Domingo, 29 de Junho de 2008
O artigo da semana

Os juízes de Palermo, da Sardenha e do País Basco não são suicidas, nem aqui os chamaria se fossem heróis tolos. Não misturam é o cu com as calças: o facto de serem alvo dos bandidos não os impede de exercer o que são. Não fecham as portas ao primeiro susto. Combatem quem os assusta tornando-se mais eles, mais juízes. Porque o susto os convenceu ainda mais que são necessários. As agressões do Tribunal da Feira deviam ter convencido os juízes, assim: "Olha, sou mesmo necessário." Em vez disso, suspenderam-se.

Um juiz que suspende julgamentos porque durante um julgamento se cometeu um crime, é um juiz que não acredita que os julgamentos servem para combater os crimes. E, já agora, do ponto de vista do criminoso: se um crime num julgamento acaba temporariamente com os julgamentos numa comarca, porque não mais crimes desses para prolongar a suspensão de julgamentos? E porque não estender a táctica a todos os tribunais portugueses?
Ferreira Fernandes, no Diário de Notícias



publicado por Pedro Sales às 18:17
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Quarta-feira, 25 de Junho de 2008
Choque tecnológico

Para justificar o aumento das propinas, o Governo de António Guterres garantiu que estas verbas serviriam apenas para “aumentar a qualidade do ensino” e nunca seriam usadas para pagar as despesas de funcionamento das faculdades. As propinas estavam indexadas ao salário mínimo, um mecanismo que caiu pouco depois com o Governo do PSD/PP. As propinas duplicaram e andam agora pelos 900 euros/ano, um dos valores mais altos em toda Europa. Pelo meio, o número de alunos no ensino superior cresceu 46% mas o investimento público diminui 12%. As propinas foram escondendo as condições miseráveis em que se vai trabalhando nas instituições do ensino superior. Quando a manta é pequena, fica-se sempre destapado. Como agora aconteceu em Aveiro, onde a Universidade vai pagar os subsídios de férias recorrendo ao dinheiro destinado à investigação científica. Deve ser isto a que o Governo chama de choque tecnológico.



publicado por Pedro Sales às 12:09
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Segunda-feira, 26 de Maio de 2008
O excesso da praxe é a praxe

Imagem retirada daqui

 

A condenação de sete alunos da comissão de praxe do Politécnico de Santarém é uma decisão inédita entre nós e que apenas peca por tardia. Até à semana passada, a praxe constituía um ritual e um espaço académico onde a lei se encontrava suspensa. A impunidade legal de actos que, fora do espaço sem lei da praxe seriam sempre punidos, é um dos mistérios da praxe. Alunas que saltam do primeiro andar para fugir da humilhação sexual pelos “veteranos”, como já aconteceu em Lisboa, ou episódios como este em Coimbra, nunca passaram da denúncia pública, contando geralmente com o silêncio das vítimas que temem o ostracismo dos colegas. A aluna que agora ganhou o caso em tribunal teve a coragem de levar até ao fim a sua denúncia, mas pagou-a bem caro. Teve que sair da faculdade, proscrita pela instituição e pelos seus colegas, e nunca terminou o curso.

Para além da arbitrariedade, dos jogos de poder e da violência sexista, o que mais choca na praxe é ver como esta bestialidade, que ocupa várias semanas do ano académico, é apoiada ou tolerada pelas instituições do ensino superior, em nome de uma tradição que procuram mimetizar e que entendem engrandecer o nome da faculdade ou instituto. Se é certo que a maioria das praxes não acaba em episódios limite como os relatados, ou o que teve lugar em Santarém, não é menos certo que a humilhação e a violência psicológica nas praxes é mais comum do que se possa pensar e constitui a mais perversa forma de “integração”.

É da ausência de formas de receber e integrar os novos alunos que vive e se alimenta a cultura da praxe. Depois de mais de uma década de estudo, e de sonharem há vários anos com a entrada na faculdade, é normal que os estudantes queiram integrar-se o mais rapidamente possível num meio de que desconhecem as regras, métodos e, muitas vezes, a própria cidade. A praxe é o que encontram. Porque as associações de estudantes vêm no ritual a melhor forma de perpetuar o seu poder e as instituições, desde que o assunto não deteriore a sua imagem, não estão para se incomodar com o que se passa entre os estudantes e até esperam tirar proveito do assunto. Curiosamente, nem se apercebem que a praxe é a personificação, e glorificação, de uma imagem da faculdade autista, isolada da sociedade e que se entende e vê como um corpo à parte. 

