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Zero de Conduta

Zero de Conduta

14
Dez07

Os eufemismos dos carrascos

Pedro Sales

Os EUA não recorrem à tortura, garantiu Bush há uns meses. De lá para cá o assunto tornou-se um dos temas da campanha presidencial americana, como o Filipe já aqui chamou a atenção, sucedendo-se as evidências do recurso a métodos ilegais para extrair informação. Mas Bush lá tinha as suas razões. Os EUA não torturam porque, na nova terminologia das suas agências, nada é tortura. O Guardian fez um levantamento dos termos utilizados pelos serviços secretos dos EUA para inventarem nomes mais "suaves" para designar aquilo que toda a gente chama pelo seu nome: tortura. "Gestão do sono" é um dos melhores.

Em cima, vídeo da campanha da Amnistia Internacional contra a tortura nos EUA: Unsubscribe.
16
Nov07

Uma visita bem sucedida

Pedro Sales
O prestígio internacional e uma maior aproximação aos Estados Unidos da América foram dois dos principais argumentos invocados pelos defensores do alinhamento português na guerra do Iraque. Os resultados estão à vista. George Bush acaba de vetar uma proposta orçamental do partido democrata, utilizando as aulas de português como segunda língua como o exemplo das despesas inúteis a que pretende pôr cobro. No período em que esta proposta legislativa esteve em discussão, José Sócrates e Cavaco Silva visitaram os Estados Unidos da América. O primeiro-ministro encolheu-se e não reagiu quando ouviu Bush agradecer-lhe "a sua decisão de ajudar o povo do Iraque e do Afeganistão a perceber a bênção da liberdade”. George Bush é pouco amigo dos seus amigos. Pelo menos daqueles que percebe que pode tratar e destratar como lhe apetece. Foi uma visita bem sucedida, disse o primeiro-ministro, mas não para os portugueses a viver nos EUA. Não só ficam sem aulas para os seus filhos, como ainda são gozados por um presidente que é bem capaz de não saber onde fica Portugal.
12
Nov07

A "liberdade de escolha" não convence ninguém

Pedro Sales
Reparo, com algum atraso, que no Utah, um dos estados norte-americanos mais conservadores, os eleitores rejeitaram o tão falado cheque ensino. Foi a décima vez, desde 1972, que uma proposta idêntica foi referendada num estado norte-americano. Foi a décima vez que foi rejeitada pela população. Para quem passa a vida a defender o cheque-ensino com base na suposta liberdade que atribui aos cidadãos, convenhamos que a rejeição sistemática a que estes votam esta proposta devia fazer os seus proponentes pensar duas vezes. Talvez evitassem continuar a defender o cheque-ensino com base numa estapafúrdia comparação entre o sistema de ensino e as padarias.

Na sua coluna de hoje no Público, Pedro Magalhães faz uma justíssima referência a um blogue, dizendo que "é verdadeiramente espantoso como, em poucos dias após a divulgação dos rankings, um blogue de um economista não académico (Miguel Madeira, no Vento Sueste) tenha feito mais pela análise dos resultados que centenas de técnicos do Ministério da Educação e dezenas de professores universitários supostamente especialistas em políticas educativas nos últimos sete anos". Só ontem à noite, numa tardia vista de olhos pelo Technorati, reparei nos dados apresentados pelo Miguel Madeira. Ainda não os li todos com a atenção que merecem. Mas é um contributo imprescindível para uma melhor compreensão dos rankings.
10
Nov07

O dólar perdeu o sex appeal

Pedro Sales
Qual crise do "subprime" qual quê. Se alguém ainda tinha dúvidas de que alguma coisa se passa com a economia norte-americana, ponha os olhos na Gisele Bundchen (reconheço, a piada é demasiado óbvia) que só aceita ser paga em euros ou no vídeo promocional da banda sonora do novo filme de Ridley Scott. Sinal dos tempos, Jay-Z, um dos principais nomes do rap, apresenta um molho de notas de euro como sinal máximo de riqueza. O rap das notas verdes e brutos colares de ouro rendeu-se ao euro. É definitivo: o dólar perdeu o sex-apeal. Pior, as autoridades chinesas já põem em causa o investimento nos títulos da reserva dos EUA – um dos suportes do gigantesco défice criado por Bush para pagar a Guerra e os gigantescos cortes de impostos para os 1% mais ricos. Talvez isso explique porque razão Bush conseguiu o impensável: ter pior índice de aceitação do que Nixon na véspera deste ser destituído.
27
Out07

especulação numa ciência oculta

Filipe Calvão

$2,400,000,000,000. 2 milhões de 400 milhões de dólares (ou 2 triliões e 400 biliões?). É até agora a estimativa mais alta do custo da guerra. (disclosure): eu perco-me nos milhares de milhões.

