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Zero de Conduta

Zero de Conduta

10
Ago08

"Sucesso" em Campolide

Pedro Sales

Um amigo meu, que assistiu à projecção de Tropa de Elite no Rio de Janeiro, deu-me conta do seu choque quando se apercebeu que os espectadores aplaudiam entusiasticamente a actuação policial sempre que o esquadrão com ordem para disparar a matar abatia uma pessoa. Traficante ou morador da favela era indiferente. No fundo, é tudo uma questão de tempo e de grau. A banalização da violência conduz à indiferença perante as garantias legais e à simpatia perante a lei nas próprias mãos.


Olhando para a reacção de incontido júbilo que parece ter tomado conta de Portugal, depois do tiro com que a polícia abateu um dos sequestradores de uma agência bancária, nada nos permite supor que a reacção entre nós fosse diferente. Com uma diferença significativa. O Rio de Janeiro é uma das cidades mais perigosas do mundo e Portugal é  um dos países com menor índice de criminalidade violenta em todo o mundo. A maioria dos que vociferam contra a canalha que tem que ser “posta na ordem”, e são lestos a aceitar trocar as suas liberdades e direitos por uma vã garantia de mais segurança, acreditam que há insegurança porque foi isso que viram na televisão.


Compreende-se a satisfação pela libertação dos reféns. Mais. Nem ponho em causa a actuação da polícia - mais não seja por manifesta falta de dados e de competência para o fazer. Mas esta não foi a primeira vez que as forças policiais responderam a um sequestro. Das outras vezes nunca houve vítimas entre os reféns. A novidade foi a morte de um sequestrador e a histeria comunicacional que se seguiu, acicatada com a violência dos comentários nos principais fóruns, lestos a exigir a cabeça da turba num cesto. Desde as reportagens sobre o comandante dos atiradores especiais, elevado à categoria de herói da nação em período estival, até à decomposição dos seus métodos de treino diário, só falta mostrar o bilhete de identidade de cada um dos GOE.


Curiosamente, esse país que passa a vida a exigir mais polícias, bases de dados de ADN, chips nos carros, videovigilância na rua ou nos táxis, sempre que alguma imprensa destaca um crime mais mediático para nos dar conta que - apesar de todos os números o desmentirem - vivemos marcados pelo aumento da criminalidade, raramente se concentra na única violência em que somos os infelizes recordistas em toda a Europa. A criminalidade de um país velho e atrasado que mata as suas mulheres à pancada ou a tiros de caçadeira. Só nos três primeiros meses deste ano foram 17. Um número que, como tem notado a Ana Matos Pires não pára de aumentar. Não há paralelo em nenhum país da Europa. Mas esses crimes não acicatam os ânimos populares, em primeiro lugar porque o que se passa dentro de casa, dentro de casa deve ser tratado. Depois, nem os seus assassinos são estrangeiros, mas sim dignos e respeitáveis chefes de família, nem estes crimes familiares servem de pretexto para a legitimação do reforço de um estado policial onde, progressivamente, os direitos civis são trocados pelo controlo da esfera pública. Infelizmente, parece que faz toda a diferença.

 

Vale a pena ler os posts que o João Miranda e o Daniel Oliveira têm escrito sobre o mesmo tema.

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