Enquanto não se tornar claro que pior “excesso” da praxe é a própria praxe e esta cultura da impunidade, violência e perversa hierarquização - que promove a ignorância dos “cardeais” que se arrastam há 20 anos nas faculdades -, será difícil encontrar outras formas de integrar os novos alunos. E os estudantes continuarão a dar ao resto do país esta imagem deprimente que tanto contribui para os estereótipos da geração rasca que ainda perduram na sociedade.



publicado por Pedro Sales às 14:45
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Quarta-feira, 21 de Maio de 2008
O pópó dos senhores juízes

O Conselho Superior da Magistratura, ouvido esta tarde no Parlamento, deu o seu apoio global à proposta de lei do Governo que introduz um novo mapa judiciário. Mas entre os reparos deixados à proposta, ficou o aviso do vice-presidente do Supremo Tribunal de Justiça: a competência atribuída aos juízes-presidentes das comarcas de distribuírem os lugares de estacionamento pode gerar conflitos graves.

Daí que o melhor, no entender do órgão superior dos juízes, seja dar ao próprio Conselho Superior de Magistratura a palavra final sobre quem estaciona o carro onde, em cada um dos tribunais de comarca do País. «Isto não pode ser resolvido pelo juiz-presidente», de cada tribunal, pelo «seu melindre» -- defendeu o Juiz Conselheiro Ferreira Girão, invocando a sua «experiência» em estruturas associativa.  É que, justificou, «a gestão do parque automóvel» por vezes «desencadeia guerras autênticas».



publicado por Pedro Sales às 09:52
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Quarta-feira, 14 de Maio de 2008
Vai deixar de fumar ou de inalar?

O primeiro-ministro José Sócrates pediu hoje desculpa por ter fumado no voo que transportou a comitiva governamental para a Venezuela. Em declarações aos jornalistas, na venezuela, o primeiro-ministro diz que desconhecia que estava a violar a lei. José Sócrates adiantou ainda que decidiu deixar de fumar em definitivo, na sequência da polémica.

 

Apanhado em falso, a violar uma lei apresentada pelo seu Governo, o primeiro-ministro resolveu entrar num patético espetáculo de contricção pública, prometendo aos portugueses que vai deixar de fumar. E o que é que nós temos a ver com isso?  É um assunto da sua vida privada. A questão pública é o cumprimento da lei e a igualdade dos cidadãos no seu cumprimento. Se fumou, como reconhece, paga os 750 euros previstos na lei, como deverá acontecer com qualquer cidadão. Agora, fazer uma promessa aos portugueses sobre a sua vida privada é que passa todos os limites do bom senso. E o que é que acontece se não cumprir? E quem é que vai fiscalizar o cumprimento da promessa? Razão tinha o Santana Lopes. "O país está louco".



publicado por Pedro Sales às 17:29
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O dia das promessas foi ontem

José Sócrates adiantou ainda que decidiu deixar de fumar em definitivo, na sequência da polémica.



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Quando a realidade supera a ficção

 



publicado por Pedro Sales às 08:58
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Domingo, 4 de Maio de 2008
Alguém imagina os sacríficios que não tiveram que fazer para conseguir comprar o Audi?

Há seis mil gerentes e directores de empresa que garantem ganhar apenas o salário mínimo. Nestas empresas, portanto, nem um trabalhador tinha um vencimento mais baixo do que o do responsável máximo. E nas mais pequenas, o vencimento médio dos líderes rondava os mil euros, brutos.

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Segunda-feira, 28 de Abril de 2008
Verde é a cor do dinheiro

A junta de freguesia da Ericeira foi multada em sete mil euros utilizar óleos reciclados para mover os carros do lixo, em vez de comprar combustíveis fósseis, pelo que o Estado se considera lesado. O presidente da junta, citado pela TSF, já garantiu que não vai pagar a multa.