Cada um dá o seu palpite. Há uns meses, o NYTimes fez as suas contas e chegou a 1.2 triliões. Há quem faça contas ao dia (300 milhões de dólares), há quem prefira a longue durée de uma semanita (2 biliões). Até agora, e em investimento aprovado pelo congresso, já se gastaram mais de 350 biliões de usd na ocupação do Iraque. Stiglitz (conselheiro Clinton I, Nobel 2001, autor de Globalization and its Discontents -- mercadoria quentinha) aposta nos 2 triliões. Certo, certo é que longe vai o tempo em que um conselheiro da Casa Branca era despedido por sugerir que o custo total da guerra andaria nos 200 biliões de usd. (NYTimes)

Mas de acordo com estas contas do congresso, e prevendo que os EUA fiquem no Iraque e Afeganistão até 2017, o governo federal Americano enterrará qualquer coisa como 1900 pontes vasco da gama (a 897 milhões de euros cada) ou o equivalente a 4.3 anos do PIB de Portugal (a 229 mil milhões de dólares/ano). Trocado por miúdos, se os EUA decidissem brindar cada cidadão português em nome da paz com soma equivalente, isso dar-nos-ia qualquer coisa como 240 mil dólares. Notem que este truque de bruxaria só inclui o investimento federal, não calculando custos indirectos como o apoio médico aos soldados feridos ou o aumento no preço do petróleo. Só por isso é que é tão optimista: a 200 biliões de dólares/ano, só para o Iraque, mais os custos da ocupação do Afeganistão, não será difícil ultrapassar os 3 biliões de dólares num espaço de 14 anos (2003-2017). Nem vale a pena tentar meter o Irão nestas contas, lá chegaremos.

Eu só sei que não me importaria com os 240 mil dólares. Em nome da paz, claro.

(Hoje houve manifs nas principais cidades americanas)
(Entrevista de Joseph Stiglitz à Rolling Stone)

Um apoio visual, tirado de Crooks&Liars:


Isto são 9 milhões de dólares, à escala humana, e juntando cada nota de dólar.E isto são 315 biliões de dólares. O pontinho preto no canto é a figura anterior. Esta figura vezes 7 e terão a massa física do dinheiro gasto na guerra.
10
Set07

Não acertam uma

Vasco Carvalho
Porque amanhã é 11 de Setembro de 2007 e Bin Laden continua a mandar cassetes de vídeo à malta. Porque hoje, véspera da efeméride macabra, é de novo o dia-D-do-Iraque com o generalíssimo Petraeus a jurar pelo seu manual de contra-insurgência, pela Bíblia e pela Constituição -é tudo o mesmo por estes dias- que "está tudo bem assim e não podia ser de outra maneira". Porque Portugal, muito por culpa das inenarráveis personagens que tinha no governo da altura, também é responsável pela actual situação no Iraque. Porque Durão Barroso foi e será apenas um Barrasshole. Porque Sampaio errou. Porque Paulo Portas não acerta uma.

Por tudo isso, aqui fica a nossa posição enquanto nação em 10 de Junho de 2003, quando Pablo Doors atingia o seu nirvana, recebendo Rumsfeld em Lisboa.

Portas: [In Portuguese.] The only thing that the international community knows is that Saddam Hussein lied to the United Nations and to civilized countries for a decade. I would like to call attention to the fact that the weapons of mass destruction are not an assertion, they are a real problem. For ten years Iraq deceived the United Nations, first hiding them, then showing incomplete lists, then saying they had destroyed them, then moving them to systematically evade the international rules for containing this weaponry. Iraq is a country the size of France. A weapon of mass destruction might be the size of this podium. Finding something the size of this podium in a country the size of France is not something you can do in either a day or a month. But obviously Iraq today is no longer the threat to either the region or to the world that it was when Saddam Hussein was in power.

