Segunda-feira, 26 de Maio de 2008
O excesso da praxe é a praxe

Imagem retirada daqui

 

A condenação de sete alunos da comissão de praxe do Politécnico de Santarém é uma decisão inédita entre nós e que apenas peca por tardia. Até à semana passada, a praxe constituía um ritual e um espaço académico onde a lei se encontrava suspensa. A impunidade legal de actos que, fora do espaço sem lei da praxe seriam sempre punidos, é um dos mistérios da praxe. Alunas que saltam do primeiro andar para fugir da humilhação sexual pelos “veteranos”, como já aconteceu em Lisboa, ou episódios como este em Coimbra, nunca passaram da denúncia pública, contando geralmente com o silêncio das vítimas que temem o ostracismo dos colegas. A aluna que agora ganhou o caso em tribunal teve a coragem de levar até ao fim a sua denúncia, mas pagou-a bem caro. Teve que sair da faculdade, proscrita pela instituição e pelos seus colegas, e nunca terminou o curso.

Para além da arbitrariedade, dos jogos de poder e da violência sexista, o que mais choca na praxe é ver como esta bestialidade, que ocupa várias semanas do ano académico, é apoiada ou tolerada pelas instituições do ensino superior, em nome de uma tradição que procuram mimetizar e que entendem engrandecer o nome da faculdade ou instituto. Se é certo que a maioria das praxes não acaba em episódios limite como os relatados, ou o que teve lugar em Santarém, não é menos certo que a humilhação e a violência psicológica nas praxes é mais comum do que se possa pensar e constitui a mais perversa forma de “integração”.

É da ausência de formas de receber e integrar os novos alunos que vive e se alimenta a cultura da praxe. Depois de mais de uma década de estudo, e de sonharem há vários anos com a entrada na faculdade, é normal que os estudantes queiram integrar-se o mais rapidamente possível num meio de que desconhecem as regras, métodos e, muitas vezes, a própria cidade. A praxe é o que encontram. Porque as associações de estudantes vêm no ritual a melhor forma de perpetuar o seu poder e as instituições, desde que o assunto não deteriore a sua imagem, não estão para se incomodar com o que se passa entre os estudantes e até esperam tirar proveito do assunto. Curiosamente, nem se apercebem que a praxe é a personificação, e glorificação, de uma imagem da faculdade autista, isolada da sociedade e que se entende e vê como um corpo à parte. 

Enquanto não se tornar claro que pior “excesso” da praxe é a própria praxe e esta cultura da impunidade, violência e perversa hierarquização - que promove a ignorância dos “cardeais” que se arrastam há 20 anos nas faculdades -, será difícil encontrar outras formas de integrar os novos alunos. E os estudantes continuarão a dar ao resto do país esta imagem deprimente que tanto contribui para os estereótipos da geração rasca que ainda perduram na sociedade.



publicado por Pedro Sales às 14:45
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Comentários:
De Sócrates a 26 de Maio de 2008 às 16:10
Há a Praxe e há a frustração... isto são exemplos de frustração ou qualquer outro problema do foro psicológico de quem obriga outros a praticar.

Sou aluno da Universidade de Coimbra e integrei-me no meu grupo de amigos pela Praxe, sem nunca me ter sido pedido para fazer nada degradante nem nunca me obrigaram, sob ameaças de represálias, a fazer algo que não quisesse.

É para isto que serve a Praxe, integrar pessoas. A partir do momento em que aquele que está a ser praxado não se diverte, a integração não é feita e por conseguinte o propósito das brincadeiras perdem-se.

Mais ainda, a Praxe não é só isto, é o conjunto de todos os usos e costumes. Dizer que o problema é da Praxe é o mesmo que dizer que o problema dos crimes cometidos pela União Soviética é da Esquerda, quando todos sabemos que esses crimes são a negação e aberrações de todos os ideias de Esquerda.