Lê-se e não se acredita. Em vez de apoiar, ou pelo menos deixar em paz, quem não precisou de ficar à espera dos subsídios estatais para aplicar uma medida ambientalmente correcta, o Governo multa quem está a usar combustíveis verdadeiramente ecológicos (óleos reciclados). Tudo isto para respeitar uma quota, financiada pelos nossos impostos, com o embuste dos agrocombustíveis que estão a roubar espaço agrícola a outras produções alimentares e a contribuir para a crise alimentar que está à porta. O verde tem muitas tonalidades. Mas a cor do dinheiro dos impostos continua a ser a mais apelativa.


publicado por Pedro Sales às 13:36
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Sábado, 16 de Fevereiro de 2008
Aborto ano um
Na imprensa e blogosfera, o aniversário do referendo pela despenalização do aborto foi recebido com um coro de vozes a tentar ajustar contas com uma lei que, dizem, não está a ter resultados. Pouco interessa que a regulamentação esteja em vigor há meia dúzia de meses e que seja prematuro avaliar o seu impacto. Num país pródigo em milhares de leis, portarias e diplomas regulamentares a que ninguém liga pevide, os suspeitos do costume acordaram indignados porque, através do trágico caso de uma adolescente que abortou muito para além do prazo legal, descobriram que a lei não funciona. Daí até acusarem os defensores do SIM de mentira e de conivência com o aborto clandestino foi um passo.

Vamos lá a ver se nos entendemos. A despenalização não põe fim a todos os abortos clandestinos, e nunca ninguém disse isso, mas torna-os a excepção residual. A lei que tínhamos tornava-os a regra. A diferença é simples e até já tem números. Em seis meses, 6000 mulheres interromperam a gravidez em condições de higiene e saúde pública, evitando um sem número de situações não muito diferente da que aconteceu na Torredeita. Têm a certeza que querem regrassar ao passado?

PS: Ainda estou para perceber o que é mais lamentável. Se a conferência de imprensa convocada pelo director da escola profissional onde uma jovem aluna abortou fora do prazo, e para a qual convidou as colegas para relatarem minuciosamente o que sucedeu, se os jornalistas que não encontraram nenhuma questão ética e deontológica em expor assim uma pessoa para todo o país, num julgamento mediático que em nada dignifica a sua profissão.

publicado por Pedro Sales às 15:46
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Quinta-feira, 14 de Fevereiro de 2008
Eu cá sou bom, sou muito bom...
"Sinto-me em condições de ser julgador em causa própria. Sinto, porque eu tenho uma grande autoridade moral e tenho uma grande confiança na minha honestidade pessoal". Eduardo Barroso, Director-Geral da Autoridade para os Serviços de Sangue e Transplantação, 14 Fevereiro, no Parlamento.

Eduardo Barroso é um homem vaidoso. Este médico, que foi ontem ao Parlamento garantir que não se considera um mercenário, pagou a si mesmo 277 mil euros pela disponibilidade total para as operações que não fez e pela dedicação exclusiva para um trabalho que efectuou enquanto acumulava funções no Hospital da Cruz Vermelha. É um homem bom, muito bom.

publicado por Pedro Sales às 17:42
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Segunda-feira, 11 de Fevereiro de 2008
Big show Berardo

O empresário Joe Berardo ganhou mais de 14 milhões de euros com a venda da Quinta da Rocha, uma propriedade de 200 hectares que se situa junto à Ria de Alvor, no concelho de Portimão. Em oito anos, uma propriedade adquirida por 500 mil euros passou a valer 15 milhões. Uma valorização estonteante, prova provada do génio empreendedor e negocial de Berardo? Sim e não.

Sim, porque a valorização tem a ver com o plano turístico e habitacional previsto para a Quinta da Rocha. Não, porque 18 as casas que estavam registadas na propriedade eram rústicas e nunca garantiriam a alteração do registo de zona agrícola para urbana. O génio e arte de Berardo fizeram o resto. A câmara reconheceu 18 casas que nunca ninguém viu e autorizou a construção. E assim, de um dia para o outro, um terreno numa zona única valorizou-se 3000% O presidente da Câmara, Manuel da Luz, garante que "não entrou até agora qualquer projecto e ao abrigo do PDM também não se pode ali fazer nada. É perder tempo falar em projectos imobiliários, pois tal não tem cabimento”.

