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Zero de Conduta

Zero de Conduta

25
Mar08

A cartilha

Pedro Sales
Em vários artigos na blogosfera e imprensa, a direita liberal foi rápida a aproveitar o debate sobre a crise de autoridade dos professores para defender a sua já conhecida agenda para a educação. João Miranda ou José Manuel Fernandes (sem link) são apenas dois dos nomes que nos garantem que a solução para repor a autoridade e estancar a degradação da imagem dos docentes passa por abdicarmos de um sistema de ensino centralizado, responsabilizar as escolas pela contratação dos professores, ou caminhar para a liberdade de educação - vulgo cheque-ensino. Um problema apenas. As suas propostas - boas ou más, não interessa agora para o caso – não têm nada a ver com o assunto em apreço.
 
Senão, vejamos. O país europeu que mais se associa a esse modelo é a Inglaterra, onde não existe nenhuma limitação geográfica a condicionar a escolha da escola e existem rankings para todos os resultados dos estabelecimentos de ensino. As escolas dispõem de uma vasta autonomia que lhes permite flexibilizar uma parte do currículo e são dirigidas por um director com poderes reforçados (nomeadamente de contratação de docentes). E qual é o resultado que essa política tem sobre a imagem e autoridade docentes? Nenhum. Zero. Há muito que os alunos recorrem ao "cyber-bullying", utilizando o Youtube ou foruns da internet para humilhar e pressionar os professores.De resto, a violência nas escolas é um tema de aceso debate politico e mediático vai para mais de uma década. Já agora, e só para situarmos os planos, a discussão do momento em Inglaterra não são os telemóveis na escola, são os 25% de professores que já encontraram os seus alunos na posse de uma arma na escola.

É positivo quando se apresentam propostas, mas convém é que elas tenham alguma coisa a ver com o tema em debate e não sejam apenas mais uma oportunidade para debitar a cartilha do costume. É que pode ficar a ideia que nem é por má vontade, mas apenas por não se conhecer mais nenhuma.
24
Mar08

Boas notícias

Pedro Sales
As notícias do PÚBLICO na Internet passam a ter ligação directa para os blogues que as comentam, através de uma nova ferramenta que hoje entra em funcionamento. O objectivo desta medida é ajudar “na difusão das conversas que se geram na blogosfera sobre as notícias, tranformando os níveis de participação no próprio site”, explica um comunicado da empresa.

A imprensa tradicional tem sido lenta a aproveitar as potencialidades da blogosfera, olhando-a normalmente com um misto de desconfiança e sobranceria. Até por isso, a nova funcionalidade hoje posta em funcionamento pelo Público é uma excelente notícia. Mesmo com as colunas de opinião a continuarem reservadas a assinantes e as notícias que se evaporam da net sem deixar rasto, é justo reconhecer que, juntamente com o Sol, o Público é o jornal que tem olhado de uma forma mais séria para a blogosfera e outras formas de comunicação, como o twitter.

Para se ter uma ideia da importância dos novos meios e da sua relação com as políticas editoriais da imprensa tradicional, talvez valha a pena lembrar que o  New York Times teve o seu acesso na net condicionado durante dois anos ao pagamento de uma assinatura. Desistiu há poucos meses, com uma alteração radical de política que levou o centenário jornal a disponibilizar na net todos os seus arquivos, de 1851 até aos nossos dias. A razão? Nas pesquisas efectuadas através do Google, os principais blogues e a wikipedia apareciam sistematicamente à frente do NY Times. Sem links perdem-se visitantes e sem estes não há receitas publicitárias e capacidade para “fazer” opinião. Com o crescente número de pessoas que pesquisam notícias e opinião na net, a imprensa tradicional não pode continuar a ignorar a blogosfera ou outros meios de sociabilização em linha. Com o passo hoje dado, o Público provou ter a capacidade para andar um passo à frente da sua concorrência.
24
Mar08

O que resta

Pedro Sales

As autoridades chinesas prometem esmagar os protestos no Tibete, uma ameaça que é para levar a sério tratando-se, como é o caso, de um regime ditatorial que sabe impor a sua colossal força económica para garantir o silêncio e conivência internacional perante o sistemático desrespeito pelos direitos humanos. Um único problema. Os Jogos Olímpicos têm que ser um sucesso que não pode ser importunado. Os Jogos Olímpicos não são uma prova desportiva para a gerontocracia de Pequim. São o supremo acto de branqueamento de um regime que usa a memória histórica de Mao para legitimar socialmente o trabalho escravo e conta com a simpatia de um capitalismo que nunca convive mal com a falta de liberdade politica e sindical quando esta lhes garante os melhores salários e os melhores horários.