Tal como defendo a punição dos crimes erradamente cometidos em nome da Praxe (que não são de todo da Praxe, até porque nas instituições onde esta foi fundada - Universidade de Coimbra por exemplo - existe um Código onde são estabelecidos limites), defendo também todos os crimes erradamente cometidos em nome de uma ideologia.


O hábito não faz o monge... o hábito não faz o monge...


De Feiticeiro de Oz a 26 de Maio de 2008 às 22:15
O exemplo é muito bom, pena não o perceberes bem... Os crimes da União Soviética não são um problema da esquerda, tens razão, mas esqueces-te de dizer o resto. São um problema da União Soviética, uma prova de que a sua interpretação do marxismo estava errada. A correspondencia faz-se mais ou menos assim:

Integração <-> Esquerda
"Tradição Académica" <-> URSS
Praxe <-> Gulag

Agora percebes?

P.S: e não, não adianta andar sempre com a mesma cantiga do está tudo muito feliz, e ninguém é obrigado,... quem já lá esteve sabe como o roleplaying funciona...


De João André a 27 de Maio de 2008 às 11:27
Não é verdade que as pessoas sejam obrigadas, pelo menos na UC. Claro que há os idiotas que obrigam fisicamente, mas não se pode dizer que sejam assim tantos. Eu também por lá estudei e não fui praxado porque disse que não o queria ser. Não vesti uma capa e batina nem participei da praxe de forma nenhuma. Nada disso me impediu a integração nem que hoje o actual Dux Veteranorum seja um amigo meu.

O que há a fazer, especialmente da parte das associações e das universidades, é explicar claramente que ninguém é obrigado a participar na praxe e que eventuais abusos têm que ser participados e punidos. O problema é explicar a um aluno de 17 ou 18 anos o que é um abuso. O que é que se pode considerar uma ofensa à sua dignidade pessoal (para não falar nos casos de ofensas físicas). É por aí que talvez se devesse começar.


De Feiticeiro de Oz a 27 de Maio de 2008 às 12:33
Se é necessário haver uma formação para um aluno de primeiro ano perceber o que são ofensas à dignidade pessoal ou física, andamos muito mal,...

A história da aluna do Politécnico de Santarém é sim um bom exemplo do que anda mal. Quem não quis colaborar com a fantochada e fazer justiça foi perseguida, impossibilitada de continuar na instituição. E não estamos a falar de uns quantos podres, uns casos isolados..., tanto a instituição como os colegas contribuiram para esta situação.

Acções de formação sobre ofensas à dignidade, haja paciência,...


De João André a 27 de Maio de 2008 às 12:58
Sinceramente, parece-me que esperar que o saibam é desejar muito. Gostaria que fosse verdade, que os alunos de primeiro ano compreendessem que muito daquilo a que se estão a sujeitar é ofensivo. Infelizmente isso não sucede. Por alguma razão vemos alunos a rejeitar a praxe mais tarde, quando no terceiro, quarto ou quinto anos. Será porque a praxe piorou ou porque passaram a ter outro tipo de consciência sobre o assunto? É que, acredite, a quantidade de alunos que não tem sequer noção que pode sizer que não é esmagadora.


De Nuno Góis a 27 de Maio de 2008 às 02:45
Penso que não se deve confundir estes praxistas e tantos outros com geração rasca, algo ainda por provar, e que me toca, pois supostamente pertenço a ela.
Quanto a estes inergumenos da foto e tantos outros futuros doutores que para aí andam a praxar orgulhosamente, só lhes desejo que o futuro lhes seja tão pesado quanta a leveza com que fazem estas merdas.
E quanto ao mais espero que daqui a uns anitos mostrem estas fotos orgulhosamente aos filhotes e, caso não o façam, espero que sejam apanhados pela net e depois tentem justificar-se.

Quanto aos praxados(as) revoltem-se foda-se. Ninguém é obrigado a passar por isto!


