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Zero de Conduta

Zero de Conduta

26
Mai08

O excesso da praxe é a praxe

Pedro Sales

Imagem retirada daqui

 

A condenação de sete alunos da comissão de praxe do Politécnico de Santarém é uma decisão inédita entre nós e que apenas peca por tardia. Até à semana passada, a praxe constituía um ritual e um espaço académico onde a lei se encontrava suspensa. A impunidade legal de actos que, fora do espaço sem lei da praxe seriam sempre punidos, é um dos mistérios da praxe. Alunas que saltam do primeiro andar para fugir da humilhação sexual pelos “veteranos”, como já aconteceu em Lisboa, ou episódios como este em Coimbra, nunca passaram da denúncia pública, contando geralmente com o silêncio das vítimas que temem o ostracismo dos colegas. A aluna que agora ganhou o caso em tribunal teve a coragem de levar até ao fim a sua denúncia, mas pagou-a bem caro. Teve que sair da faculdade, proscrita pela instituição e pelos seus colegas, e nunca terminou o curso.

Para além da arbitrariedade, dos jogos de poder e da violência sexista, o que mais choca na praxe é ver como esta bestialidade, que ocupa várias semanas do ano académico, é apoiada ou tolerada pelas instituições do ensino superior, em nome de uma tradição que procuram mimetizar e que entendem engrandecer o nome da faculdade ou instituto. Se é certo que a maioria das praxes não acaba em episódios limite como os relatados, ou o que teve lugar em Santarém, não é menos certo que a humilhação e a violência psicológica nas praxes é mais comum do que se possa pensar e constitui a mais perversa forma de “integração”.

É da ausência de formas de receber e integrar os novos alunos que vive e se alimenta a cultura da praxe. Depois de mais de uma década de estudo, e de sonharem há vários anos com a entrada na faculdade, é normal que os estudantes queiram integrar-se o mais rapidamente possível num meio de que desconhecem as regras, métodos e, muitas vezes, a própria cidade. A praxe é o que encontram. Porque as associações de estudantes vêm no ritual a melhor forma de perpetuar o seu poder e as instituições, desde que o assunto não deteriore a sua imagem, não estão para se incomodar com o que se passa entre os estudantes e até esperam tirar proveito do assunto. Curiosamente, nem se apercebem que a praxe é a personificação, e glorificação, de uma imagem da faculdade autista, isolada da sociedade e que se entende e vê como um corpo à parte. 

Enquanto não se tornar claro que pior “excesso” da praxe é a própria praxe e esta cultura da impunidade, violência e perversa hierarquização - que promove a ignorância dos “cardeais” que se arrastam há 20 anos nas faculdades -, será difícil encontrar outras formas de integrar os novos alunos. E os estudantes continuarão a dar ao resto do país esta imagem deprimente que tanto contribui para os estereótipos da geração rasca que ainda perduram na sociedade.

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