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Zero de Conduta

Zero de Conduta

26
Out07

Punição colectiva

Pedro Sales
O ministro da Defesa israelita decretou o corte de electricidade aos habitantes da faixa de Gaza, sempre que um ataque de rockets atinja Israel. Para o governo israelita, se há um míssil é porque ninguém fez nada para o parar. Se ninguém fez nada, são todos culpados. Tire-se-lhes a luz, que, às escuras, não conseguem encontrar o Katiuska. Uma medida desumana, contraproducente. Pensava-se que as punições colectivas de um povo fossem coisa do passado. Mas não. Atingindo indiscriminadamente mais de 1,5 milhões de pessoas, Israel dá mais um passo para tornar todos os palestinianos em seguidores do Hamas que dizem combater.
25
Set07

A "benção da liberdade"

Pedro Sales
Apesar de todos os esforços e protestos do governo Iraquiano, os mercenários da Blackwater vão permanecer neste país e já retomaram mesmo as suas operações. Ao abrigo de uma lei aprovada pelo antigo administrador americano no Iraque, Paul Bremer, o Governo iraquiano não tem jurisdição sobre os actos destas companhias de mercenários. São inimputáveis por todas as mortes e crimes cometidos, tornando o Iraque numa versão moderna do velho oeste norte-americano.

A democratização do Médio Oriente começa em Bagdad e vai até Riade, assegurava há uns anos José Manuel Fernandes, quando ainda lhe escorria uma “lágrima furtiva” ao ver os soldados americanos entrarem em Bagdad para fazerem um novo “25 de Abril”. Era este o nível do debate há 4 anos, quando a imprensa estava ocupada por artigos a defender a ocupação do Iraque para garantir a a democracia, a liberdade e a soberania ao povo iraquiano. Embrenhados na sua retórica, esqueceram-se foi de nos explicar que a soberania nacional e o estado de direito têm limites muito precisos, só se aplicando quando não põem em causa os interesses e negócios da administração Bush.

Faz hoje uma semana que George Bush agradeceu a José Sócrates a sua contribuição, e o apoio do povo português, para que o povo iraquiano descobrisse a "benção da liberdade". Talvez por estar pouco à vontade com o inglês técnico, o primeiro-ministro não reagiu à forma como Bush o vinculou a uma estratégia pela qual já ninguém quer dar a cara.
18
Set07

Pistoleiros

Pedro Sales
O Governo iraquiano vai expulsar do país os mercenários da Blackwater, retirando a licença à maior empresa de "segurança privada" a actuar no país. Estas empresas desempenham, desde o início, uma parte fulcral na ocupação militar do país, calculando-se que existam 30 a 50 mil mercenários a soldo das autoridades norte-americanas. De acordo com o partido democrata, quase metade do dinheiro gasto pelos EUA no esforço militar no Iraque vai para estas empresas, apesar de ninguém saber quais são as suas operações, métodos ou objectivos.

Apesar do segredo ser a alma do negócio, os constantes abusos chamaram a atenção internacional perante estes mercenários que não respondem perante os tribunais nem cumprem qualquer tipo de convenção internacional. O New York Times chama mesmo a atenção para que, de acordo com a lei em vigor, o governo iraquiano não tem capacidade para julgar os crimes cometidos por estes mercenários no seu país.

Ficam aqui dois vídeos sobre o modus operandi destas empresas. O primeiro, que originou uma investigação das autoridades dos EUA, revela a forma muito peculiar como estes senhores se divertem nos tempos livres. O segundo é uma reportagem da Nation sobre a Blackwater.



Ontem, George Bush agradeceu o apoio português nas intervenções militares no Iraque e Afeganistão.
13
Set07

Os anti-americanos do “mas” já chegaram à América

Pedro Sales
Enquanto dezenas de milhar de portugueses invadiam as ruas a protestar contra a guerra, e as sondagens indicavam uma oposição de 80% à invasão do Iraque, a imprensa enchia as páginas com editoriais e colunas de opinião que não escondiam uma “lágrima furtiva” com o “25 de Abril” de Bagdad. Foi curta a emoção, sendo curioso reparar como mudaram de opinião, ou passam ao lado do assunto, os mais encarniçados guerreiros de sofá da nossa imprensa.