De Francisco Pereira a 27 de Maio de 2008 às 10:42
O problema da violência será, certamente, o mai grave. Mas, para mim, também importa o carácter gratuito e exibicionista da "coisa": O veterano "acha" (poque sim) que os caloiros devem gritar. E estes -alegres e de boa-vontade- gritam...O "doutor" "entende" (porque sim) que os caloiros devem alçar a perna e fingir que mictam. E os caloiros, alegremente, sem serem obrigados, alçam. Passa uma rapariga e os caloiros, à voz do dono, mas alegremente e sem serem violentados para o fazerem, gritam obscenidades.
Ninguém foi obrigado, Está tudo alegre e bem disposto.
Mas há degradação. Enorme.


De Luís Lavoura a 28 de Maio de 2008 às 14:38
Oh Pedro Sales! O Pedro não sabe por que motivo as instituições de ensino superior pactuam com a praxe???!!! Eu explico-lhe, Pedro. É muito simples, Pedro. É porque partidos como o Bloco de Esquerda insistem em manter nas universidades uma "so-called" "democracia" de acordo com a qual o "corpo" dos "alunos" tem um poder de 1/3 na eleição do Reitor e de diversos outros órgãos de poder.

É simples como a batata, Pedro. Elimine a "democracia" nas universidades e restitua o poder aos professores e ao Estado (que é quem paga e, portanto, quem deve mandar), e verá como essa merda das praxes passa a ser reprimida pelas universidades.

No sistema atual os senhores reitores acagaçam-se de medo perante o "corpo" dos "alunos" (dantes chamavam-se "estudantes", agora dão-lhes esta designação infantil, que é para estar de acordo com o seu comportamento) porque sabem que, se forem firmes, esse "corpo" deixa de votar neles na próxima eleição. É por isso que os reitores, e os restantes órgãos de poder universitário, nada fazem contra as praxes.

Tá a topar, Pedro? É simples.

Luís Lavoura


De Minerva McGonagall a 28 de Maio de 2008 às 17:25
Eu cá só coloquei os pés na faculdade quando as praxes já tinham acabado. Sempre detestei este ritual.


De nuno granja a 30 de Maio de 2008 às 01:09
espero que esta sentença faça jurisprudência, pois pelo que vejo de fora a praxe é uma parvoeira imbecil, não raras vezes com praticas fisicamente perigosas e ilegais, retratando fielmente quem nela participa e dando-nos uma perspectiva assustadora dos valores duma parte significativa do meio universtitário

digo "pelo que vejo de fora" por ter frequentado a Escola de Belas Artes no Porto meio pouco dado a praxes e por na época, início dos anos 80, ainda se viver nalguma ressaca do PREC, período em que tais "praticas" eram mal vistas,

por estes motivos nunca fui confrontado com o "problema", mas conhecendo-me como sou, julgo que nem ia dar oportunidade a que me exigissem o absurdo de "ter de me declarar anti-praxe"... o primeiro "dux" que se atravessa-se na frente iria ter de fazer contas muito rapidamente para ver se a acção valia os riscos

quanto a habitual ameaça de ser excluído da vida académica por não participar na praxe, (eu chamar-lhe ia ter vida própria e gostar tanto de ser livre como de respeitar a liberdade dos outros), seria uma óptima ferramenta de gestão das relações pois permitiria em poucas semanas ver com quem se estava a lidar e seleccionar as pessoas interessantes na faculdade




