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Zero de Conduta

Zero de Conduta

25
Fev08

Lógica da batata

Pedro Sales

Realizou-se na semana passada o VI Congresso Nacional do Milho, ficando acordado no encontro a produção de mais 200 mil toneladas deste cereal para garantir a quota nacional de 10% de agrocombustíveis até 2010. Segundo o presidente da associação promotora do encontro, Luís Vasconcelos e Sousa, a crescente utilização do milho e sorgo na produção de agrocombustíveis “nunca irá pôr em causa a produção destes cereais para fins alimentares”. Tudo bem, não fosse o problema que se coloca não ser a escassez de cereais mas o seu preço. O pão aumentou 30% este ano, e é provável que ainda aumente mais 15%. O leite vai pelos 15%, enquanto a maioria dos bens alimentares se fica pelos 5 a 10%.

Portugal não é um caso isolado. A pressão inflacionista nos bens alimentares é mundial e tem o dedo nada escondido da corrida ao “petróleo verde” - cujos efeitos nefastos estão longe de se ficar pela carteira. Curiosamente, enquanto o ministro da Agricultura diz estar “preocupado” com aumento dos bens alimentares, o Governo garante generosos milhões de euros em benefícios fiscais para desviar terrenos agrícolas para produzir combustíveis que vão tornar a comida ainda mais cara. Pagamos duas vezes. Nos subsídios e no supermercado. O Governo parece encontrar alguma lógica nisto. Por mim, só encontro a da batata.
25
Fev08

Identificação visual

Pedro Sales
Numa demonstração de certeira pontaria, das várias centenas de professores que se manifestaram no Porto, a policia pediu a identificação aos três que prestaram declarações à televisão. Para a próxima já sabem. Manifestações sem autorização ainda vá que não vá, que o governo é magnânimo e deixa passar, mas deixem-se lá é dessas manias de falar mal do Governo para as câmaras...
22
Fev08

Um "mal estar difuso"

Pedro Sales

Há 10 anos que os funcionários da função pública perdem poder de compra. O ano passado, o salário médio líquido dos trabalhadores por conta de outrem passou de 719 para 720 euros. As pensões dos mais pobres dos pobres, 1,6 milhões de portugueses que recebem menos do que o salário nacional, tiveram um “aumento” abaixo da inflação. Conhecedor destes números, Teixeira dos Santos foi ontem ao Parlamento recusar uma correcção salarial a meio do ano se, como é quase certo, a inflação ficar acima da calculada pelo Governo nas negociações dos aumentos salariais e de pensões. O que devia ser uma questão de boa fé, num país em que os governo se "enganam" sistematicamente na taxa de inflação, foi tornado pelo ministro das Finanças no risco risco de uma “espiral inflacionista penalizadora da generalidade dos portugueses”.

As declarações de Teixeira dos Santos resumem o actual momento do Governo. O discurso pode ser cada vez mais optimista, mas continua-se sem perceber para que foram os sacrifícios, e tantos anos a apertar o cinto em nome da estabilidade financeira, se, três dias depois do primeiro-ministro ir à SIC garantir que “temos as contas públicas em ordem”, se continua a defender a perda do poder de compra dos trabalhadores. A questão já nem é saber se seremos apanhados por todos os países de Leste, é quando? Depois admiram-se de estudos, como o da Sedes, alertarem para a existência de “um mal estar difuso”, que “alastra e mina a confiança essencial à coesão nacional”. A sorte de Sócrates é o PSD que tem. O azar da democracia é que o aumento da abstenção e a crise de confiança na palavra dos políticos vai ser um dos legados fundamentais do governo de José Sócrates.
21
Fev08

Português técnico

Pedro Sales

A mesma imprensa e colunistas que dedicaram dezenas de horas e páginas de jornal a discutir a entrada do Governo de José Sócrates em campanha eleitoral, discute agora o tabu da sua recandidatura sem se deter 3 segundos na contradição. Será que alguém acha que o homem está em campanha para entregar o cargo a Vitalino Canas? Sejamos sérios, o tabuzinho da recandidatura tem menos densidade intelectual que um episódio dos Morangos com Açúcar. É um "não tema", e só mereceu todo este destaque porque a entrevista de José Sócrates foi a irrelevância política da semana. Sem novidades, e sem uma justificação convincente para o que fez nos últimos 3 anos, limitou-se a debitar a matéria dada nos últimos debates no Parlamento.  Convenceu os convencidos.
19
Fev08

