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Zero de Conduta

Zero de Conduta

10
Ago08

Humor, ficção e "jornalismo sério"

Pedro Sales

Num país, como os EUA, onde mais de 66% dos habitantes têm excesso de peso, os candidatos presidenciais começam a desdobrar-se em acções para captar o voto dos cidadãos obesos. Quem o diz é uma “reportagem” (que se pode ver no vídeo aqui colocado) publicada há uns meses por um dos mais conhecidos sites satíricos do mundo, The Onion.


Parecendo acreditar no lema do site humorístico, que se proclama como a melhor fonte de notícias sobre a América, o vetusto Wall Street Journal publicou há uns dias uma “notícia” semelhante sobre Barack Obama. O título não podia ser mais sugestivo: “Too fit to be president?’”. A singular constatação do jornal é que, “Perante um eleitorado com excesso de peso, a reduzida gordura corporal de Barack Obama pode vir a revelar-se uma desvantagem” para o candidato. Se a noticia já tinha todos os ingredientes para ser um disparate, as coisas pioram quando se percebe que algumas das citações usadas pela jornalista foram retiradas de um fórum de discussão do Yahoo... numa discussão iniciada pela própria repórter. O Wall Street Journal já corrigiu o artigo, indicando esse facto, mas fica cada vez mais notório como é ténue a distinção entre humor e jornalismo. Ou, se olharmos para o excelente Daily Show, até ficamos com a impressão que é em programas como os de Jon Stewart ou Stephen Colbert que encontramos as verdadeiras notícias. E mais rigorosas.

 

 

Nota: A notícia do WSJ, e o link para o fórum de discussão, foram descobertos através do Daringfireball.

10
Ago08

Quantas mulheres é que vale um BMW?

Pedro Sales

O carjacking deve ser um dos termos mais citados pelos jornais e televisões em 2008. Nos primeiros seis meses do ano foram roubados 307 carros, não se registando nenhum dano físico para os lesados. Nos primeiros 3 meses de 2008 foram assassinadas 17 mulheres pelos seus companheiros, um número ímpar em toda a Europa, facto que não ocupou mais do que meia dúzia de linhas na imprensa.

10
Ago08

"Sucesso" em Campolide

Pedro Sales

Um amigo meu, que assistiu à projecção de Tropa de Elite no Rio de Janeiro, deu-me conta do seu choque quando se apercebeu que os espectadores aplaudiam entusiasticamente a actuação policial sempre que o esquadrão com ordem para disparar a matar abatia uma pessoa. Traficante ou morador da favela era indiferente. No fundo, é tudo uma questão de tempo e de grau. A banalização da violência conduz à indiferença perante as garantias legais e à simpatia perante a lei nas próprias mãos.


Olhando para a reacção de incontido júbilo que parece ter tomado conta de Portugal, depois do tiro com que a polícia abateu um dos sequestradores de uma agência bancária, nada nos permite supor que a reacção entre nós fosse diferente. Com uma diferença significativa. O Rio de Janeiro é uma das cidades mais perigosas do mundo e Portugal é  um dos países com menor índice de criminalidade violenta em todo o mundo. A maioria dos que vociferam contra a canalha que tem que ser “posta na ordem”, e são lestos a aceitar trocar as suas liberdades e direitos por uma vã garantia de mais segurança, acreditam que há insegurança porque foi isso que viram na televisão.


Compreende-se a satisfação pela libertação dos reféns. Mais. Nem ponho em causa a actuação da polícia - mais não seja por manifesta falta de dados e de competência para o fazer. Mas esta não foi a primeira vez que as forças policiais responderam a um sequestro. Das outras vezes nunca houve vítimas entre os reféns. A novidade foi a morte de um sequestrador e a histeria comunicacional que se seguiu, acicatada com a violência dos comentários nos principais fóruns, lestos a exigir a cabeça da turba num cesto. Desde as reportagens sobre o comandante dos atiradores especiais, elevado à categoria de herói da nação em período estival, até à decomposição dos seus métodos de treino diário, só falta mostrar o bilhete de identidade de cada um dos GOE.


Curiosamente, esse país que passa a vida a exigir mais polícias, bases de dados de ADN, chips nos carros, videovigilância na rua ou nos táxis, sempre que alguma imprensa destaca um crime mais mediático para nos dar conta que - apesar de todos os números o desmentirem - vivemos marcados pelo aumento da criminalidade, raramente se concentra na única violência em que somos os infelizes recordistas em toda a Europa. A criminalidade de um país velho e atrasado que mata as suas mulheres à pancada ou a tiros de caçadeira. Só nos três primeiros meses deste ano foram 17. Um número que, como tem notado a Ana Matos Pires não pára de aumentar. Não há paralelo em nenhum país da Europa. Mas esses crimes não acicatam os ânimos populares, em primeiro lugar porque o que se passa dentro de casa, dentro de casa deve ser tratado. Depois, nem os seus assassinos são estrangeiros, mas sim dignos e respeitáveis chefes de família, nem estes crimes familiares servem de pretexto para a legitimação do reforço de um estado policial onde, progressivamente, os direitos civis são trocados pelo controlo da esfera pública. Infelizmente, parece que faz toda a diferença.

 

Vale a pena ler os posts que o João Miranda e o Daniel Oliveira têm escrito sobre o mesmo tema.

