Terça-feira, 19 de Fevereiro de 2008
Bosta humana

"Sempre achei as praxes divertidas e pedi para ser praxada. Eles fizeram-me a vontade e diverti-me muito". Foi assim que uma funcionária da  Escola Superior Agrária de Santarém defendeu ontem, em tribunal, os sete alunos que estão a ser julgados por causa de uma praxe violenta realizada vai para seis anos. Tão divertido, diz a senhora, que até pediu para lhe fazerem o mesmo e esfregarem "estrume na cara"...

Ao contrário do que se costuma afirmar, o problema da praxe não são apenas os seus excessos violentos. É a arbitrariedade que a rege. A praxe não tem regras, e as que tem são fixadas e julgadas pelos praxistas. A arbitrariedade e a sujeição a um conjunto de regras que são imprevisíveis e que dependem da boa vontade dos veteranos é a verdadeira violência deste “ritual integrador”. A violência é só o resultado mais visível desta cultura de impunidade e poder. Um dos ex-alunos em julgamento, afirmou que é costume esfregar os alunos em bosta de vaca porque, desta forma, “os caloiros são confrontados com o seu futuro porque, no fim do curso, é nesse ambiente que vão trabalhar". A praxe como escola para as agruras da vida. Ora aí está uma ideia aterradora que levanta uma pergunta. De que vida é que a praxe serve de modelo?

publicado por Pedro Sales às 10:58
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Comentários:
De GWB a 19 de Fevereiro de 2008 às 13:07
http://aldeiablogal.blogspot.com/2003/11/diverso-dos-palermas.html
É antigo, mas foi um post motivado pelas praxes, estas práticas ignóbeis, realizadas e promovidas por imbecis.


De Rafael Ortega a 19 de Fevereiro de 2008 às 15:26
De repente é tudo contra as praxes. No momento em que o governo ameaça acabar com cursos que tenham menos de 20 alunos, quando o investimento do estado no ensino superior desce, as pessoas estão preocupadas com quê? Com as praxes!
Como se acabar com o pintar de caras, as flexões e os rallys das tascas fossem devolver os milhões que o governo tirou às universidades.
O que eu sei é que no meu curso, entre os caloiros, é quase unânime: a semana das praxes foi a melhor do semestre. O que eu sei é que graças às praxes os novos alunos ficaram a conhecer os mais velhos, e isso ajudou bastante na hora em que a matéria começou a apertar e foi preciso ajuda. A verdade é que no fim do dia os caloiros e os veteranos iam beber imperiais para o bar da associação de estudantes e cada curso gritava mais alto que os outros numa competição muito saudável.
Não compreendo que as pessoas queiram acabar com toda e qualquer praxe, rotulando-as de violência. Será que fazer flexões em frente de dezenas de pessoas é uma humilhação com que não possam viver? Será que uma simples proibição de usar o telemóvel durante os dias de praxe pode ser comparada ao Darfur ?
A malta do MATA (Movimento Anti-Tradição Académica) fazia melhor se deixasse de ser desmancha-prazeres! Ninguém que eu conheça foi praxado contra a sua vontade. E se as pessoas levarem as coisas com calma a praxe não é mais que uma semana de paródia antes de estudar a doer...


De Estudante de uma agrária a 6 de Setembro de 2008 às 15:37
OLá..
Sou estudante na Escola Superior Agrária de Coimbra e a altura que fui sujeita a praxes, foi das melhores de sempre passadas naquela magnífica escola.
O ambiente gerado por veteranos e caloiros é saudável e contribui para uma melhor integração dos novos alunos.
Por isso, sou a favor das praxes, desde que haja respeito mutuo entre os alunos, e na ESAC há!


De Héliocoptero a 19 de Fevereiro de 2008 às 16:21
Possivelmente a praxe desses rapazinhos, como tantas outras pelo país fora, serve de modelo para uma vida de estudante que perde a conta ao número de matrículas, orgulha-se da sua incapacidade académica e exige aos caloiros que o tratem por doutor a partir do terceiro ano de curso.

