Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Zero de Conduta

Zero de Conduta

10
Dez07

Foi um sucesso pá, não foi?

Pedro Sales
A mensagem vem repetida, a uma só voz, em toda a imprensa portuguesa. A cimeira Europa-África foi um sucesso alterando o paradigma das relações entre os dois continentes. Doravante partilhamos a “mesma agenda”. Que sentido tem isto? Como é que o continente onde se encontra a maioria dos países mais miseráveis do mundo pode ter a mesma agenda do bloco comercial mais poderoso do planeta? Qual é a agenda comum entre um operário qualificado alemão e um trabalhador agrícola moçambicano, que passa quase toda a sua a vida sem sair do latifúndio onde trabalha? E entre a economia francesa e do Chade. A "mesma agenda" não passa de um eufemismo para a liberalização e desregulação dos mercados. Foi esse o caminho para o desenvolvimento que a Europa propôs a África. Não deixa de ser irónico que os líderes de um gigante agrícola altamente subsidiado, fechado e regulado se dirijam, paternalistamente, para os países pobres ou em vias de desenvolvimento e exijam a abertura total e desregulação do seu mercado como condição para o seu interesse. O que é bom para nós nos desenvolvermos e tornarmos ricos não serve para vocês. Nós temos a receita. É o liberalismo assimétrico no seu esplendor

Que tenha sido um dos poucos líderes decentes a bater com a porta, o presidente do Senegal, ou a principal potência industrial, a África do Sul, a dizer que os acordos de parceria economia não servem é sintomático. Parece que alguns ditadores provocam dores de cabeça a Gordon Brown e demais líderes europeus. Passam a vida a falar de bom governo e governança enquanto as empresas europeias florescem com acordos leoninos assinados às claras com as piores tiranias. Mas, como sempre, as dores de cabeça e os embaraços que contam ainda têm lugar com a autonomia que só a democracia permite.
10
Dez07

Bem vistas as coisas, a pobreza (já) é o seu negócio

Pedro Sales
Mesmo longe da cimeira Europa-África, Gordon Brown quis provar que também é homem para ter as suas preocupações humanitárias, apresentando um plano para conquistar 20 grandes multinacionais para apoiar os países mais pobres no seu esforço de desenvolvimento. Para começar, Brown diz estar já em negociações com empresas como a Vodafone, Google ou Wall-Mart. Sim, leram bem, a Wall-Mart. Aparentemente o primeiro-ministro britânico quer-nos fazer acreditar na responsabilidade social de uma empresa cujas práticas comerciais e laborais deram origem à inédita situação de ter a sua entrada em Inglewood - subúrbio de Los Angeles onde jogam os Lakers - vetada num referendo pela população local . Os argumentos? A destruição do pequeno comércio e a degradação dos salários da região. Como se vê, um currículo exemplar para apoiar os mais pobres dos pobres. Afinal, poucos se podem orgulhar de ter um tão vasto trabalho com a pobreza. Da sua expansão, pelo menos.
25
Nov07

Pasta

Pedro Sales
Enzo Rossi é um empresário italiano que, durante um mês, tentou viver com os mil euros que pagava aos operários da sua fábrica de pastas alimentares. Ele a sua mulher, que também trabalha na empresa, tentaram gerir a sua vida com dois mil euros. Como o dinheiro, mesmo poupadinho, só chegou até ao dia 20, Rossi resolveu aumentar os vinte empregados em 200 euros por mês. O episódio tornou-se um caso em Itália, e já correu mundo. Quando lhe começaram a chamar "empresário comunista", respondeu que não. Que é egoísta. Quer empregados motivados e despreocupados com a ginástica mental para pagar as contas, disse. Uma evidência.

A forma como o episódio tem sido contado pela imprensa faz lembrar uma frase de Freitas do Amaral durante a contestação à invasão do Iraque. Quando questionado porque razão se foi alinhando com posições políticas mais comuns à esquerda, Freitas respondeu que nunca mudou. O panorama politico é que se desviou para a direita. De facto, vivemos tempos extraordinários. Os trabalhadores desapareceram e deram lugar aos colaboradores, as bolsas ressuscitam a cada notícia de despedimento e o que devia ser a norma, aumentar empregados que recebem bastante abaixo do salário médio, tornou-se a excepção. Dá direito a excursão de ministros, a seminários em faculdades de gestão e a dezenas de entrevistas. É uma espécie de intervalo na programação do noticiário para apresentar um “comunista” no seu habitat natural. Um freak show. Com tanto elogio, parece que ninguém perdeu tempo para fazer as contas e reparar que o generoso aumento só vai durar até ao dia 24 de cada mês.
11
Out07

Alegria no trabalho

Pedro Sales




Contrariamente aos velhos do Restelo que teimam em insistir que nos call center impera a subcontratação e os baixos salários, este anúncio é a prova definitiva sobre a sua visão distorcida do mercado. A Marta já não atende os telefonemas e tem um qualquer posto de chefia, provando como as carreiras são estáveis e valorizadas, o ambiente é espaçoso e impera a motivação no trabalho. Para além disso, os empregados são seleccionados na Elite Models e, como é regra na maioria das empresas, só usam computadores da Apple. Há o país real, o país do Governo e um país qualquer que ninguém conhece e que aparece nos anúncios.

(Actualizado)Para todos aqueles que pretendam uma ideia mais consentânea com o que se passa nestas empresas, vale a pena ver o blogue da Ferve, fartos destes recibos verdes

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

ZERO DE CONDUTA

Filipe Calvão

José Neves

Pedro Sales

Vasco Carvalho


zeroconduta [a] gmail.com

Arquivo

  1. 2008
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2007
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D