10
Ago08

Que se lixe o “espírito olímpico”

Pedro Sales

O sucesso dos Jogos Olímpicos não tem nada a ver com o “espírito olímpico”, como somos obrigados a ouvir centenas de vezes durante os comentários televisivos. O espírito olímpico não passa de uma versão reciclada do código de conduta dos clubes de cavalheiros britânicos. O que interessa é competir, claro, desde que tenhamos a certeza que ganha sempre “um dos nossos”. Era este o espírito olímpico de um barão anafado e vagamente misógino. A glosada pureza do amadorismo não passava disso mesmo. De uma desculpa para uma elite económica se perpetuar como rainha e senhora dos “seus” desportos. Os “meus” Jogos são os de Jim Thorpe. Unanimemente considerado um dos melhores atletas do início do século XX e a quem o espírito olímpico retirou as suas medalhas. O seu crime? Ter jogado uns jogos para ganhar a vida. De ascendência índia, teve o azar de não ter nascido no selecto ambiente social onde era elegante correr os 400 metros depois de acender o charuto na pista de corrida, nem nunca lhe terem dado a conhecer as regras da gentlemanship, semanalmente louvadas por João Carlos Espada. Por mim quero apenas ver os melhores atletas. Quem quer ver amadores pode ir ao sábado de manhã ver os jogos de futebol no campo da Inatel ou ver um desafio de pólo na Quinta da Marinha.

08
Ago08

Os jogos da (falta de) vergonha

Pedro Sales

Numa declaração sintomática sobre o clima político que rodeia os Jogos Olímpicos, os quatro ciclistas norte-americanos que chegaram a Pequim com uma máscara anti-poluição pediram desculpa pelo seu acto. Não queriam embaraçar ninguém, estavam apenas preocupados com os  efeitos da poluição. Compreende-se. A dois dias do início dos Jogos, a qualidade do ar em Pequim registava um valor de 88, a meros 12 pontos dos valores que as autoridades chinesas consideram perigosos para a saúde. Mas isso pouco importa quando valores mais altos se levantam. Segundo o responsável pela delegação norte-americana, “não queremos ir a casa dos outros e embaraçá-los, e acho que foi isso que eles fizeram”. Como o respeitinho é muito bonito, sempre foi adiantando que os desejos dos atletas têm que levar em conta a forma como as suas atitudes são percepcionadas pelas autoridades locais. Pois...costuma ser assim nas ditaduras.

08
Ago08

Os jogos da (falta de) vergonha II

Pedro Sales

A sala de imprensa dos Jogos Olímpicos. É aqui que parecem começar e acabar as preocupações do Comité Olímpico Internacional com os limites à liberdade de expressão na China. Fora isso não se passa nada. Não quero menorizar a importância das condições de trabalho dos correspondentes estrangeiros que se encontram em Pequim, mas talvez tivesse tido sentido tamanha preocupação e desvelo há uns anos atrás. Em 2001, mais concretamente, quando o mesmo COI não se importou em atribuir a organização dos J.O. a uma ditadura que não reconhece o direito de associação politica, liberdade sindical, religiosa, de expressão e liberdade de imprensa para todos os jornalistas que não estão a fazer a cobertura dos Jogos. Para que o evento desportivo mais caro de sempre pudesse ter lugar, milhares de pessoas viram os seus bairros arrasado e foram deslocadas para onde o Partido Comunista bem entendeu. Isso nunca preocupou o COI, que consentiu alegremente em ver a gerontocracia chinesa usar os Jogos Olímpicos como uma grandiosa máquina de propaganda do regime, mas agora faz de virgem ofendida porque o site da BBC e da Amnistia estiveram bloqueados na sala de imprensa. É mesmo não ter o sentido das proporções. Melhor, só ter sentido para a proporção dos negócios num novo e gigantesco mercado.

 

Vale a pena ler: We love Beijing, de Rui Bebiano.

03
Ago08

É preciso topete

Pedro Sales

"Durão Barroso critica elites de Portugal por não terem espírito de serviço". Esta surpreendente revelação, efectuada pelo homem que trocou o compromisso assumido com os portugueses mal lhe acenaram com uma carreira "lá fora", teve lugar na gala da Odisseia de Talento The Star Tracking, onde os participantes estão proibidos de "falar mal de Portugal". "Proudly Portuguese", dizia o "discreto pin para as lapelas oferecido à entrada". Durão Barroso tinha um, claro.

02
Ago08

O trambolhão

Pedro Sales

Não querendo desanimar os comentadores que garantem a pertinência e importância da comunicação de Cavaco Silva, mas talvez fosse útil colocarem os olhos na queda abrupta da taxa de aprovação do Presidente da República. Desde Maio, Cavaco Silva já desceu 12,8 pontos na sondagem Expresso/SIC. Com uma taxa positiva de 38%, Cavaco está a léguas de Sampaio, que deixou Belém com 55%, e parece saído da Liga dos Últimos quando nos lembramos que Soares andou sempre pelos 70%.


Tudo isto antes de ter interrompido o torpor estival para dramatizar uma comunicação solene a 10 milhões de portugueses sobre um “importante problema” que 10 milhões de portugueses desconheciam e sobre o qual continuam sem perceber o nome, quanto mais o que se passa. O próprio Cavaco Silva, valha a verdade, só parece ter-se apercebido da magna questão quando resolveu falar ao país. Caso contrário, ou teria vetado o Estatuto ou enviado os pontos que sublinhou para serem apreciados pelo Tribunal Constitucional – o que não fez. Rui Ramos está certo que “o Presidente teve razão: e se V. saiu da praia mais cedo para não perder a demissão do Governo e agora está zangado, aprenda”.Pode ser. Mas o mais provável é que, vivendo nós numa democracia, seja Cavaco Silva a aprender a não incomodar o país por uma mão cheia de nada, ainda por cima quando o que incomoda as pessoas é precisamente terem a carteira cada vez mais recheada da mesma forma.

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