Segunda-feira, 18 de Junho de 2007
O doce charme do voyeurismo
Questionada na última edição da "Sábado", Maria Filomena Mónica volta a defender o que já tinha dito à "Focus": “devíamos conhecer as questões intimas dos deputados”. O propósito para chafurdar um pouco mais na privacidade das figuras públicas, como sempre, vem recheado das melhores intenções. Como as pessoas não votam só nos partidos, devemos ter a possibilidade de saber se estamos a escolher um “homem íntegro, isto é, se põe em prática o que defende”.

Um gay que se oponha aos casamentos entre homossexuais deve ser denunciado publicamente, argumenta, candidamente, Filomena Mónica. O exemplo é o retrato acabado do disparate que propõe. Para além da caução intelectual do voyeurismo, Filomena Mónica parece acreditar que há uma transposição mecânica das nossas opções privadas para as nossas posições políticas. Não há, e quem acredite que somos todos seres planos e certinhos revela uma visão bem redutora da complexidade humana.

Depois, convém perceber que não há nenhuma actividade mais escrutinada que a política. Quando é o nosso futuro colectivo e o dinheiro dos contribuintes que está em jogo é bom que assim seja. Mas que seja escrutinada pelo que tem de relevante e é do interesse público. Fora isso só pode contribuir para uma sensação de nojo colectivo, o reforçar da ideia de que “são todos iguais”.

Acreditar que uma pessoa, qualquer ela, cuja vida seja vasculhada e revirada de fio a pavio pode ficar longe da lama tem tanto de disparatado como de ingénuo. As campanhas negativas nos EUA, de que os americanos são os primeiros a estar fartos, são o exemplo acabado de onde esta descida ao abjeccionismo inevitavelmente desemboca. As últimas eleições, com o “menino guerreiro”, entre mulheres, a acusar outro candidato de gostar de outros colos, ou esta “notícia” do "24 Horas", sem sentido nenhum e em que todo o texto desmente o título e a relevância da mesma, são um bom exemplo do que ainda podemos esperar no nosso país. Tudo em nome da transparência, porque, como diz Filomena Mónica, “as águas turvas não estimulam a política”.

Se é pela virtude e pelo exemplo moral que se deve seguir a pretensão de Maria Filomena Mónica, porque razão determo-nos nos políticos? Os médicos devem ser um modelo cívico de higiene e saúde. Porque não sabermos se o nosso médico fuma, bebe ou sai à noite? E os professores, que educam os nossos filhos, porque não sabermos os detalhes íntimos de cada um deles? As hipóteses são inesgotáveis. Maria Filomena Mónica, que é professora, podia começar por dar o exemplo. Ah, esperem lá, já o fez.
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publicado por Pedro Sales às 00:20
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Comentários:
De Pedro Sales a 18 de Junho de 2007 às 11:04
Real,

A interrogação é recíproca. Bem vindo e, concordes ou não, os teus comentários são sempre bem vindos.


De Anónimo a 18 de Junho de 2007 às 10:25
Meu caro Pedro Sales, parabéns pelo blogue, já me tinha perguntado por onde andavas...
Não obstante e, felizmente, discordar de praticamente tudo o que escreves ( é sempre bom saber que quando se é da esquerda moderna há sempre também uma esquerda antiga ) li sempre com muita atenção e interesse o que escrevias no barnabé.
No entanto começas mal, tendo a concordar com este post :)

Real


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