A ausência de uma cultura de mérito e o direito automático a um estatuto por força do passar dos anos começa cedo, muito cedo. Basta pensar na ilustre Universidade de Coimbra, instituição secular de saber onde o Dux, esse líder entre estudantes, é aquele que mais matrículas tem. Recebe por isso, como recompensa pela sua incapacidade, uma sala, cerveja e o direito a ter a palavra em variados assuntos. Há lá maior hino à estupidez?


De Rui Carlos Gonçalves a 19 de Fevereiro de 2008 às 18:06
Querem acabar com as praxes?
Simples, os alunos que se recusem a ser praxados! Ninguém os obriga!
Será assim tão complicado?
Agora se há gente que quer manter as tradições (i.e., se há gente que quer ser praxada e gente que quer praxar), por que carga d'água os vamos proibir?

Há praxes que saem dos limites, mas os caloiros têm sempre a opção de se recusarem a participar!

Se um caloiro deixa lhe " esfregarem "estrume na cara"", vai-se queixar de quê mesmo? Se lhe fizeram isso sem ele deixar, então faz todos sentido que os envolvidos, e apenas estes, sejam responsabilizados. Mas por haver meia dúzia de imbecis, vamos acabar com as praxes?

Já agora, acabem também com o futebol... É que situações violentas à volta do futebol também é coisa que não falta. E se calhar também podíamos avançar para a proibição das manifestações, visto que volta e meio aparecem uns tipos que não se sabem manifestar de forma pacífica.


De Pedro Sales a 19 de Fevereiro de 2008 às 22:42
Caro Rui Carlos Gonçalves,

Pode ter a certeza que em muitas faculdades são mesmo obrigados. Podem não o ser fisicamente, mas a pressão existe e a resistência é o isolamento social. Foi o que aconteceu a esta rapariga, aliás, que denunciou o caso, e acabou por abandonar o curso.

Começa logo pelas instituições, que protegem a praxe e os seus excessos, em nome de uma tradição que tentam "vender" como imagem de marca e prestígio.


De Jorge C. a 20 de Fevereiro de 2008 às 00:39
Caro Pedro Sales,

Queria apenas deixar dois apontamentos. Em primeiro lugar existem regras, e regras bem rígidas para os praxistas. Em segundo lugar, tenho 8 anos de praxe e conheço praticamente todas as faculdades da academia do Porto e algumas academias como Braga e Coimbra, por exemplo. Garanto-lhe que em 8 anos nunca vi ninguém ser obrigado a nada. A pressão de que fala não nego que exista e até a reprovo, como é evidente, mas não é assim tão escandalosa como o Pedro dá a entender.

Deixe-me só dizer que embora discorde quase sempre e em absoluto de si passo por aqui todos os dias para o ler.

Cumprimentos.


De António Fernandes a 27 de Fevereiro de 2008 às 15:05
8 anos de praxe?...São Bestas como tu que enchem de orgulho a Academia Minhota!


De meninadesonhos a 20 de Fevereiro de 2008 às 03:03
As chamadas "praxes" que antigamente tinham o intuito de inserir o novo docente na instituição, apelando a criar um espírito de grupo e amizades, passou a ser presentemente um meio para a humilhação pessoal do ser humano...

Sim, é verdade que existe algo a que se dá o nome de livre arbítrio que nos permite escolher entre ser ou não praxado, mas sabem quais as consequências de alguém que se auto-intitula anti-praxe ??
Pois bem, é completamente excluído da sociedade universitária e considerado por muitos um estranho ou até quem sabe um animal!

Avaliem melhor as praxes aplicadas actualmente e façam algumas melhorias..porque praxe não implica humilhação, mas sim integração!


De Rui Carlos Gonçalves a 20 de Fevereiro de 2008 às 10:49
"Sim, é verdade que existe algo a que se dá o nome de livre arbítrio que nos permite escolher entre ser ou não praxado, mas sabem quais as consequências de alguém que se auto-intitula anti-praxe ??
Pois bem, é completamente excluído da sociedade universitária e considerado por muitos um estranho ou até quem sabe um animal!"