Aqui chegados, vale a pena recordar que Manuel da Luz é o mesmo presidente de câmara que, vai para quatro anos, proporcionou um dos mais significativos momentos do patobravismo nacional. Juntamente com o presidente da Câmara de Lagos, e aproveitando uma cerimónia em que apresentaram o seu plano para proteger a Ria do Alvor, o bom do Manuel da Luz alertava para os excessos ambientais que, como todos sabemos, tantos danos têm causado ao Algarve:"não podemos ser fundamentalistas (em matéria ambiental), pois pagamos por isso nas eleições".  Ao seu lado, mais filosófico, o presidente de Lagos, explicava que “o desenvolvimento sustentável não pode ser apenas um chavão", mas que “nada disto faz sentido se não houver espaço para o homem". Resumindo, a ria precisa de ser "humanizada”, até porque "a natureza também tem de dar algo ao homem". Bem visto. Se a natureza tem que dar algo ao homem, então que comece pelo Berardo,

publicado por Pedro Sales às 18:27
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Quarta-feira, 6 de Fevereiro de 2008
Foi você que falou em populismo?
Ontem foi dia de José Miguel Júdice na Sic. Começou a chamar "populista" e "gordo" a Marinho Pinto, comparando-o com Mussolini e Chavéz. Dada a salganhada ideológica, deduz-se que o termo de comparação é mesmo a proeminência da barriga. O tempo das ideologias já lá vai, pelo menos para Júdice, e nada como apontar as características físicas do adversário para marcar pontos na argumentação. Mas o melhor veio mais tarde, na edição da noite, onde tentou explicar como é que um restaurante de luxo, com uma localização ímpar no alto do parque mais central da capital, paga 500 euros de renda à câmara. Não explicou, é certo, mas nem por isso gostou de ver Teresa Caeiro lembrar que o ex-bastonário dos advogados é um dos sócios de tão suculento negócio. Uma"insinuação lamentável", disse, ainda por cima vinda de alguém que tem uma "relação íntima com um dos sócios". Nada como uma insinuação sobre a vida privada para combater uma crítica pública. Júdice anda preocupado com a figura que os outros andam a fazer. Devia olhar melhor para o seu exemplo e deixar as lições de moral, carregadas de insunuações, de lado. É que nem chega a ser populista. É só marialva.
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publicado por Pedro Sales às 08:18
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Terça-feira, 29 de Janeiro de 2008
O crime (desorganizado) compensa
A ausência de organização em rede de comunidades de imigrantes ilegais está a impedir o Serviço de Estrangeiros e Fronteiras de desmantelar eventuais estruturas suspeitas no Algarve, disse hoje o director regional do organismo.

De acordo com Van Der Kellen, o "grande erro" das comunidades de Leste foi o de transportar para Portugal as estruturas de «peso», sendo mais fácil a detecção das hierarquias e de arranjar provas para levar a tribunal.
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Segunda-feira, 31 de Dezembro de 2007
Portugal português
Amanhã entra em vigor uma lei que afecta milhões de portugueses e milhares de estabelecimentos comerciais, que têm que fazer avultados investimentos se quiserem ter espaço para fumadores, e ninguém se entende sobre os requisitos necessários para que a fiscalização reconheça a conformidade dos estabelecimentos à nova lei. Bem pode o Governo investir milhões nuns assépticos anúncios de promoção à costa oeste da Europa e esforçar-se para construir um país sem fumo e sem rissóis feitos em casa. O país não muda por decreto e, estava na cara, que uma lei com esta complexidade nunca estaria pronta a entrar em vigor na semana a seguir ao Natal e ano novo, com o país ainda a ressacar das compras e filhoses.

publicado por Pedro Sales às 18:26
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Sábado, 29 de Dezembro de 2007
O jogo das cadeiras
À primeira vista não se percebe muito bem o interesse que o PSD parece ter na escolha de um “dos seus” para a liderança do banco público. Se há dinâmica no nosso país que se revela mais forte do que o bloco central, é o bloco central dos interesses. E esse, como se sabe, começa e acaba no governo em exercício de funções. É o Governo que assina os cheques com os escritórios de advogados e empresas de consultoria. É o Governo que assina as lucrativas concessões que fazem andar e lucrar certo país que passa o resto da semana a criticar o Estado. Não é preciso ir muito longe para se perceber como funcionam as coisas. Fixemo-nos em António Mexia. Santanista desde pequenino, desde que foi nomeado por Sócrates para a EDP tem-se portado como o mais diligente dos socialistas. Mexias há muitos. O barulho de Menezes, que não hesita em vir pedir umas cunhas em público, não tem nada a ver com a importância de manter alguém da área da oposição na Caixa e no Banco de Portugal. Para manter o poder é preciso transmitir a imagem de que se tem algum para dividir e distribuir. Anima as hostes e mantém-nas unidas. Evita a deserção para o outro campo. Os governos vão cedendo, pontualmente. Porque é irrelevante para a sua gestão do poder e porque, no fundo, mantém a aparência e garante a estabilidadezinha com que se vão fazenda as coisas neste nosso país. E os negócios.