O 11 de Setembro é o dia que lhes resta para ajustarem contas com o seu passado, sem os “adversativos” que tanto irritam Ferreira Fernandes. O colunista, que escreve diariamente na esquina direita do DN, está muito irritado porque “para alguns foi 11 de Setembro mas”. Não que Ferreira Fernandes tenha alguma coisa contra o mas e o uso de adversativos, não gosta é que alguém os utilize quando ele não concorda. Veja-se o que escrevia FF nos dias seguintes à eleição de Zapatero. “A discussão que vai para aí sobre se Aznar mentiu ou não! Um primeiro-ministro a escamotear dados para ganhar eleições é assunto importante quase sempre. Mas não neste caso.” Pois...

A mentira interessa pouco a Ferreira Fernandes, seja em Madrid ou em Washington, com paragem nos Açores. O exercício é conhecido. Quem critica a política da administração Bush, e a forma como conduziu a guerra ao terror depois do 11 de Setembro, é anti-americano. São "os que não contam". Só há um problema nesta lógica. É que os EUA estão cheios de anti-americanos. Tantos, que até levam os seus "mas" para os programas nas maiores estações televisivas. Aqui fica um exemplo, da emissão especial da MSNBC no 11 de Setembro.



12
Set07

O 12 de Setembro

Pedro Sales
Não há nada mais violentamente inaceitável do que a instrumentalização política da emoção e vulnerabilidade das massas. É o caldo mais certo para a manipulação. Cerceia a democracia, que se baseia na liberdade de discordar, tornando o unanimismo o único estado de alma aceitável. Coloca quem o questiona em anti-patriota ou, pior, no idiota útil que cumpre os desígnios do inimigo. Com a barbaridade sem nome dos ataques terroristas do 11 de Setembro, George Bush dispôs da solidariedade e do apoio raramente desfrutados por um seu antecessor. Os americanos estavam dispostos a segui-lo. O resto do mundo, preparado para apoiar uma administração norte-americana, como poucas vezes aconteceu no passado.

(gráfico: Wall Street Journal)

Tudo isso foi desbaratado pelo que veio a seguir, sempre com o ataque às torres gémeas como caução moral. O Pactriot Act e a limitação das liberdades civis. A vigilância electrónica de jornalistas e opositores. A admissão e banalização da utilização da tortura. A ausência de leis e direitos em Guantanamo. A violação da separação de poderes, base do Estado de direito, alterando a legislação a cada entrave dos tribunais aos desmandos da administração. O ajuste de contas com o passado e a ocupação do Iraque, em nome de uma gigantesca mentira. Os sucessivos erros e a ausência de um pingo de inteligência na gestão do período pós Saddam. O atoleiro em que se tornou o Iraque, palco da violência sectária e, agora sim, entregue aos fanáticos da Al Quaeda.

De um e do outro lado do Atlântico usou-se e abusou-se da (real) ameaça terrorista para criar as raízes de um estado policial cada vez mais presente, e em que os mais básicos direitos foram sendo postos em causa em nome da luta contra o terrorismo. É a essa luz que deve ser julgada a mais recente proposta da Comissão Europeia, que pretende banir da net palavras como genocídio ou terrorismo. É sempre em nome dos melhores princípios que começamos a vacilar na protecção contra o abuso e a aceitar o autoritarismo. Bush, ou alguém por ele, foi o principal arquitecto desta campanha. Foi ela que permitiu a um pequeno grupo ganhar milhões, aumentando quase sem limites o orçamento militar e os contratos sem controlo no Iraque.