Só se for na sua universidade. Cá em Braga, conheço várias pessoas que não foram praxadas e que estão integradas na "sociedade" universitária. Talvez tenham tido mais dificuldade do que quem é praxado, mas também me parece que não seria de esperar outra coisa, afinal o objectivo da praxe é integrar as pessoas na universidade.


De Budos a 20 de Fevereiro de 2008 às 11:34
A praxe nas universidades é das coisas mais estúpidas que conheço na vida. Deus queira que este julgamento sirva de lição.


De Anónimo a 20 de Fevereiro de 2008 às 17:41
"...o problema da praxe não são apenas os seus excessos violentos. É a arbitrariedade que a rege. A praxe não tem regras, e as que tem são fixadas e julgadas pelos praxistas."

Com que então o problema é a ausência das regras?!?!?...tem vergonha...


De Zeni a 22 de Fevereiro de 2008 às 20:40
Praxar para integrar? esfregar estrume na cara para integrar? obriga-los a fazerem simulações sexuais para integrar?

mas que lógica é que isto tem?

querem integrar? vão beber um copo com eles, deem-lhes a conhecer a cidade...

Consigo imaginar mil formas de integrar... efectivamente...

E que fique claro: a manipulaçáo existe, a subjugação psicológica existe e em circunstâncias destas o instinto de sobrevivencia surge...INCONSCIENTEMENTE. A necessidade de integração é muita. Mtas vezes os caloiros estão numa sitação por si só de vulnerabilidade. Num ambiente novo, mtas vezes numa cidade nova. e ai de quem não colabora. fica marcado... Ou seja, a opção é condicionada, à priori.

Depois o discurso macho (alargado às mulheres praxadoras): se eu fui praxado eles tb o devem ser... É bom para enrijar! enfim...parece o discurso da tropa...

E é com este tipo de valores se inicia o estudo, supostamente...superior...

a cultura do desenrascanço e da esperteza saloia... fica tudo licenciado nisso....

Mais... as praxes reflectem muito a "qualidade" das pessoas... e o que de pior e de melhor tem...

Nada move mais o mundo que o poder.... e há minima possibilidade de o terem, muitas pessoas utilizam-no...

Há no entanto quem não o faça.

E é assim que se distinguem as pessoas...

Ter poder para algo e não usufruir do mesmo porque prejudica alguém, é das melhores e mais dificeis qualidades que alguém pode ter...


De Dinossauro (11 matriculas) a 23 de Dezembro de 2008 às 15:51
Olá, vim aqui parar por acaso, e estou meio estupefacto com alguns comentários.
Praxe sempre houve e sempre haverá, e principalmente se a tentarem proibir!
O que deve acontecer é um restringir dos abusos.
Mas como ja foi dito, desde que haja quem queira praxar por um lado e por outro quem quiser ser praxado, vamos continuar esta lenga lenga todos os anos!
Se bem que acho que ha praxes violentas com consequencias muito mais graves do que o esfregar de bosta, numa escola agraria, (material tão nojento, mas que alguem decidiu incluir na sua carreira profissional, ao ingressar numa escola desta natureza)...
As praxes são a integração e o principio de uma coisa muito maior, que se chama espirito académico, coisa esta que acompanhará ate aos ultimos minutos de vida, quem realmente passar e viver a universidade para alem dos estudos.
Para finalizar deixo aqui um exerto de uma música da tuna da agrária de santarem (A Lágrima):
"(...)Até ao longinquo que os meus olhos alcancam, há sombras, que se aproximam de mim, e aqueles que eu deixei para tras, sempre partilharam dos meus pensamentos, quero que saibam, quero que saibam, que quando for velho e sensato, palavras amargas nada significam. Se uma lágrima te cair ao ver ao ver chegar o fim, toma cuidado, muito cuidado, que a saudade começa assim! (...)"


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