Alheio a tudo isso, o PCP garante que “está cada vez mais claro que estes incidentes têm como objectivo político comprometer os Jogos Olímpicos". Em nome de um sectarismo só possível a quem nunca compreendeu a queda do muro, resta ao PCP a associação a regimes como o chinês ou o da Coreia do Norte. Convenhamos que não é um grande cartão de visita para quem, entre portas, se reivindica portador de um discurso de defesa dos valores democráticos e da liberdade sindical.

Actualização: Já que o regime chinês, e o seu impecável registo de respeito pelos direitos humanos, merece tanta compaixão na caixa de comentários destes post, limito-me a deixar aqui os relatórios da Amnistia Internacional de 2007 e 2003...muito antes do apedrejamento de cidadãos chineses que o pacífico regime de Pequim apenas procurou suster.
23
Mar08

Serviço público

Pedro Sales
Quem gosta de basquetebol e tem uma boa ligação de banda larga já não precisa da Sport TV para asssistir aos jogos da melhor época da NBA dos últimos anos, podendo seguir os desafios decisivos da temporada neste site. Para todos aqueles que precisam de dormir mais horas do que o Marcelo Rebelo de Sousa, existe mesmo a possibilidade de ver em diferido os desafios das últimas semanas.

Actualização: alertado por alguns comentários, reparo que os links não vão ter ao sítio certo. Os links estão correctos mas, por qualquer razão que desconheço, não fazem a ligação. Assim sendo, aqui ficam os endereços do site (http://www.janeironation.5gigs.com/cc.html) e dos arquivos (http://www.janeironation.5gigs.com/archive.html).

Atenção: Cada jogo corresponde a uns 500 ou 600 megas de download internacional. Quem quiser aceder intensivamente a este site deve verificar primeiro o seu plano de acesso à net.
21
Mar08

O grau zero do oportunismo

Pedro Sales
CDS-PP quer ouvir Governo sobre caso de violência na escola Carolina Michaelis. Já era de esperar que, mais dia menos dia, o PP viesse demonstrar até que ponto é possível descer no aproveitamento demagógico de situações como estas. Quererá o PP fazer-nos crer que o primeiro-ministro é o responsável pelos telemóveis que entram nas salas de aula (apesar de serem proibidos), a ministra tem que responder pelos sms que os petizes enviam uns aos outros e o Presidente da República tem que "dar a cara" de cada vez que um aluno agride um professor? Mas o melhor é mesmo a "justificação" para o requerimento. É que o PP apresentou um projecto de lei, que foi rejeitado pelo Parlamento, onde se defendia a criação de um Observatório Escolar. Ora aí está. Tivesse esse Observatório sido criado e nunca, mas nunca, a aluna do 9.ª C da Carolina Micahelis teria tido a coragem de fazer o que fez à professora... O oportunismo devia ter limites.
 
PS: Na desenfreada fúria com que pretende ouvir tudo e todos na Assembleia da República, o PP podia aproveitar e exigir audições sobre os casos dos sobreiros, casino, fotocópias ou submarinos, temas esses de claro interesse público mas que parecem arredios da agenda do PP. Vá-se lá saber porquê.
21
Mar08

Ignorância e preconceito

Pedro Sales
O Estado desconfia dos privados, abomina o lucro, prefere a ineficiência “igualitária” à eficiência que pode fazer a diferença. E por isso não se importa de enviar um exercito de fiscais administrativos para garantir que um operador privado não ganhará um cêntimo a mais, mesmo quando esse operador está a prestar melhor serviço às populações. José Manuel Fernandes, Público, 20 Março 2008

Se é certo que os suspeitos do costume não se cansam de lamentar o fim da gestão privada do Amadora-Sintra, o editorial de ontem de José Manuel Fernandes é merecedor de atenção especial. Em primeiro lugar porque é extraordinário perceber como é que se consegue escrever um texto com mais de 4 mil caracteres sem apresentar nenhuma fundamentação para os seus argumento, para além do nível zero da argumentação que é dizer que estamos perante uma medida “estalinista”. Quanto ao resto, o director do Público limita-se a recorrer ao já habitual chorrilho de preconceitos sobre a gestão pública e as vantagens da privada.

