns assépticos anúncios de promoção à costa oeste da Europa e esforçar-se para construir um país sem fumo e sem rissóis feitos em casa. O país não muda por decreto e, estava na cara, que uma lei com esta complexidade nunca estaria pronta a entrar em vigor na semana a seguir ao Natal e ano novo, com o país ainda a ressacar das compras e filhoses.
29
Dez07

O jogo das cadeiras

Pedro Sales
À primeira vista não se percebe muito bem o interesse que o PSD parece ter na escolha de um “dos seus” para a liderança do banco público. Se há dinâmica no nosso país que se revela mais forte do que o bloco central, é o bloco central dos interesses. E esse, como se sabe, começa e acaba no governo em exercício de funções. É o Governo que assina os cheques com os escritórios de advogados e empresas de consultoria. É o Governo que assina as lucrativas concessões que fazem andar e lucrar certo país que passa o resto da semana a criticar o Estado. Não é preciso ir muito longe para se perceber como funcionam as coisas. Fixemo-nos em António Mexia. Santanista desde pequenino, desde que foi nomeado por Sócrates para a EDP tem-se portado como o mais diligente dos socialistas. Mexias há muitos. O barulho de Menezes, que não hesita em vir pedir umas cunhas em público, não tem nada a ver com a importância de manter alguém da área da oposição na Caixa e no Banco de Portugal. Para manter o poder é preciso transmitir a imagem de que se tem algum para dividir e distribuir. Anima as hostes e mantém-nas unidas. Evita a deserção para o outro campo. Os governos vão cedendo, pontualmente. Porque é irrelevante para a sua gestão do poder e porque, no fundo, mantém a aparência e garante a estabilidadezinha com que se vão fazenda as coisas neste nosso país. E os negócios.
26
Dez07

Cosmopolitismo de fachada

Pedro Sales
Até há poucos dias nunca tinha ouvido falar no nome. Parece que Cristina Areia é uma das vedetas das telenovelas juvenis da TVI. Talvez por isso foi convidada pela junta de freguesia para abrilhantar a festa de Natal das escolas de Alfama. A sua tarefa era simples. Anunciar o nome das crianças à medida que iam subindo ao palco receber umas prendas. Mas a Cristina é uma rapariga sensível e tradicionalista. Há nomes que lhe fazem espécie. A Bárbara Reis, no Público do passado sábado, conta como, em pouco tempo, a menina conseguiu insultar quase todas as pessoas presentes na festa:

- Hania! Ai credo, o que é isto? Ah, é indiana...Pronto, está bem.
- João bin[qualquer coisa]. Bin?! Será primo do Bin Laden. Cuidado, se calhar é melhor irmos embora.

- Ramona! Mas o que é se passa em Alfama? Que nomes esquisitos! Dantes era só Maria de Lourdes e Anas Cristinas, não era?

- Ana! Um nome normal, viva a tradição, viva!
- Regiane. O que passou pela cabeça destes pais?

Neste último ponto teve razão. O que passou pela cabeça de dezenas de pais para não se levantarem e interromperem este espectáculo degradante? Neste país dos brandos costumes, parece que os familiares das Anas Cristinas acham normal que alguém insulte e envergonhe em público uma criança porque não se chama Maria Albertina. O que não deve ter passado pela cabeça da Cristina Areia é que muitos deles nasceram no nosso país e são tão portugueses quanto ela, mas isso para o caso até é indiferente. Mais revelador é que esta vedeta da televisão é a voz de um país que se diz tolerante mas que se conforma com estas gratuitas demonstrações de xenofobia. Uma voz que tem autoridade e impunidade porque, à sua volta, todos se calam e encolhem. Os pais das Anas ou porque tiveram vergonha ou porque até acharam piada. Os outros, os pais das Ramonas e das Regianes é que me preocupa. Porque o seu silêncio é a mais violenta demonstração de como funciona o racismo dos pequenos gestos do dia-a-dia e de como este está interiorizado pelas suas vítimas. Ninguém se levanta porque não é suposto protestarmos numa casa que não é a nossa. É assim este Portugal natalício. Andamos o ano todo a tentar vender lá fora uma imagem de cosmopolitismo e modernidade, para, cá dentro, percebermos que o cosmopolistmo que aceitamos e toleramos se esgota nos Antónios, Marias e Silvas. Já agora, alguém podia explicar à Cristina que não se deve gozar com o nome dos outros. É que alguém pode olhar para o dela e reparar que Areias é nome de camelo. O que explica alguma coisa.
23
Dez07

