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Zero de Conduta

Zero de Conduta

04
Set07

o síndroma do ninho cheio e outros neologismos

Vasco Carvalho
Aqui há dias o Cabral, via NYTimes, chamou a atenção para um novo epíteto: a nova geração boomerang (1) dos EUA, jovens adultos que depois da universidade são forçados a regressar a casa dos pais, endividados e sem perspectivas (ver também aqui). Fiquei curioso mas pouco convencido. Seria uma mudança de monta numa sociedade onde viver com os pais depois dos 20 anos vem com uma etiqueta pesada de looser; ou no mínimo, de indolência, objecto fácil de sátira.
% de jovens adultos em casa dos pais; EUA (fonte: CPS, tabela AD1)

Os números da Current Population Survey (CPS) indicam que este fenómeno não aparece nas estatísticas oficiais. É sempre um desafio ver tendências com pouco mais de 20 observações, mas a destacar alguma coisa seria a estabilidade destes números. Ainda pensei ver um efeito cíclico ao menos, mas nada a apontar. Talvez só mesmo o fenómeno inverso para jovens (homens) entre os 18-24 anos. (ver também aqui para a mesma conclusão)

Não sendo óbvio o tal efeito boomerang, quais são então as estratégias de sobrevivência dos jovens americanos?
Bom, deixam de ter seguro de saúde (30% dos jovens americanos - mais de 13 milhões de pessoas- não têm seguro), têm filhos mais tarde, compram a primeira casa mais tarde (ver aqui para o Reino Unido), e são cada vez mais a maioria dos working poor, trabalhando mais horas para pagar a dívida com que saem da universidade (dívida que aumentou 50% na última década, em termos reais). E isto são os sortudos: 20% dos sem-abrigo americanos têm entre 18 a 30 anos (tabela 3-5). Ver aqui para mais informação sobre as condições de vida dos jovens americanos.

Neste contexto, a tal rede de apoio familiar seria muito bem vinda. A inexistência do boomerang só piora a situação e gera outro neologismo: 'disconnected young adults' (ouvir uma reportagem aqui), sem família, sem emprego, sem comunidade de apoio.


(1): No Japão, ao que parece são apelidados de solteiros parasitas.

PS: Este post foi substancialmente alterado, na forma e no conteúdo. Isto porque o Cabral tinha razão na 'big picture', e a versão inicial estava longe de o dizer. Mea culpa.
04
Set07

Mais perto do que é importante

Pedro Sales
A partir de 2008, as crianças portuguesas entre os seis e os onze anos vão ter aulas de publicidade nas escolas públicas, no âmbito do programa Media Smart. De acordo com os promotores, o objectivo é ensinar temas e conceitos relacionados com a comunicação comercial e não comercial, pretendendo integrar as matérias lúdico-didácticas concebidas por este programa nos currículos do 1.º ciclo, fornecendo às crianças “ferramentas para descodificarem a publicidade e aguçarem o sentido crítico”. Daqui a três anos, dizem os organizadores, esperam estar em metade das escolas portuguesas.

Aqui chegados talvez valha a pena sabermos quem é que dá a cara pela Media Smart. Nada mais nada menos do que a Associação Portuguesa de Anunciantes. Participam no Comité de Direcção do Programa, que tem como objectivo “assegurar a correcta implementação do projecto no terreno”, todos os patrocinadores do Media Smart. À frente deste comité aparece o director-geral do Grupo Nestlé em Portugal, António Saraiva de Reffóios, e os financiadores até agora conhecidos são a Danone, Kellogg´s, Modelo/Continente e, claro, a própria Nestlé.

Nada nesta iniciativa bate certo, a começar pelo extraordinário facto do Ministério da Educação abrir as portas a empresas privadas para, nas escolas públicas, ensinarem e divulgarem conteúdos programáticos. O ME associa-se mesmo, através da Direcçção Geral da Inovação Curricular, a estas empresas para a definição dos currículos e métodos de aprendizagem. Bem sei que o Governo tem um problema com a ocupação dos tempos livres dos alunos, e fica mais barato concessionar a formação pública a generosas empresas privadas do que a entregar aos tais professores que agora ficaram de fora do concurso, mas a decência tem limites abaixo dos quais não se deve descer.

