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Zero de Conduta

Zero de Conduta

19
Ago08

Num país onde ninguém gosta de desporto, todos querem medalhas

Pedro Sales

Um país que não gosta de desporto acorda, de quatro em quatro anos, em sobressalto público com a participação dos atletas olímpicos. Comentadores televisivos, imprensa e blogosfera unem-se em coro para encontrar os culpados pela “lamentável”, “confrangedora”,”patética” e anedótica delegação nacional. Não passa pela cabeça de ninguém que num país em que existem três jornais desportivos diários que nunca falam de desporto, mas das contratações e tricas do mundo do futebol, dificilmente existe espaço para aparecerem desportistas de elite. Sem interesse mediático não há interesse comercial. Os clubes não funcionam sem dinheiro e só por anedota se pode falar de desporto escolar. As empresas portuguesas não apoiam o desporto. Investem nos nomes que ganham projecção internacional. É normal. Os portugueses não gostam de desporto. Gostam de ver “os seus” ganhar “lá fora”.


Mas a sanha está apertada e o país quer sangue. Os atletas não tiveram "brio", nem “orgulho nacional”. Como dizia hoje a SIC, houve participações “menos éticas”. Umas declaração manifestamente infelizes sobre as saudades da caminha, a arbitragem e umas provas em que os atletas estiveram longe do seu melhor foram projectadas a tragédia nacional. É preciso o sentido das coisas. Pouco éticas foram as participações dos únicos atletas nacionais que ganham dinheiro a sério e que acabaram um europeu e um mundial ao soco e à chapada aos árbitros. Curiosamente, as mesmas vedetas que enchem as capa dos jornais desportivos e que, quando se juntam, partem os balneários e vão aos J.O de Atenas perder com a selecção de futebol do Iraque em guerra.


Na RTP, um comentador resumia a coisa. A participação de João Neto, nono classificado na sua prova de judo, acabou “sem glória nem honra”. Sem honra, veja-se bem. Compreende-se bem as palavras de Gustavo Lima, depois de anunciar que abandona a vela. Sem dinheiro, mas com sacrifico pessoal as coisas ainda se aguentam, agora “para andar a ouvir frases como os portugueses andam a gastar o dinheiro dos contribuintes eu prefiro sair fora e sair de consciência tranquila”. Não deve ser o único.
 

2 comentários

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    Paulo Mouta 20.08.2008

    Devo lembrar que Gustavo Lima com ou sem queixumes foi o quarto classificado. O quarto melhor do mundo numa modalidade cuja prática é pura e simplesmente ignorada a nível do país, como o Pedro Sales salienta muito bem neste magníficos posts.

    Quanto ao comentário sobre a URSS e demais países, os JO ficaram a perder muito com o desmembramento de realidades desportivas como a da URSS, da República Democrática da Alemanha, a Jugoslávia, e países como a Roménia ou a Bulgária nem conseguem ser uma sombra do que já foram. Ok, o Ceausescu era um pulha criminoso mas isso não tira a beleza e a grandeza da participação dos atletas do seu país. Os JO foram desde sempre nesta era moderna uma montra desportiva mas sobretudo política.

    O desporto de alta competição exige grande rigor e grande disciplina. Exige também um investimento e uma estrutura bem planificada e muitos apoios públicos ou privados Exige um esforço que se torna quase sobre-humano na mais alta competição. Portugal apenas tem uma amostra disso no futebol cuja geração de ouro já chegou ao fim. E tal como refere o Pedro Sales essas vedetas do futebol nem sequer conseguiram qualificar-se para os JO.
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