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Zero de Conduta

Zero de Conduta

06
Nov07

Para além disso, toda a gente sabe que a "medicina socialista" come criancinhas ao pequeno-almoço

Pedro Sales
"Eu tinha cancro da próstata há cinco, seis anos atrás. As minhas hipóteses de sobreviver - e, graças a Deus, fiquei curado - nos Estados Unidos? Oitenta e dois por cento. As minhas hipóteses de sobreviver a um cancro na próstata na Inglaterra? Apenas 44 por cento, com a sua medicina socialista".

Já há vários dias que se sabia que os números usados por Rudy Giuliani, o mais que provável candidato republicano às presidenciais norte-americanas, eram falsos. Ontem, numa raríssima intromissão na campanha eleitoral de outro país, o ministro da Saúde britânico veio desmentir publicamente o candidato presidencial republicano e esclarecer que, em Inglaterra, a taxa de recuperação se situa nos 74.4% - e a subir. Pouco importa. Giuliani, numa exemplar demonstração de que Bush fez escola na política americana, já garantiu que vai continuar a transmitir o anúncio na mesma.

Mas o mais importante no anúncio não é tanto o que diz Giuliani mas o que fica por dizer. Esconde que a "medicina socialista" custa aos contribuintes menos de metade do que os americanos gastam em despesas de saúde. O único país industrializado sem um serviço universal de saúde, é o país que gasta mais em despesas médicas: 15% do PIB. O resultado? 46 milhões de cidadãos, sem seguro, não tem acesso a nenhum cuidado de saúde. A pergunta que exigia resposta era essa. Qual é a probabilidade que esses milhões de pessoas têm de sobreviver a um cancro da próstata? Zero por cento. É esse o número que interessa, por muito que os nossos liberais de serviço pretendam elogiar as virtudes de um sistema exclusivamente privado que gasta fortunas para apresentar indicadores medíocres.
02
Nov07

382866

Pedro Sales
A TVI divulgou, ontem à noite, as conclusões do Inquérito da Inspecção-Geral de Saúde de 2006. Segundo esse estudo, que foi ocultado pelo governo durante mais de um ano, em 2006 existia uma lista de espera de 382.866 pedidos para uma primeira consulta de especialidade hospitalar. Uma notícia duplamente incómoda. Pelo que revela da política de saúde do Governo, mas também sobre a metodologia política do próprio. Em primeiro lugar, e como se torna evidente, um número desta grandeza é a consequênca directa de uma política continuada de concentração e encerramento de serviços. Depois, e essa parece ser a parte que o governo menos percebe, não basta ter médicos. É preciso que eles estejam nos hospitais e centros de saúde. A exclusividade da carreira deve ser valorizada como a norma e não como a excepção. O Governo tem seguido o caminho oposto e, para poupar dinheiro, tem criado e favorecido todas as condições para os médicos encararem o serviço público como um pé de meia garantido que lhes permite, depois, ganhar mais dinheiro no privado.

A forma como o documento foi conhecido, através da imprensa, é reveladora sobre o entendimento instrumental que Correia de Campos tem dos organismos da administração pública e do escrutínio democrático dos actos do Governo. É inaceitável que os dados da administração pública sejam encarados pelo ministro como propriedade sua, divulgando o que entende e quando bem entende. Pode parecer estranho a Correia de Campos, mas este dado é quase tão significativo como o primeiro.
28
Set07

Desperdício público?

Pedro Sales
Os trabalhadores da General Motors voltaram ontem ao trabalho, depois de dois dias de greve que paralisaram as 80 fábricas do construtor nos EUA. Na origem do conflito estavam os cortes nos seguros de saúde dos 1,2 milhões de funcionários e reformados da empresa. A General Motors gasta mais em seguros de saúde do que no aço com que constrói os carros. São 5,2 mil milhões de dólares. Vale a pena comparar com o nosso Sistema Nacional de Saúde. São 11,2 mil milhões de dólares para 10 milhões de beneficiários, um custo por pessoa 4 vezes inferior.

A disparidade destes números, em benefício do sistema público, ajuda a perceber porque razão sendo os Estado Unidos o país que mais gasta em saúde, tem 46 milhões de cidadãos sem assistência médica e os seus indicadores não param de piorar. Quando os blogues liberais nos vierem novamente falar das virtudes da privatização de importantes segmentos dos serviços públicos, incluindo a saúde, vale sempre a pena lembrar este exemplo.
10
Set07

Saúde, SA

Pedro Sales
O Governo vai construir 10 novos hospitais através de parcerias público-privado (PPP). Em, pelo menos, quatro dessas unidades a gestão será entregue ao consórcio vencedor. É o caso do novo Hospital de Cascais, um dos 4 primeiros a estar adjudicado, e onde o grupo de saúde da Caixa Geral de Depósitos deverá começar a gerir o actual hospital já este ano.

