Quarta-feira, 5 de Março de 2008
Andar para trás

O Público foi o “meu” primeiro jornal. Melhor, foi o primeiro jornal que comprei com o meu dinheiro. Como o meu avô tinha sido revisor na Capital e no DN, a entrada do Público numa casa onde sempre se lera estes jornais foi entendida como uma traição. Mas o Público foi também isso. Uma ruptura geracional com um país fechado e provinciano que encontrava na maioria da imprensa um espelho fiel do seu atraso. Foi o primeiro jornal nacional a destacar temas como a ciência, tecnologia, educação ou a conceder o merecido destaque à política internacional. Todos os dias tinha um suplemento, regra geral de qualidade. O seu grafismo era irrepreensível e a redacção fazia uso disso para dar à luz capas arrojadas sobre temas como os avanços na descodificação do ADN, a descoberta de novas galáxias ou novos conhecimentos sobre o esqueleto de Lucy.

A rede de correspondentes, e os exclusivos internacionais a que tinha acesso pela sua ligação a jornais como o Independent ou o El Pais, fizeram a diferença na excelente cobertura da primeira guerra do Iraque ou do desmantelamento do mundo soviético. A sua opinião estava bastante acima da média, era plural e conflituante entre si. Foi com o Público, e com as tiras do Calvin e a crónica do Eduardo Prado Coelho, que adquiri um hábito que ainda hoje mantenho: ler os jornais a partir da contra-capa. Eram o primeiro momento na chegada à faculdade e, não raras vezes, o primeiro tema de conversa (ok, o segundo, depois dos Monty Phyton).

Só que, onde o país se foi modernizando, o Público regrediu. Vicente Jorge Silva saiu e o jornal nunca mais se encontrou com a sua (nova) identidade. A segunda guerra do Iraque marcou a segunda fase deste jornal, marcada pelo progressivo alinhamento e intervenção política do seu director. José Manuel Fernandes não é um jornalista que dirige um jornal, é um politico que está à frente de um jornal para fazer proselitismo ideológico. O que seria normal num projecto que tivesse nascido com esse código genético, causa estranheza no Público, que começou alinhado com jornais como o Guardian, Independent ou El Pais, e agora se vê refém de uma agenda liberal e/ou neoconservadora que não casa com a sua história. A disfuncionalidade foi-se acentuando e as vendas descendo e descendo. Desde que José Manuel Fernandes pegou no jornal, o Público perdeu um terço dos seus leitores.

Em parte porque a redacção foi sendo sucessivamente reduzida, os correspondentes há muito que se foram e os exclusivos idem aspas, aquele que foi o primeiro projecto editorial aberto ao mundo e de qualidade internacional foi-se resignando a ser mais um título no panorama da imprensa nacional. Como sobra muito pouco do jornal que se iniciou há precisamente 18 anos, o que fica são as campanhas políticas do seu director, visíveis em capas como a do “ataque à cidade mais tolerante de Israel” e editoriais com a “lágrima no canto do olho” pelo “25 de Abril de Bagdad” que iria levar a democracia a Riade. Ficaram excelentes jornalistas e alguns bons colunistas, é certo, mas o Público já não é o Público. Num gesto impensável em qualquer jornal de referência, e para provar a radicalidade do corte com o passado, até o traço mais inamovível de qualquer jornal – o cabeçalho - se foi.  Ficou o toque distintivo do seu director, agora decididamente coadjuvado pela sua alma mater. O que é muito pouco para quem tanto prometeu.
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publicado por Pedro Sales às 23:02
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Comentários:
De Marco Alberto Alves a 6 de Março de 2008 às 15:45


Portugal regrediu também desde há dezoito anos para cá...


De nelio a 7 de Março de 2008 às 00:24
esta é daquelas que se atira para cima da mesa sem se pensar realmente o que se está a dizer. regrediu em quê???? é que não me ocorre nada.


De Pedro Sales a 7 de Março de 2008 às 04:10
Caro nelio,

Pelas razões que se invocam no post. O jornal tem metade dos suplementos, deixou de ter correspondentes no estrangeiro, a redacção não pára de ser dimunuida, com as consequências naturais, pouca investigação e diferenciação dos outros jornais. Lembra-se qual foi a última vez que o Público dedicou uma capa a uma das principais descobertas científicas? O jornal tornou-se igual aos outros, restando o comprometimento político cada vez mais evidente do seu director.


De nelio a 8 de Março de 2008 às 02:00
caro pedro:

o meu comentário, como pode verificar, era uma resposta ao comentário do marco. quanto ao post, estamos 100% de acordo, subscrevo-o integralmente...


De Budos a 6 de Março de 2008 às 16:14
Pedro Sales e Daniel Oliveira são irmãos gémeos!!
JMF e JPP também o são.


De leonor a 6 de Março de 2008 às 21:01
leio o público desde o ínicio e não posso deixar de concordar que no tempo do Vicente Jorge Silva era bem mais consistente


De jmedfer@gmail.com a 7 de Março de 2008 às 15:35
Tudo bem.Mas o Diário de Notícias, dirigido por Mário Mesquita, então um geracional com pouco mais de 30 anos, tinha um suplemento de Educação que ainda hoje se pode ler... Todos nós temos direito a criar o mundo!


De IF a 11 de Março de 2008 às 10:46
Concordo totalmente. Em 2002 estagiei no "Público" em Lisboa e já nessa altura se sentia um grande hiato entre o director, José Manuel Fernandes, que era acusado, à boca pequena, de impôr os interesses da administração em desfavor dos direitos dos jornalistas.

Um esvaziamento de conteúdos e o decair da qualidade de escrita e de análise tem-se acentuado nos últimos anos. O Público é agora um espaço vazio que serve (principalmente) para publicitar e ampliar as opiniões (discutíveis e por vezes eticamente displicentes) do seu director.

Tenho pena. Cresci a ler o "Publico" e foi sempre o meu jornal de referência. Estagiar lá em 2002 foi uma sorte para mim, porque pude trabalhar lá antes de o jornal atingir o seu crepúsculo...


De IF a 11 de Março de 2008 às 10:49
Peço desculpa, mas como podem ver, o primeiro parágrafo não está correcto.

Deveria ler-se:
"Concordo totalmente. Em 2002 estagiei no "Público" em Lisboa e já nessa altura se sentia um grande hiato entre o director, José Manuel Fernandes, (que era acusado, à boca pequena, de impôr os interesses da administração em desfavor dos direitos dos jornalistas.) e a redacção.


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