Quinta-feira, 8 de Maio de 2008
Egoísmo geracional

No Canhoto, Rui Penas Pires defende que, em nome d”as pressões para prosseguir na via da redução do défice”, os custos de financiamento do ensino superior deveriam ser integralmente suportados pelos estudantes, pagando-os de forma diferida depois da sua entrada no mercado de trabalho. Como "a exclusividade do financiamento estatal é, também, a alternativa do aumento, e significativo, dos impostos", Rui Pena Pires termina exigindo alternativas de financiamento a todos quantos discordam da sua proposta.

 

Em primeiro lugar, fica-se sem saber de que país é que Rui Pena Pires está a falar. Não pode ser de Portugal, porque, por cá, vivemos no segundo país da Europa dos 15 onde o Estado menos investe por aluno, o que não o demove de cobrar das propinas mais caras em termos absolutos. De resto, e citando a OCDE, o investimento  público no ensino superior tem vindo a diminuir desde que as propinas aumentaram, apesar do número de alunos ter aumentado 46% no mesmo período. Perante este cenário, fica-se sem perceber qual a razão que impele Rui Penas Pires para a descoberta de alternativas de financiamento.


Mas, discutamos o empréstimo. Voltando novamente aos números da OCDE, cada estudante custa qualquer coisa como 5 mil euros por ano. Mesmo num curso de 3 anos, e com as demais despesas associadas à frequência universitária, estamos a falar do quê? De um empréstimo à volta dos 30 mil euros? Se reparamos que metade da população paga cerca de 100 mil euros pela casa que leva 35 anos para pagar, dá para perceber a dimensão do fardo financeiro que este modelo de financiamento significaria para quem tenta iniciar a sua vida activa e da insuportável selectividade social que acarreta.


Nesse sentido, só por despautério é que se pode comparar o fundamentalismo liberal  desta proposta com o modelo público de financiamento da segurança social e a defesa de mecanismos de “solidariedade entre gerações de trabalhadores”, como defende Rui Pena Pires. Pelo contrário, o que este argumento revela, mesmo que isso escape ao seu proponente, é um indisfarçável egoísmo geracional. Rui Pena Pires, que pertence a uma geração em que o ensino superior era quase gratuito, mas estava reservado a uma ínfima elite que assim garantia sem dificuldades o acesso aos empregos mais bem remunerados, entende que a presente geração, que entrou na universidade para se ver atirada para empregos para de 500 euros, tem que pagar a factura integral dos seus estudos. Onde é que está a solidariedade em endividar os jovens licenciados num país em que 50 mil se encontram no desemprego, e onde outros 43 mil só encontram trabalhos desqualificados, arriscando-se a fazer parte da primeira geração do pós-guerra que vai viver pior do que os seus pais?

Não pode deixar de ser significativo que, como lembra o João Rodrigues, seja num blogue que tem vindo a defender a “actualização" da social-democracia que possamos encontrar propostas a defender a destruição dos ténues mecanismos de democratização e justiça social presentes na nossa sociedade. Para isso, sempre prefiro o discurso dos liberais. As propostas são as mesmas e estes, verdade seja dita, sempre têm a vantagem de dizer ao que vêm sem recorrerem a subterfúgios para insinuarem que o fazem para preservar o Estado social.



publicado por Pedro Sales às 22:59
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Comentários:
De sandi a 10 de Maio de 2008 às 15:45
Esta proposta só pode vir de um ser que teve paizinhos ricos a pagar o curso.Ele não aparece a dizer que é retornado? Em África a vida devia correr bem.....


De António Fiúza a 11 de Maio de 2008 às 21:31
o homem é socialista. o que escreve não tem de fazer sentido. está dispensado.


De sandi a 13 de Maio de 2008 às 18:09
O Homem não pode ser socialista, deve é ser do Partido Socialista.Se fosse um verdadeiro socialista sabia que os pobres quando acabam os cursos(raramente) não poderiam pagar coisa nenhuma dos referidos empréstimos e isto porque quem é pobre não tem cunhas, logo não tem emprego.


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