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Zero de Conduta

Zero de Conduta

02
Nov07

382866

Pedro Sales
A TVI divulgou, ontem à noite, as conclusões do Inquérito da Inspecção-Geral de Saúde de 2006. Segundo esse estudo, que foi ocultado pelo governo durante mais de um ano, em 2006 existia uma lista de espera de 382.866 pedidos para uma primeira consulta de especialidade hospitalar. Uma notícia duplamente incómoda. Pelo que revela da política de saúde do Governo, mas também sobre a metodologia política do próprio. Em primeiro lugar, e como se torna evidente, um número desta grandeza é a consequênca directa de uma política continuada de concentração e encerramento de serviços. Depois, e essa parece ser a parte que o governo menos percebe, não basta ter médicos. É preciso que eles estejam nos hospitais e centros de saúde. A exclusividade da carreira deve ser valorizada como a norma e não como a excepção. O Governo tem seguido o caminho oposto e, para poupar dinheiro, tem criado e favorecido todas as condições para os médicos encararem o serviço público como um pé de meia garantido que lhes permite, depois, ganhar mais dinheiro no privado.

A forma como o documento foi conhecido, através da imprensa, é reveladora sobre o entendimento instrumental que Correia de Campos tem dos organismos da administração pública e do escrutínio democrático dos actos do Governo. É inaceitável que os dados da administração pública sejam encarados pelo ministro como propriedade sua, divulgando o que entende e quando bem entende. Pode parecer estranho a Correia de Campos, mas este dado é quase tão significativo como o primeiro.
02
Nov07

O papel social do Estado: discriminar positivamente os ricos

Pedro Sales
Para os detractores da escola pública, um dos sinais da sua falência é que os ricos e a classe média alta colocam os seus filhos em colégios privados. Uma situação que retira a liberdade de escolha das famílias que, mesmo colocando os seus filhos num colégio, continuam a pagar o sistema de educação público. A solução, dizem, é implementar o cheque ensino.

Todos os indicadores demonstram que os ricos e a classe média alta colocam os seus filhos no ensino superior público, restando aos mais pobres e remediados o recurso às faculdades privadas. A solução para os defensores do cheque ensino: ficar como está.

Quando os ricos escolhem uma escola privada, alguma direita defende que se entregue directamente o dinheiro às famílias para acabar com esta dupla tributação. Curiosamente, quando os pobres e a classe média baixa são empurrados para uma escola privada, continuando a pagar com os seus impostos a faculdade dos ricos, já ninguém os ouve a falar da liberdade de escolha. Significativo.

PS: Não vale a pena dizer que o cheque ensino não tem razão de ser no ensino superior porque este não faz parte da escolaridade obrigatória. O ensino secundário também não e isso não inibe que defendam o cheque ensino para este nível educativo.
02
Nov07

A (i)responsabilidade das escolas privadas

Pedro Sales
Em resposta aos posts aqui publicados sobre os rankings, o João Miranda diz que eu respondi à sua critica da incapacidade da escola pública para “anular os efeitos do meio socioeconómico” tentando demonstrar que as escolas privadas também não o conseguem. Vamos por partes. São os defensores do cheque ensino quem, de há seis anos a esta parte, chamam a atenção para a dicotomia entre os resultados do privado e do público para dizer que primeiras são melhores e mais exigentes. Uma barulheira danada por causa de uma diferença de 0,7 valores. Uma assimetria menor do que a revelada entre as escolas do interior e litoral, ou entre escolas grandes e pequenas. E isto, num sistema que escolhe os seus alunos à partida e, desses, os que leva a exame nas suas instalações.

A partir daqui o João Miranda entra em piloto automático. “As escolas privadas não são uma questão pública. As escolas públicas é que são. As escolas públicas é que têm de ser avaliadas pela capacidade de atingirem os objectivos para os quais foram criadas. As escolas públicas é que têm que justificar o dinheiro que lhes pagamos". Desculpe lá, mas as escolas privadas também são uma questão pública, mais não seja porque os estudos de cerca de cem mil estudantes dessas escolas são pagos com dinheiros públicos. São 3343 euros por ano por cada aluno, mais de 30 milhões de euros no Orçamento de Estado. O Estado paga a essas escolas privadas, ao abrigo de contratos de associação, para prestarem um serviço público de educação. O nome é explícito. Desde quando é que o dinheiro dos nossos impostos não é uma questão pública? Desde quando é que as qualificações do país não são um questão pública?