publicado por Pedro Sales às 18:48
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Quarta-feira, 26 de Dezembro de 2007
Cosmopolitismo de fachada
Até há poucos dias nunca tinha ouvido falar no nome. Parece que Cristina Areia é uma das vedetas das telenovelas juvenis da TVI. Talvez por isso foi convidada pela junta de freguesia para abrilhantar a festa de Natal das escolas de Alfama. A sua tarefa era simples. Anunciar o nome das crianças à medida que iam subindo ao palco receber umas prendas. Mas a Cristina é uma rapariga sensível e tradicionalista. Há nomes que lhe fazem espécie. A Bárbara Reis, no Público do passado sábado, conta como, em pouco tempo, a menina conseguiu insultar quase todas as pessoas presentes na festa:

- Hania! Ai credo, o que é isto? Ah, é indiana...Pronto, está bem.
- João bin[qualquer coisa]. Bin?! Será primo do Bin Laden. Cuidado, se calhar é melhor irmos embora.

- Ramona! Mas o que é se passa em Alfama? Que nomes esquisitos! Dantes era só Maria de Lourdes e Anas Cristinas, não era?

- Ana! Um nome normal, viva a tradição, viva!
- Regiane. O que passou pela cabeça destes pais?

Neste último ponto teve razão. O que passou pela cabeça de dezenas de pais para não se levantarem e interromperem este espectáculo degradante? Neste país dos brandos costumes, parece que os familiares das Anas Cristinas acham normal que alguém insulte e envergonhe em público uma criança porque não se chama Maria Albertina. O que não deve ter passado pela cabeça da Cristina Areia é que muitos deles nasceram no nosso país e são tão portugueses quanto ela, mas isso para o caso até é indiferente. Mais revelador é que esta vedeta da televisão é a voz de um país que se diz tolerante mas que se conforma com estas gratuitas demonstrações de xenofobia. Uma voz que tem autoridade e impunidade porque, à sua volta, todos se calam e encolhem. Os pais das Anas ou porque tiveram vergonha ou porque até acharam piada. Os outros, os pais das Ramonas e das Regianes é que me preocupa. Porque o seu silêncio é a mais violenta demonstração de como funciona o racismo dos pequenos gestos do dia-a-dia e de como este está interiorizado pelas suas vítimas. Ninguém se levanta porque não é suposto protestarmos numa casa que não é a nossa. É assim este Portugal natalício. Andamos o ano todo a tentar vender lá fora uma imagem de cosmopolitismo e modernidade, para, cá dentro, percebermos que o cosmopolistmo que aceitamos e toleramos se esgota nos Antónios, Marias e Silvas. Já agora, alguém podia explicar à Cristina que não se deve gozar com o nome dos outros. É que alguém pode olhar para o dela e reparar que Areias é nome de camelo. O que explica alguma coisa.

publicado por Pedro Sales às 15:29
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Domingo, 23 de Dezembro de 2007
"Eu vejo o futuro repetir o passado. Eu vejo um museu de grandes novidades"
A Starbucks vai chegar a Portugal no próximo ano. Prometem revolucionar os cafés do país, oferecendo um espaço amplo para os clientes conversarem, lerem ou acederem à net na rede sem fios dos seus estabelecimentos. É o sinal dos tempos. Depois de, há pouco mais de 15 anos, termos assistido ao encerramento dos principais cafés do país, onde se podia conversar, estudar e ler o jornal sem ser importunado pelos empregados, vêm agora as grandes cadeias internacionais embrulhar o conceito e apresentar a mesma proposta como uma grande inovação.