Mas a verdadeira aberração deste projecto é que estes senhores, com o apoio do Ministério da Educação, estão a tentar fazer-nos acreditar que algumas das empresas que mais milhões de euros gastam em publicidade destinada às crianças, e a encharcar os miúdos com toneladas de açúcar, vão gastar dinheiro para irem dizer ao seu público alvo para não acreditarem nos seus anúncios. Não é preciso ir a uma aula Media Smart para perceber que isso tem um nome: publicidade enganosa. Este disparate tem tanto sentido como o Ministério da Educação convidar a associação República e Laicidade para ministrar as aulas de Religião e Moral nas escolas, ou convidar a Bayer e a Roche para promover a generalização de genéricos.

Este programa já está a funcionar há muitos anos em vários países, como o Canadá e Inglaterra,  diz a Associação Portuguesa de Anunciantes. Tudo bem. Mas, lá como cá, o motivo é sempre o mesmo. Prevenir a crescente pressão que os consumidores, pais e poder legislativo tem vindo a fazer para a diminuição, ou proibição, de anúncios que estimulem o consumo de comida com elevados níveis de açucar e calorias às crianças. Juntando-se debaixo deste simpático chapéu, as empresas envolvidas lançam campanhas de charme para nos chamarem a atenção para o seu elevado sentido de responsabilidade social. Compreendo que o queiram fazer, e até acho legítimo, mas nunca nas escolas públicas, disfarçado de conteúdos programáticos e curriculares.

A obesidade infantil é o maior problema de saúde pública das sociedades modernas e ninguém quer ficar mal na fotografia. A McDonald´s começou a vender saladas e sopas. A Danone e a Nestlé pagam a formadores para tentarem incluir os seus conteúdos programáticos nas escolas do 1º ciclo. Que o Ministério da Educação suporte, e apoie, esta campanha de branqueamento da imagem é que ultrapassa todos os limites do concebível e razoável.
03
Set07

"Outposts and peace don't mix"

Pedro Sales
01
Set07

os mandamentos do professor

Filipe Calvão
01
Set07

"Há um caminho"

Pedro Sales
Imagem retirada de metrografismos, pode ser vista aqui.

Paulo Portas começou o ano político, de uma “forma informal”, com um pequeno vídeo na internet. No Sapo, claro, que o que é nacional é bom. O líder popular destaca três temas para a "rentrée política do CDS", indicando que pretende "obrigar o governo a responder ponto por ponto" sobre a destruição do campo de milho em Silves, a crise no crédito hipotecário nos EUA e os vetos presidenciais de Agosto. O título do vídeo diz que “há um caminho”, o que não duvido, mas o do PP parece estar um pouco atrasado e gasto. Nada disto é novidade, discutindo-se há semanas, de uma forma intensa, na imprensa e blogosfera, período durante o qual ninguém deu pelo Partido Popular. Compreende-se. Aquele bronze "informal" custa a apanhar e um homem não pode estar na praia e a lutar pelo novo regimento da Assembleia da República, como insistentemente repetiu. Isto tem que haver prioridades, e o tempo em que Paulo Portas corria todas as feiras de Agosto a falar da lavoura são águas do passado. A realidade, agora, é virtual. Uma metáfora certeira sobre o estado em que se encontra este partido.


PS: Continuo sem compreender as etiquetas escolhidas pelo PP para a promoção do vídeo. “Paulo Portas”, "CDS", “partido" e “politica” uma pessoa ainda entende. Agora, "música"? Será alguma alusão ao homem que se recusava a comportar como o "chefe de uma banda"? Não sei, mas se é o próprio Paulo Portas que assume que nos está a dar música, quem sou eu para discordar.

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