De joao vaconcelos a 12 de Outubro de 2008 às 00:28
apenas venho deixar a minha ideia do que é a praxe.. fala-se muito em humilhação, em degradação, mas a verdade é que a praxe um meio como nenhum outro de desinibição por parte dos que chegam! fazem-se figuras tristes? sim fazem-se! mas e daí? só alguém com muito pouca auto-estima e falta de confiança é que se deixa ir abaixo por dar meia dúzia de abraços a turistas, ou andar a vender papel higiénico na rua!! ninguém obriga ninguém a fazer nada!! sou estudante da Universidade de Coimbra, sou pela praxe porque quero, não obrigo nenhum caloiro a fazer o que não quer, nem ameaço ninguém se não o quiser fazer. simplesmente peço-lhe que faça uma outra coisa diferente, tal como a mim me pediam quando fui caloiro.. muitas das vezes são os próprios caloiros que sugerem aquilo que querem fazer. A Praxe não passa duma brincadeira, e eu falo daquilo que vivi no meu ano de caloiro. a mim ninguém me pintou, ninguém me sujou, nada, absolutamente zero em humilhação!!! tudo e que fiz foi de livre vontade, sempre tive a noção, e sempre me transmitiram a ideia de que se me quisesse ir embora podia!
não concordo com algumas praxes, e acima de tudo não concordo com a "praxe" fora da universidade de coimbra ! na UC a praxe tem um sentido historico , tem uma razao de existir, na UC sim a praxe é uma tradição. no resto do país a praxe não tem razão de ser!! é um mero instrumento de humilhação dos mais novos! pode parecer um pouco confuso o meu texto mas ideia que quero passar é que concordo com a praxe sim, mas aquela que se vive em coimbra e na sua universidade, pois só aqui a praxe vai muito mais alem do praxar o caloiro, em coimbra toda a vida academica gira em torno da praxe, e quem é contra esta perde de certeza absoluta muito daquilo que pode lá viver enquanto estudante.. quanto a praxe de que tanto se fala, essa repudio! é suja, é imunda, é degradante, não um pingo de razão de ser..


De Pena WB a 25 de Janeiro de 2009 às 14:11
Sobre a Paraxe e as "praxes", sugiro:

http://notasemelodias.blogspot.com/2008/09/notas-sobre-praxes-e-praxe.html

Muitos outros artigos sobre a natureza e história da Praxis, o que significa, de facto, poderão ser encontrados no blogue.


De Mikimizi a 30 de Novembro de 2009 às 23:54
nao acho que a praxe fora da UC nao tenha sentido nenhum, e so por ser fora da UC que seja humilhaçao.e igualmente valido dizer que quer seja no porto evora faro ou lisboa ou onde quer que seja,a praxe ja acalçou tambem uma tradiçao nas outras cidades. tanto que ate em coimbra deixou de existir praxe durante algum tempo por motivos salazaristas,se nao me engano. so depois de alguns anos e que voltou a existir. se a praxe fora de coimbra nao e valida,a praxe apos o regime salazariste na UC tambem nao tem sentido,pois essa tradiçao teve de 'renascer'.
sou aluna na universidade do porto, a minha praxe tambem e por livre vontade e tem imenso sentido de respeito para com os caloiros,acho que ate so assim que se pode ter uma boa relaçao entra caloiro-doutor e e so desse modo que se pode ter uma boa qualidade de caloiros,que se metem de corpo e alma na praxe! a nada se obriga.constantemente os doutores perguntam aos caloiros se esta bem,se esta em sofrimento quando se percebe que algo esta errado. da se agua quando precisam, medicamentos...praticamente cuida se dos caloiros,e uma boa recepçao que se quer.so assim e que se pode viver bem em praxe!
nao te faz sentido o que disse?e porque esta praxe tambem tem sentido.
agora sim,existem praxes que sao puro exagero, sao as casas que querem quantidade e nao qualidade.as que querem chamar atençao e pensam que e assim que sao as melhores casas...nao,so com nivel,boa instruçao e bom humor e, principalmente,com caloiros que la estao com corpo e alma que se consegue ser uma boa casa!


De Cidadao Kapa a 4 de Agosto de 2009 às 19:40
A praxe, conforme a conhecemos na generalidade das universidades portugueses, é uma idiotice pegada! Quem a pratica são, quase sempre, os idiotas inadaptados que ainda não perceberam o seu lugar na sociedade. Quem a aceita é, simplesmente, inocente ou burro.


De Jogos a 3 de Dezembro de 2010 às 15:06
Ha que terminar com os extremismos


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