"Uma escola privada que não vence os efeitos do meio socioeconómico é um facto da vida. Uma escola pública que não vence os efeitos do meio socioeconómico é uma prova da inutilidade da escola pública", continua o João Miranda. Aqui já entramos noutro registo. A escola privada não é melhor, como passam a vida a dizer, as suas exigências é que são exíguas. Deve ser mais “um facto da vida”. Ao chamar a atenção para o meio socioeconómico, os defensores da escola pública não estão a reconhecer que esta é um falhanço e que não cumpre a sua função, como assevera o João Miranda, mas sim a dizer que - apesar de todos os defeitos, erros e problemas criados ao longo dos últimos 30 anos - a escola pública foi, e é, o mais eficaz mecanismo de mobilidade social existente no país.

PS: Sobre este tema, ler também o artigo de Pedro Lomba, no DN, e de Vital Moreira, no Público.
01
Nov07

"É um produto fraudado? É, mas até o fraudado tem a sua qualidade"

Pedro Sales
Várias companhias brasileiras, para esconder a má qualidade do leite e aumentarem a margem de lucro, juntavam soro, água oxigenada e soda cáustica ao lacticínio. Isso mesmo, água oxigenada e soda cáustica. Com a mistura, poupavam 10% de leite e, segundo os especialistas, a fraude era impossível de detectar sem o recurso a testes de laboratório. Sabor, textura e aroma era tudo igual. Os nutrientes, claro, é que não estavam lá. Como tudo no Brasil, o esquema funcionava em grande, num esquema de corrupção que envolvia as empresas, políticos e fiscais que deveriam avaliar a qualidade do leite.

Tavez conhecendo o caso de Gomes da Silva - o ministro da Agricultura de Guterres que convocou uma conferência de imprensa para comer mioleira de vaca -, um dos deputados federais chamou ontem os jornalistas para "dar um recado" aos brasileiros e beber um copo de leite. "Sou contra a fraude, mas sou a favor do que está aí, o leite possível. Querer um leite de qualidade a curtíssimo prazo é a mesma coisa que querer acabar com o analfabetismo no Brasil. É um produto fraudado? É, mas até o fraudado tem a sua qualidade", disse Piau. Está visto, a realpolitik chegou ao leite.

O deputado em causa recebeu, na última campanha eleitoral, 40 mil euros da cooperativa proprietária de uma das marcas de leite envolvidas no escândalo.
01
Nov07

É assumir o risco

Vasco Carvalho




Fotos de cabelinho à paulo bento
Ver também riscoaomeioexatamentameioepamesmomeio.


Aqui há dias, enquanto aproveitava um telefonema para exercitar a minha veia Lusitana - queixava-me portanto - ouvi uma coisa curiosa. Como resposta ao meu lamento pela falta de tempo para cortar o cabelo obtive: 'desde que não andes com um cabelinho à Paulo Bento'.

Como emigrante a minha interacção com a figura de Paulo Bento é diária mas distante. Mal me lembro de quando jogava à bola, não estava em Portugal quando entrou para treinador e nunca vi nenhum jogo do Sporting desde então. Fico-me pela imprensa desportiva online que consumo aqui e ali, sempre intermitente e de frases curtas. Aí, à distância e filtrado, Paulo Bento não parece diferir de outros: os soundbytes da ordem ao sabor dos resultados. E ninguém fez referência ao cabelinho, nunca.

Mas quando me disseram 'cabelinho à Paulo Bento', soou bem, natural, Luso mesmo. Mas como é que eu me esqueci que o 'olha práquele cabelinho' - seguido de arroto - faz todo o sentido? O inho que serve de escala para tudo. O escárnio constante, exacto e cortante, ideal para passar o tempo entre a jola e a cuspidela conjunta de cascas de tremoços. Pensando bem, o escárnio em inho é Portugal-redux. Desde que não vá aterrar no sapato do Senhor Doutor, serve para passar a tarde e mantém a discussão no acessório que o essencial é triste demais.

Adenda: Ou complicado demais. O pessoal que coma tremoços tailandeses e beba cerveja pelo copo de plástico comprado no LIDL e está bom de ver que isso é progresso não-referendável. Envolve mistérios que não podemos compreender. E como é sabido não é possível referendar todas as maravilhas do Senhor. Portanto, não precisamos de ouvir, não precisamos de explicar, não precisamos de argumentar. O bloco central está cá é para decidir e o resto é demagogia e gentes de morais dúbios. Só falta avisar com fumata bianca.

É o que temos feito nas últimas décadas. É o que vamos continuar a fazer. Certo? ... E de repente Paulo Bento começa a parecer um tópico mais feliz de conversa. O ciclo eterno continua, num país perto de si.

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