José Manuel Fernandes fala de eficiência da gestão, o que é estranho num hospital em que as contas estão por validar desde 2002. Diz JMF que são cêntimos, com uma estranha bonomia quando se constata que, só em 2002, o diferendo entre o Estado e o grupo Mello ascende a 18,5 milhões de euros. Não deixam de ser cêntimos, é verdade, mas são centenas e centenas de milhões deles. Quando ao exército de burocratas, talvez valha a pena lembrar que, a existirem, é para tentar evitar situações como as detectadas pelo Tribunal de Contas - quando este organismo declarou que, entre 1995 e 2001, o Estado efectuou pagamentos indevidos no valor de 70 milhões de euros ao Grupo Mello. De resto, e sendo bastante discutível a asserção sobre o melhor serviço prestado às populações pelo único hospital que não está inscrito no programa de recuperação das listas de espera cirúrgicas, não deixa de ser comovente ver JMF defender a qualidade do serviço público, independentemente dos seus custos. Um regresso ao passado, ou o resultado de escrever apenas com base nos preconceitos ideológicos?
21
Mar08

Reescrever a história

Pedro Sales

Na impossibilidade de defenderem o desastre em que se tornou o atoleiro iraquiano, os defensores da guerra continuam os seus exercícios imaginários. O último é a tentativa de reescrever a história. Diz o Paulo Tunhas que, à data, tudo apontava para a "racionalidade" da intervenção militar: “Saddam e as suas múltiplas guerras, as informações dos serviços secretos – não só americanos e ingleses, mas também franceses e alemães”. Ora, como todos estamos lembrados, a Alemanha e França foram justamente dois dos países que sempre defenderam na ONU a continuação das inspecções. Que o tenham feito, como o Paulo Tunhas sugere, contra as indicações dos seus serviços secretos, teria sido notícia em todo o mundo. Onde é que Paulo Tunhas descobriu essa monumental “cacha” que mais ninguém conhece?  Agradecíamos que a partilhasse connosco.
19
Mar08

Os "especialistas"

Pedro Sales


Para quem acredita nessas coisas, quis o acaso do destino que os cinco anos da invasão e ocupação do Iraque coincidissem com o início de uma gigantesca recessão económica nos EUA. Para todos os outros, talvez valha a pena lembrar que os dois acontecimentos estão longe de estar desligados. Em primeiro lugar pelos custos astronómicos da ocupação do Iraque (o Congresso dos EUA já fala em 1 ou 2 milhões de milhões de dólares), com as consequências monetárias que daí resultaram. Mas também, e de  forma nada indirecta, com o decisivo impacto da guerra na escalada do preço do petróleo.

Para quem anda esquecido, um fenómeno curiosamente recorrente por estes dias, talvez valha a pena recordar que os opositores da intervenção militar foram os primeiros a alertar para a subida do preço do petróleo causada pela instabilidade geopolítica na região onde se encontram quase 2/3 das suas reservas. Quando Fernando Rosas escreveu um artigo avançando a possibilidade do crude chegar aos 80 dólares por barril foi um fartote. Durante semanas, os grandes “especialistas” económicos da blogosfera liberal juntaram-se em peso para ridicularizar o Fernando Rosas, o Bloco e os opositores da guerra.

Lembrei-me desse momento ao ler uma notícia - destacada hoje pelo João Miranda para elogiar pela enésima vez o carácter premonitório e omnisciente do mercado -, onde se pode ler que, “desde o final de 2003, o número de contratos futuros de petróleo subiu 364 por cento enquanto o consumo real subiu oito por cento”. O João Miranda não refere, como é normal, mas foi no final de 2003 que se tornou perfeitamente claro que não existia nenhuma solução fácil para o Iraque e que, nem com a colossal fortuna que os EUA estão a enterrar no deserto, se podia garantir a estabilidade da região. O resto é história... e o petróleo que já vai nos 110 dólares.

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