Negociar uma chefia da NATO, a base dos Azores, polícia para o Iraque, contratos para os Tugas, Donald para cá, piada para lá, Paulo Portas estava enebriado pelo poder; tinha finalmente chegado o seu momento, finalmente o seu pódio. É que as armas de destruição maciça podiam ter sido do tamanho do seu pódio, do seu ódio. Mas não foi assim.
Quatro anos depois Portugal continua a tentar esquecer esta nódoa, admitindo envergonhadamente o seu papel de escala autorizada numa rede internacional de rapto e tortura. Ninguém acertou uma e os Iraquianos que se lixem. Está tudo bem assim. Deixo-vos com a despedida do nosso Pablito ao Donald. Mais um erro para a história.

Portas: [In Portuguese.] Ladies and gentlemen, I'm going to say farewell to Secretary Rumsfeld.

[In English.] I'll just tell you one thing, Donald. You said in Washington that we have two things in common. You were elected to Congress with 30 years old; I was, too. You were Secretary of Defense with 40 years old, the first time; I was, too. But there's a third thing in common: after Iraq, we're still in job. (Laughter.)

Rumsfeld: Very good, very good!

Tão felizes que nós fomos.

PS: Verdade seja feita, Rumsfeld é amigo. Pablo Doors ganhou o "Distinguished Public Service Award" do Departamento de Defesa Americano, em Maio de 2005: " for his leadership and service as Portugal's minister of defense". Ah, e parece que agora tem "large experience and contacts with the major global defence industries (HDZ, EADS, Embraer, Lockeed Martin, Boeing, L3, Allenia, Agusta Westland, Steyer, Mowag, Patria, HK, Colt, Elbit, etc)". Vá lá, ao menos alguém saiu com o CV enriquecido.
04
Set07

o síndroma do ninho cheio e outros neologismos

Vasco Carvalho
Aqui há dias o Cabral, via NYTimes, chamou a atenção para um novo epíteto: a nova geração boomerang (1) dos EUA, jovens adultos que depois da universidade são forçados a regressar a casa dos pais, endividados e sem perspectivas (ver também aqui). Fiquei curioso mas pouco convencido. Seria uma mudança de monta numa sociedade onde viver com os pais depois dos 20 anos vem com uma etiqueta pesada de looser; ou no mínimo, de indolência, objecto fácil de sátira.
% de jovens adultos em casa dos pais; EUA (fonte: CPS, tabela AD1)

Os números da Current Population Survey (CPS) indicam que este fenómeno não aparece nas estatísticas oficiais. É sempre um desafio ver tendências com pouco mais de 20 observações, mas a destacar alguma coisa seria a estabilidade destes números. Ainda pensei ver um efeito cíclico ao menos, mas nada a apontar. Talvez só mesmo o fenómeno inverso para jovens (homens) entre os 18-24 anos. (ver também aqui para a mesma conclusão)

Não sendo óbvio o tal efeito boomerang, quais são então as estratégias de sobrevivência dos jovens americanos?
Bom, deixam de ter seguro de saúde (30% dos jovens americanos - mais de 13 milhões de pessoas- não têm seguro), têm filhos mais tarde, compram a primeira casa mais tarde (ver aqui para o Reino Unido), e são cada vez mais a maioria dos working poor, trabalhando mais horas para pagar a dívida com que saem da universidade (dívida que aumentou 50% na última década, em termos reais). E isto são os sortudos: 20% dos sem-abrigo americanos têm entre 18 a 30 anos (tabela 3-5). Ver aqui para mais informação sobre as condições de vida dos jovens americanos.

Neste contexto, a tal rede de apoio familiar seria muito bem vinda. A inexistência do boomerang só piora a situação e gera outro neologismo: 'disconnected young adults' (ouvir uma reportagem aqui), sem família, sem emprego, sem comunidade de apoio.


(1): No Japão, ao que parece são apelidados de solteiros parasitas.

PS: Este post foi substancialmente alterado, na forma e no conteúdo. Isto porque o Cabral tinha razão na 'big picture', e a versão inicial estava longe de o dizer. Mea culpa.

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