Depois do Governo sempre ter negado as notícias que davam como certo o encerramento do serviço de oncologia e de SIDA, confirma-se agora que a oncologia de Cascais vai mesmo encerrar. Uma decisão que já mereceu duras críticas da Ordem dos Médicos, recordando que estamos a falar de uma unidade de excelência, sem listas de espera, que presta 4000 sessões de tratamento a 350 novos doentes por ano. Com o seu encerramento, estes doentes vão ser atirados para o IPO, que ainda nem se sabe para onde vai, e para o Centro Hospitalar de Lisboa Ocidental, cujos hospitais registam uma lista de espera superior a seis meses.

O Governo sempre disse que estas parcerias seriam um teste para o SNS. Tinha razão. Este encerramento é apenas um prenúncio do que aí vem. Os serviços mais dispendiosos, como é o caso da oncologia, mas também o tratamento de doenças prolongadas como a SIDA, não interessam aos grupos privados que se candidataram à gestão dos hospitais públicos. Os tratamento são dispendiosos e os doentes permanecem longos períodos hospitalizados. Não são rentáveis, afectam os balancetes de contas, e deixam os senhores administradores ficar mal no relatório financeiro anual. Nesta lógica empresarial são um passivo a despachar rapidamente, de preferência para um hospital com gestão pública. Daqui a uns tempos confirmar-se-á que são estes que têm piores indicadores económicos e meio mundo fingirá estar muito espantada, enquanto vai exigindo mais espaço para os grupo económicos gerirem um negócio de milhões.
11
Ago07

Another one bites the dust

Vasco Carvalho

Joy Division, Love will tear us apart, 1980

Intelectual Anarco Capitalista. Seria uma denominação ridícula se não tivesse descoberto os Joy Division, fundado a Factory Records, sido o primeiro a passar Sex Pistols na TV e o centro da cena de Madchester (bem documentado em 24 Hour Party People). Tony Wilson morreu de cancro, sem dinheiro para pagar a medicação que lhe receitaram porque o venerável NHS do Reino de Sua Majestade só comparticipava esta medicação num número limitado de zonas de códigos postais e o dele, infelizmente, não tinha sido eleito no sorteio.

A historieta seria apenas mais uma ilustração macabra de dois pontos maiores: i) o falhanço da eterna reforma do NHS, (mais uma) culpa à qual Blair não pode escapar (apesar de todo o spin) e ii) o desrespeito com que os Estados modernos tratam os seus cidadãos com cancro. São caros, têm poucas probabilidades de sobreviver e a ciência é cara e complexa. Ou seja, são os primeiros a abater (quase literalmente) na busca cega do 'menos e melhor Estado'.

Mas Tony Wilson era muito mais que uma historieta.

PS: In other news, Keith Richards veio admitir que sim, snifou as cinzas do pai. O pessoal é que tinha feito confusão: ele tinha dito que o snifou como se fosse coca, não com coca... Ah, pois, assim a história já faz sentido. Acho que a Disney já o pode receber de volta.
15
Jul07

Uma dúvida insuportável

Pedro Sales
As juntas médicas da Caixa Geral de Aposentações parecem, definitivamente, tomadas por uma imbecilidade que escapa ao comum dos mortais. Raro é o dia em que não se conhece a desumanidade de mais uma decisão. Hoje, é o Jornal de Notícias que dá conta de mais um caso marcado por uma gritante desumanidade. O quinto, no curto espaço de um mês.

Não basta que o Governo diga que vai alterar a composição das juntas médicas. É preciso mandar investigar o que tem levado, sempre no mesmo ministério, a Caixa Geral de Aposentações a mandar trabalhar funcionários nestas condições. Até pode ser que tudo não passe de uma trágica coincidência, mas não deixa de ficar uma impressão cada vez mais nítida de que alguém indicou que o ministério pretende ver todos os professores que puder nas escolas. Tem sido esse o discurso público da ministra, aliás, o que só reforça essa ideia. Passar uma esponja por cima destas aberrantes decisões, como se nada se tivesse passado, só contribuirá para reforçar essa convicção.

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