Faz apenas dezasseis anos que a McDonalds instalou o seu primeiro restaurante em Lisboa nas instalações do antigo café Colombo. O local não podia ser mais simbólico. O país estava com pressa de modernidade e não tinha mais tempo para se sentar no café a ler o jornal e a conversar. Um a um, vários se lhe seguiram. O Café Portugal e a Chave de Ouro, em Lisboa, ou o Café Imperial na Praça da Liberdade, são apenas alguns exemplos. Agora, basta um breve passeio pela baixa de Lisboa e é impossível não tropeçarmos num qualquer chill out café ou lounge café . Locais onde se pode estar com tempo e com calma. Nada contra. Mas não deixa de ser um exemplar retrato da forma como a economia global nos embrulha a modernidade, reescrevendo a história e vendendo o velho como uma novidade absoluta. Não se apropria apenas das fachadas e do espaço físico. Resgata a memória e a língua. É como se nada tivesse existido antes destes espaços normalizados, estandardizados e assépticos. O velho é novo. O novo é velho. A novílingua passou por aqui. E esqueceu-se do tabaco, claro.

* título do post retirado da letra d´O tempo não pára, de Cazuza.
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publicado por Pedro Sales às 22:47
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Quinta-feira, 20 de Dezembro de 2007
Retratos da costa ocidental da Europa
De vez em quando o país acorda do torpor em que se encontra e vê na televisão imagens que se julgavam esquecidas. Faltam as palavras para descrever a barbaridade e crueldade de um suinicultor que abandona centenas de porcos à sua sorte, condenando-os a morrerem de sede e de fome, não hesitando mesmo em colocar em risco a saúde das populações vizinhas. Um dia depois da ASAE emitir um comunicado sobre a higiene das colheres de pau, sabemos que uma suinicultura que funcionava ilegalmente há sete anos nunca conheceu qualquer entrave à comercialização para consumoda carne dos seus animais. As autoridades competentes conheciam o caso e nada fizeram porque a suinicultura era ilegal! É normal. A lei que deveria proteger os direitos dos animais, o PL 92/95, está há 12 anos à espera de regulamentação governamental, criando um vazio legal que permite que actos como este permaneçam impunes. É mesmo o triunfo dos porcos.

publicado por Pedro Sales às 19:46
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Portugal no seu melhor
A Direcção Geral de Veterinária sabia, há sete anos, que a suinicultura em Alcácer do Sal estava a funcionar ilegalmente. Quando questionada sobre o porquê do tardio encerramento da exploração: “Nunca foi mandada fechar porque, oficialmente, nunca abriu.” É uma metáfora certeira sobre a forma como vai funcionando o país. Se tiver um negócio e não quiser ser importunado pelas autoridades permaneça na ilegalidade.

publicado por Pedro Sales às 19:03
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Segunda-feira, 19 de Novembro de 2007
A coutada do ignorante latino
O despedimento de um cozinheiro infectado com HIV, reconhecido pelo Tribunal da Relação, vem confirmar como a mentalidade da “coutada do macho latino” continua bem presente no interior dos tribunais portugueses. Como já tinha sido confirmado pelos pareceres científicos solicitados pelo tribunal, e é reiterado por todos os médicos contactados pela imprensa, a concentração de vírus existente no suor, lágrimas e saliva impossibilita a transmissão do mesmo nessas condições. Não existe, aliás, nenhum caso conhecido de contaminação nas circunstâncias referidas pelo acórdão. Ao contrário do que afirmam os juízes, este acórdão não protege a saúde pública. Põe-na em causa. Naturalmente, se se generaliza a convicção de que o destino de um seropositivo é o desemprego, o passo seguinte é andar toda a gente a esconder a sua ficha clínica da entidade patronal. O resultado é o aumento da insegurança, nunca o contrário. Costuma ser esse o preço da ignorância.

publicado por Pedro Sales às 19:48
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Sábado, 17 de Novembro de 2007
Portugal kleenex
A ASAE continua a sua cruzada para a criação de um novo país, asséptico e cumpridor dos "bons costumes". Ontem, encerraram a Ginginha do Rossio. Dizem que não cumpria as normas higiénicas. Claro que não cumpria, isso já toda a gente sabia. Mas, e isto pode parecer estranho a estes novos beatos da virtude, aquele chão que se colava aos pés fazia parte da imagem da casa. Isso, e a melhor ginginha do país. Era por isso que estava sempre cheia e fazia parte dos roteiros turísticos da capital. Tinha alma. Depois de já terem acabado com as castanhas assadas embaladas nas páginas amarelas e a bola de berlim na praia, fecharam a ginginha.

