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Zero de Conduta

Zero de Conduta

26
Jul07

Económico com a verdade

Pedro Sales
Na entrevista de ontem à SIC, José Sócrates jogou várias vezes com as palavras para se referir às suas promessas eleitorais, num equilibrismo perigoso e, aqui e ali, pouco sério.

O emprego foi o caso mais evidente. Questionado sobre a promessa de recuperar 150 mil postos de emprego, Sócrates desmentiu que se tratasse de uma promessa. Era uma "meta". Mesmo assim lá foi dizendo que os 41 mil empregos criados podem não chegar para se cumprir a “meta” de “criar 150000 novos postos de trabalho”. Dois pontos. Em primeiro lugar não existia nenhuma “meta”, mas um objectivo apresentado aos eleitores: “Portugal deve ter como objectivo recuperar, nos próximos quatro anos, os cerca de 150.000 postos de trabalho perdidos na última legislatura”, programa do Partido Socialista.

Em segundo lugar, o objectivo era “recuperar” 150 mil postos de trabalho” e não “criar” novos empregos. Parece um pormenor, mas é muito diferente. “Recuperar emprego” cria a ideia de que se vai diminuir a taxa de desemprego, até ao valor anterior à ultima legislatura, já criar postos de trabalho é independente da taxa de desemprego e não fornece nenhum sinal sobre a evolução do desemprego e da economia.

A questão é esta. Quando tomou posse, no fim do primeiro trimestre de 2005, existiam 412 mil desempregados, dois anos passados, no mesmo período, existem 470 mil. Percebe-se este “zelo semântico inconstante”, como refere o Paulo Gorjão, para escamotear a realidade, mas não deixa de ser pouco sério misturar dados absolutos e relativos como fez ontem Sócrates conforme mais lhe convinha.

O segundo caso prende-se com a revisão do código laboral. Confrontado com o desequilíbrio contra os trabalhadores das propostas da Comissão do Livro Branco, o primeiro-ministro chutou para canto, afirmando que estas apenas responsabilizam a Comissão. Pelo meio esqueceu-se de dizer que essas medidas foram postas em cima da mesa pelo próprio ministro Vieira da Silva e que foram as únicas apresentadas pelo governo aos parceiros sociais. Só no final da ronda negocial é que o governo dará a conhecer as suas propostas, disse. Até lá nada.

Sucede que, no programa eleitoral, o PS já enunciava o que viria a ser feito por um executivo socialista: “o Governo do PS promoverá a revisão do Código do Trabalho, tomando por base as propostas de alteração que em devido tempo apresentou na Assembleia da República.” Todos nos lembramos da oposição cerrada feita pelo PS ao Código de Trabalho. A UGT participou na greve geral contra este documento e as propostas do PS estavam muito mais perto das do PCP e Bloco do que das apresentadas no Livro Branco. Uma inversão de posição que até tem permitido a Bagão Félix vir dizer que o Governo está a dar uma “dádiva ao patronato”. Tem razão, e não foi isso que o partido socialista prometeu durante a campanha.

Por último, o referendo ao Tratado Europeu. A cada dia que passa, fica mais perceptível que esta é mesmo uma promessa eleitoral para cair. No que parecia um número dos Gato Fedorento, o primeiro-ministro reconheceu que, existindo um compromisso para o referendar o Tratado Constitucional, não quer dizer que este se mantenha com o novo Tratado. Apesar de reconhecer que os dois documentos são quase iguais, o último já pode dispensar o referendo. Confusos? Não se preocupem, era mesmo esse o objectivo.

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