Sexta-feira, 4 de Abril de 2008
O apocalipse numa escola perto de si
Nas últimas três semanas, uma overdose comunicacional transformou um caso de indisciplina numa escola do Porto num problema de generalizada violência escolar e, desde as declarações de ontem do PGR, num caso de delinquência e marginalidade infantil. Por este andar, para a semana estaremos a ouvir que o centro da criminalidade organizada em Portugal tem lugar nas escolas primárias do país. Em vez de serenar e procurar soluções para um problema que existe – a indisciplina –, esta histeria não contribui um mílimetro para a resolução do caso.

A deriva securitária, que quer transformar as escolas num campo permanentemente vigiado e policiado, não só não faz nada para devolver a autoridade docente, como, pelo contrário, a dissolve ainda mais. Que confiança é que os alunos, pais e a sociedade poderão ter na capacidade de uma escola que precisa da polícia para resolver os problemas de insolência e desobediência nas salas de aula?

Curiosamente, para além do já comum espectáculo comunicacional montado por quem está mais interessado em preencher intermináveis blocos noticiosos num país pobre em novidades,  grande parte deste fogo é ateado por quem menos se esperaria: o Procurador Geral da República. Seria de supor, mais não seja pelo cargo que ocupa, que o PGR não se comportasse como um incendiário num pradaria, ateando um fogo que depois está longe de poder controlar. Como é comum no país, esta loucura em espiral durará até que alguma comunicação social encontre outro tema que “venda”. Até lá, nada será feito para perceber a única questão que verdadeiramente interessava. Saber se as escolas têm, ou não, os melhores mecanismos para resolverem os problemas de indisciplina.

De resto, esta corrida ao adjectivo mais sonoro para depreciar o sistema escolar, e o comportamento de toda uma geração, produzirá os seus resultados. É impossível que tantas dezenas de horas de exposição à premonição do apocalipse em cada escola não deixe as suas marcas na formação pessoal dos receptores. No início da semana, o Público tinha uma reportagem no regresso às aulas no Carolina Michaellis e na secundária Eça de Queiroz, em Lisboa. Nesta escola, o presidente da associação de estudantes, com 16 anos, dizia como é que resolvia o problema do telemóvel no Porto. “Se fosse minha filha partia-lhe os braços”. Mais um exemplo da irresponsabilidade da juventude? Mais devagar. Ou será que não repararam no espectáculo pouco digno que lhe estão a servir diariamente?

publicado por Pedro Sales às 17:33
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Comentários:
De Dalila a 5 de Abril de 2008 às 00:57
Esta situação está a tornar-se insuportável,parece que não há problemas tão ou mais graves do que aqueles que nos tem sido servidos pela comunicação social nos últimos dias.E o comportamento de titulares de altos cargos no aparelho de Estado não ajuda nada bem pelo contrário.A aceitação acritica de todos os apoios no braço de ferro das organizações sindicais dos professores com o Ministério da Educação trouxe para o palco mediático as posições dos sectores mais reacionários e autoritários da sociedade


De Nel a 5 de Abril de 2008 às 18:39
Eu preocupo-me com derivas securitárias, cada vez mais em voga, mas concordo que os ilícitos criminais sejam comunicados - seja na escola, na tropa, nas empresas. Não pode haver autonomia das instituições no que diz respeito ao cumprimento da lei.
Essa foi a medida concreta que o PGR apresentou


De manjac@sapo.pt a 10 de Abril de 2008 às 19:44
É verdade que o modo como o assunto foi tratado pelos media deixou muito a desejar, mas é importante não esquecer que o problema da violência escolar é gravíssimo e tem sido sistematicamente ocultado. Escrevo isto ainda debaixo do choque de ter sabido do ATAQUE a um aluno que conheço bem, incapaz de provocar, agredir ou sequer dizer palavrões, ataque gratuito sem sequer intuito de roubar, que ocorreu na escola e o levou ao hospital. Quando o PGR outro dia falou em gangs na zona de Rio de Mouro sabia do que estava a falar - eu trabalho numa escola dessa zona e por isso SEI que é assim. Não pude deixar de ficar satisfeita por alguém além de mim e dos meus colegas já ter dado por isso, embora ainda esteja tudo por fazer em matéria de busca de soluções. As escolas, por seu lado, não podem fazer nada porque estão tolhidas pelas ordens do ministério e pelo receio que muitos Conselhos Executivos têm de dar nas vistas e ficar mal numa fotografia que já remete para os professores a culpa de praticamente tudo o que de mau acontece. É URGENTE que a sociedade se dê conta da extensão e gravidade do problema da violência nas escolas, fenómeno que DISPAROU nos últimos 3 anos (não, não é má-vontade, É MESMO VERDADE) e que exija JUÍZO E UM POUCO DE HONESTIDADE E DECÊNCIA ao Ministério de Educação, esteja lá quem estiver. O assunto é um barril de pólvora e por nauseabundo que seja ver o vídeo da Carolina Michaelis (eu consegui a proeza de nunca o ter visto senão por breves instantes, pois mudava de canal ou saía da sala) teve pelo menos o mérito de fazer as pessoas entrever uma pontinha do problema. O facto de a professora ser um pouco tonta não ajudou muito, mas paciência. Agora as pessoas viram qualquer coisinha; está nas mãos delas querer ou não informar-se do que se passa. Quanto ao PGR , devo-lhe alguma gratidão porque sabe um pouco sobre a vida dos meus alunos, dos amigos deles e dos colegas da minha filha, que por inabalável opção minha estuda numa escola pública da mesma zona onde eu trabalho.


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