Este novo Portugal, das novas oportunidades, do TGV e dos computadores portáteis para toda a gente, não suporta as imagens simbólicas do velho país "atrasado" e periférico. Como não consegue mudar o povo, que continua a beber minis e a comer couratos à volta dos estádios em dia de jogo, inventou a ASAE. Uma brigada dos bons costumes para a construção do Portugal Kleenex. Continuem o trabalho. Ali mesmo ao lado da ginginha, podem acabar com a casa dos chapéus. E não se esqueçam do pastel de nata, essa bomba calórica que tão má imagem dá do país no estrangeiro.

publicado por Pedro Sales às 13:58
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Sexta-feira, 16 de Novembro de 2007
O glorioso caminho para a novilíngua socialista
Vieira da Silva parece ter atingido o ponto em que o seu discurso deixou de ser inteligível, um processo também conhecido como o síndroma Manuel Pinho e Mário Lino. Hoje, reagindo às notícias que dão conta que o desemprego permaneceu nos 7,9% no último trimestre, congratulou-se com os números, dizendo que "este ano a taxa de desemprego não cresceu do segundo para o terceiro trimestre. É um bom sinal". O bom sinal perscrutado por Vieira da Silva corresponde à estabilização do desemprego no nível mais elevado de sempre e na terceira taxa mais elevada da zona euro. As suas declarações revelam um notável esforço para torturar os números até eles cederem, pelo cansaço, ao notável esforço para criar uma novilíngua socialista. Vejamos.
O ministro reconheceu que o problema do desemprego ainda não está resolvido. Ainda bem que reconhece. Há 444 400 boas razões para que assim proceda.

publicado por Pedro Sales às 19:02
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Quinta-feira, 1 de Novembro de 2007
É assumir o risco




Fotos de cabelinho à paulo bento
Ver também riscoaomeioexatamentameioepamesmomeio.


Aqui há dias, enquanto aproveitava um telefonema para exercitar a minha veia Lusitana - queixava-me portanto - ouvi uma coisa curiosa. Como resposta ao meu lamento pela falta de tempo para cortar o cabelo obtive: 'desde que não andes com um cabelinho à Paulo Bento'.

Como emigrante a minha interacção com a figura de Paulo Bento é diária mas distante. Mal me lembro de quando jogava à bola, não estava em Portugal quando entrou para treinador e nunca vi nenhum jogo do Sporting desde então. Fico-me pela imprensa desportiva online que consumo aqui e ali, sempre intermitente e de frases curtas. Aí, à distância e filtrado, Paulo Bento não parece diferir de outros: os soundbytes da ordem ao sabor dos resultados. E ninguém fez referência ao cabelinho, nunca.

Mas quando me disseram 'cabelinho à Paulo Bento', soou bem, natural, Luso mesmo. Mas como é que eu me esqueci que o 'olha práquele cabelinho' - seguido de arroto - faz todo o sentido? O inho que serve de escala para tudo. O escárnio constante, exacto e cortante, ideal para passar o tempo entre a jola e a cuspidela conjunta de cascas de tremoços. Pensando bem, o escárnio em inho é Portugal-redux. Desde que não vá aterrar no sapato do Senhor Doutor, serve para passar a tarde e mantém a discussão no acessório que o essencial é triste demais.

Adenda: Ou complicado demais. O pessoal que coma tremoços tailandeses e beba cerveja pelo copo de plástico comprado no LIDL e está bom de ver que isso é progresso não-referendável. Envolve mistérios que não podemos compreender. E como é sabido não é possível referendar todas as maravilhas do Senhor. Portanto, não precisamos de ouvir, não precisamos de explicar, não precisamos de argumentar. O bloco central está cá é para decidir e o resto é demagogia e gentes de morais dúbios. Só falta avisar com fumata bianca.

É o que temos feito nas últimas décadas. É o que vamos continuar a fazer. Certo? ... E de repente Paulo Bento começa a parecer um tópico mais feliz de conversa. O ciclo eterno continua, num país perto de si.

publicado por Vasco Carvalho às 01:47
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