De Anónimo a 2 de Janeiro de 2008 às 17:22
A vida faz-se de vidas de carne e osso, não só de pasta de papel e argumentos.

Vivo nos EUA há dois anos, quando cheguei fui confrontado com a necessidade imediata de realizar um seguro de saúde, durante seis meses, eu, a minha mulher e a minha filha de três anos tivemos um seguro que nos custou cerca de 4 mil dólares (e que cobria até cerca de 75% das eventuais despesas, embora excluindo certas especialidades como oftalmologia ou tratamentos dentários). Nesses seis meses, felizmente, nem por uma vez necessitamos de fazer uso do seguro de saúde.

Após esses primeiros seis meses cancelei o seguro procurando entretanto uma alternativa menos dispendiosa, na semana seguinte ao cancelamento tivemos que levar a nossa filha à urgência de um dos hospitais centrais de Nova Iorque, pois apresentava febre elevada e tosse. Após um processo inquisitorial em que averiguaram se nós poderíamos pagar a assistência médiaca, visto não termos seguro, desta forma evitando a recusa de tratamento e expulsão do hospital, a minha filha foi vista por uma médica que lhe mediu a temperatura, deu um xarope para baixar a febre e receitou um medicamento que no dia seguinte teriámos que ir buscar a uma farmácia. Duas semanas depois chegou a nossa casa um envelope do hospital/empresa, mais de 700 dólares que teríamos que desenbolsar para pagar um simples episódio de urgência de uma criança. Felizmente, tal como eventuamente o sr. Pacheco Pereira, tinhamos dinheiro para pagar essa despesa e evitar um processo em tribunal, mas é inevitável sentir um pasmo perante o modo como o sistema de saúde funciona nos EUA e pelos milhões que são "explusos" dos seus direitos neste país. Esta é a novíssima (que até já não o é assim tanto) forma de discriminação que persiste, ganha adeptos e deveria envergonhar a sociedade norte-americana. Esse exemplo que muitos dirigentes políticos europeus parecem querer seguir. Para aqueles que ainda não viram o filme "Sicko", vejam, não é ficção mas um documentário-denúncia que deve alertar muitos europeus que não percebem os privilégios que têm.


O sr. Pacheco Pereira é um ignorante porque ignora (ou quer ignorar) que há casas, famílias com homens, mulheres e crianças para quem é impossível ter uma biblioteca na qual constem a sua biografia de Álvaro Cunhal ou os sete volumes da viagem Em Busca do Tempo Perdido de Proust.


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