Tudo isso deveria bastar para alguma discrição na celebração do 11 de Setembro. Fazer como fizeram ontem os americanos. Mas nada disso é suficiente para a nossa armada de corajosos guerreiros de sofá e para a direita radical. Depois de uma série de posts disparatados, estão muitos indignados porque o Daniel Oliveira escolheu o 11 de Setembro para criticar o Bush. É mais uma prova da superioridade moral da esquerda, dizem. “Claro que DO sabia de fonte segura que não existiam armas de destruição maciça. Claro que DO sabia que não existiam ligações entre Saddam e a al-Qaeda”. É o dono da verdade, rematam.

Como se a questão fosse que os opositores da guerra nunca tenham conseguido provar antes da guerra as suas dúvidas e não, como é obvio, que a administração Bush tenha começado uma guerra sem ter essas mesmas certezas. Mesmo para rescrever a história deve haver limites para a falta de pudor e de descaramento.
10
Set07

Não acertam uma

Vasco Carvalho
Porque amanhã é 11 de Setembro de 2007 e Bin Laden continua a mandar cassetes de vídeo à malta. Porque hoje, véspera da efeméride macabra, é de novo o dia-D-do-Iraque com o generalíssimo Petraeus a jurar pelo seu manual de contra-insurgência, pela Bíblia e pela Constituição -é tudo o mesmo por estes dias- que "está tudo bem assim e não podia ser de outra maneira". Porque Portugal, muito por culpa das inenarráveis personagens que tinha no governo da altura, também é responsável pela actual situação no Iraque. Porque Durão Barroso foi e será apenas um Barrasshole. Porque Sampaio errou. Porque Paulo Portas não acerta uma.

Por tudo isso, aqui fica a nossa posição enquanto nação em 10 de Junho de 2003, quando Pablo Doors atingia o seu nirvana, recebendo Rumsfeld em Lisboa.

Portas: [In Portuguese.] The only thing that the international community knows is that Saddam Hussein lied to the United Nations and to civilized countries for a decade. I would like to call attention to the fact that the weapons of mass destruction are not an assertion, they are a real problem. For ten years Iraq deceived the United Nations, first hiding them, then showing incomplete lists, then saying they had destroyed them, then moving them to systematically evade the international rules for containing this weaponry. Iraq is a country the size of France. A weapon of mass destruction might be the size of this podium. Finding something the size of this podium in a country the size of France is not something you can do in either a day or a month. But obviously Iraq today is no longer the threat to either the region or to the world that it was when Saddam Hussein was in power.

Negociar uma chefia da NATO, a base dos Azores, polícia para o Iraque, contratos para os Tugas, Donald para cá, piada para lá, Paulo Portas estava enebriado pelo poder; tinha finalmente chegado o seu momento, finalmente o seu pódio. É que as armas de destruição maciça podiam ter sido do tamanho do seu pódio, do seu ódio. Mas não foi assim.
Quatro anos depois Portugal continua a tentar esquecer esta nódoa, admitindo envergonhadamente o seu papel de escala autorizada numa rede internacional de rapto e tortura. Ninguém acertou uma e os Iraquianos que se lixem. Está tudo bem assim. Deixo-vos com a despedida do nosso Pablito ao Donald. Mais um erro para a história.

Portas: [In Portuguese.] Ladies and gentlemen, I'm going to say farewell to Secretary Rumsfeld.

[In English.] I'll just tell you one thing, Donald. You said in Washington that we have two things in common. You were elected to Congress with 30 years old; I was, too. You were Secretary of Defense with 40 years old, the first time; I was, too. But there's a third thing in common: after Iraq, we're still in job. (Laughter.)

Rumsfeld: Very good, very good!

Tão felizes que nós fomos.

PS: Verdade seja feita, Rumsfeld é amigo. Pablo Doors ganhou o "Distinguished Public Service Award" do Departamento de Defesa Americano, em Maio de 2005: " for his leadership and service as Portugal's minister of defense". Ah, e parece que agora tem "large experience and contacts with the major global defence industries (HDZ, EADS, Embraer, Lockeed Martin, Boeing, L3, Allenia, Agusta Westland, Steyer, Mowag, Patria, HK, Colt, Elbit, etc)". Vá lá, ao menos alguém saiu com o CV enriquecido.

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