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Zero de Conduta

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26
Dez07

Cosmopolitismo de fachada

Pedro Sales
Até há poucos dias nunca tinha ouvido falar no nome. Parece que Cristina Areia é uma das vedetas das telenovelas juvenis da TVI. Talvez por isso foi convidada pela junta de freguesia para abrilhantar a festa de Natal das escolas de Alfama. A sua tarefa era simples. Anunciar o nome das crianças à medida que iam subindo ao palco receber umas prendas. Mas a Cristina é uma rapariga sensível e tradicionalista. Há nomes que lhe fazem espécie. A Bárbara Reis, no Público do passado sábado, conta como, em pouco tempo, a menina conseguiu insultar quase todas as pessoas presentes na festa:

- Hania! Ai credo, o que é isto? Ah, é indiana...Pronto, está bem.
- João bin[qualquer coisa]. Bin?! Será primo do Bin Laden. Cuidado, se calhar é melhor irmos embora.

- Ramona! Mas o que é se passa em Alfama? Que nomes esquisitos! Dantes era só Maria de Lourdes e Anas Cristinas, não era?

- Ana! Um nome normal, viva a tradição, viva!
- Regiane. O que passou pela cabeça destes pais?

Neste último ponto teve razão. O que passou pela cabeça de dezenas de pais para não se levantarem e interromperem este espectáculo degradante? Neste país dos brandos costumes, parece que os familiares das Anas Cristinas acham normal que alguém insulte e envergonhe em público uma criança porque não se chama Maria Albertina. O que não deve ter passado pela cabeça da Cristina Areia é que muitos deles nasceram no nosso país e são tão portugueses quanto ela, mas isso para o caso até é indiferente. Mais revelador é que esta vedeta da televisão é a voz de um país que se diz tolerante mas que se conforma com estas gratuitas demonstrações de xenofobia. Uma voz que tem autoridade e impunidade porque, à sua volta, todos se calam e encolhem. Os pais das Anas ou porque tiveram vergonha ou porque até acharam piada. Os outros, os pais das Ramonas e das Regianes é que me preocupa. Porque o seu silêncio é a mais violenta demonstração de como funciona o racismo dos pequenos gestos do dia-a-dia e de como este está interiorizado pelas suas vítimas. Ninguém se levanta porque não é suposto protestarmos numa casa que não é a nossa. É assim este Portugal natalício. Andamos o ano todo a tentar vender lá fora uma imagem de cosmopolitismo e modernidade, para, cá dentro, percebermos que o cosmopolistmo que aceitamos e toleramos se esgota nos Antónios, Marias e Silvas. Já agora, alguém podia explicar à Cristina que não se deve gozar com o nome dos outros. É que alguém pode olhar para o dela e reparar que Areias é nome de camelo. O que explica alguma coisa.

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