Meter água

Pedro Sales

Choveram 65 mm por metro quadrado em Lisboa. Pouco mais de metade do que aconteceu nas cheias de há 40 anos, mas mesmo assim o suficiente para lançar o caos na capital e arredores. Acessos bloqueados, ruas inundadas, falhas de luz e gás. Fiel aos velhos valores nacionais, o ministro do ambiente resolveu sacudir a água do capote. Diz que a culpa é das câmaras, e até tem razão, porque o tratamento de esgotos é uma brincadeira. Mas daí até dizer que o país não tem um problema de ordenamento do território, vai a distância que separa a desresponsabilização individual do disparate sem sentido. Será que Nunes Correia é a única pessoa que ainda não se apercebeu que a desproporção entre as chuvas e o seu efeito, começa precisamente no desordenamento territorial? Em Portugal constrói-se onde se quer e apetece. Em leito de cheia, alterando a linha de água e impermeabilizando todos os solos. Se dá para injectar betão é porque se pode construir. Depois logo se vê. Uma irresponsabilidade que está longe de ser exclusiva das autarquias, mais a mais quando é este mesmo Governo que se preparar para construir a plataforma logística bem no meio do leito de cheias do Tejo. O ministro acha que não há um problema de Ordenamento? Claro que não. E este mês tem 31 dias.

PS: Algo me diz que, na primeira vez em que apareceu como protagonista, Nunes Correia traçou o seu destino político. Das câmaras afectadas pelas cheias, a única que não lhe respondeu directamente foi a de Lisboa. António Costa, que é o número dois do PS,  tem outros canais para fazer sentir o seu descontentamento. Quando é que é a próxima remodelação?
01
Fev08

Ruído

Pedro Sales
O mesmo Governo que garantia não existir nenhum problema com a política da Saúde, e que tudo se resumia a um problema de comunicação, mudou de ministro. O discurso agora é que não fecham mais urgências sem alternativas. O contrário do que fez Correia de Campos. Mesmo assim, o Governo diz que a política se mantém.Incoerência? Recuo? Nada disso. Não perceberam? Deve ser mais um problema de comunicação.
29
Jan08

Os amigos são para as ocasiões

Pedro Sales
O mesmo Governo que reintroduziu os benefícios fiscais para os PPR, reduziu o remuneração dos certificados de aforro pela segunda vez no espaço de 18 meses. Uma medida que prejudica 700 mil portugueses, essencialmente idosos e com pequenas poupanças, que compraram os certificados confiando na palavra do Governo e se vêm agora, de um dia para o outro, com um produto que perde 10% de rendimento a médio prazo. Será normal que uma parte significativa dos pequenos aforradores emigrem para os fundos da banca, que se vê agora com produtos similares e melhor remuneração do que as novas taxas dos certificados de aforro, mas onde vão deparar com um sem número de produtos financeiros com um risco muito mais elevado. Como estamos a falar de pessoas com um escasso conhecimento dos produtos financeiros existentes, e os funcionários das agências bancárias têm metas a apresentar, será muito provável que alguns dos reformados acabem por investir as suas poupanças num “fundo fantástico na Papua Nova Guiné”. Uma sondagem do Eurostat, hoje citada no Diário Económico, diz que “só 10% dos portugueses estão optimistas com a economia”. Bate certo. Devem ser os accionistas da banca.
28
Jan08

Um Governo de palavra

Pedro Sales
Um ano antes de expulsar os imigrantes marroquinos, o Governo alterou a lei da imigração. Vale a pena ler a exposição de motivos da Proposta de Lei n.º 93/X:

"(...) Por fim, reforça-se a luta contra a imigração ilegal, através da adopção das seguintes medidas: (...) Prevê-se a concessão de autorização de residência a vítimas de tráfico de pessoas e de acções de auxílio à imigração ilegal que colaborem com a justiça. Este regime é essencial à perseguição das redes de tráfico de pessoas, sem contudo adoptar uma concepção utilitarista, na medida em que em primeira linha visa a protecção do estrangeiro enquanto vítima de um crime grave de violação de Direitos Humanos. Todo o regime de concessão de autorização de residência a vítimas de tráfico de pessoas assenta no reconhecimento de que tal prática deve ser entendida enquanto atentado inaceitável aos direitos humanos, colocando a vítima no âmbito de uma protecção muito específica por parte do Estado. Tal contribuirá em grande medida para tornar menos atractivo o território nacional enquanto país de destino de pessoas traficadas e, espera-se, para diminuir, em Portugal, o número de pessoas traficadas, em especial de mulheres." (via Aldeia Blogal)

Começa a ser congénito: não cumpre as promessas e não liga às leis que apresenta.

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