"Eu vejo o futuro repetir o passado. Eu vejo um museu de grandes novidades"

Pedro Sales
A Starbucks vai chegar a Portugal no próximo ano. Prometem revolucionar os cafés do país, oferecendo um espaço amplo para os clientes conversarem, lerem ou acederem à net na rede sem fios dos seus estabelecimentos. É o sinal dos tempos. Depois de, há pouco mais de 15 anos, termos assistido ao encerramento dos principais cafés do país, onde se podia conversar, estudar e ler o jornal sem ser importunado pelos empregados, vêm agora as grandes cadeias internacionais embrulhar o conceito e apresentar a mesma proposta como uma grande inovação.

Faz apenas dezasseis anos que a McDonalds instalou o seu primeiro restaurante em Lisboa nas instalações do antigo café Colombo. O local não podia ser mais simbólico. O país estava com pressa de modernidade e não tinha mais tempo para se sentar no café a ler o jornal e a conversar. Um a um, vários se lhe seguiram. O Café Portugal e a Chave de Ouro, em Lisboa, ou o Café Imperial na Praça da Liberdade, são apenas alguns exemplos. Agora, basta um breve passeio pela baixa de Lisboa e é impossível não tropeçarmos num qualquer chill out café ou lounge café . Locais onde se pode estar com tempo e com calma. Nada contra. Mas não deixa de ser um exemplar retrato da forma como a economia global nos embrulha a modernidade, reescrevendo a história e vendendo o velho como uma novidade absoluta. Não se apropria apenas das fachadas e do espaço físico. Resgata a memória e a língua. É como se nada tivesse existido antes destes espaços normalizados, estandardizados e assépticos. O velho é novo. O novo é velho. A novílingua passou por aqui. E esqueceu-se do tabaco, claro.

* título do post retirado da letra d´O tempo não pára, de Cazuza.
20
Dez07

Retratos da costa ocidental da Europa

Pedro Sales
De vez em quando o país acorda do torpor em que se encontra e vê na televisão imagens que se julgavam esquecidas. Faltam as palavras para descrever a barbaridade e crueldade de um suinicultor que abandona centenas de porcos à sua sorte, condenando-os a morrerem de sede e de fome, não hesitando mesmo em colocar em risco a saúde das populações vizinhas. Um dia depois da ASAE emitir um comunicado sobre a higiene das colheres de pau, sabemos que uma suinicultura que funcionava ilegalmente há sete anos nunca conheceu qualquer entrave à comercialização para consumoda carne dos seus animais. As autoridades competentes conheciam o caso e nada fizeram porque a suinicultura era ilegal! É normal. A lei que deveria proteger os direitos dos animais, o PL 92/95, está há 12 anos à espera de regulamentação governamental, criando um vazio legal que permite que actos como este permaneçam impunes. É mesmo o triunfo dos porcos.
20
Dez07

Portugal no seu melhor

Pedro Sales
A Direcção Geral de Veterinária sabia, há sete anos, que a suinicultura em Alcácer do Sal estava a funcionar ilegalmente. Quando questionada sobre o porquê do tardio encerramento da exploração: “Nunca foi mandada fechar porque, oficialmente, nunca abriu.” É uma metáfora certeira sobre a forma como vai funcionando o país. Se tiver um negócio e não quiser ser importunado pelas autoridades permaneça na ilegalidade.

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