Sábado, 16 de Fevereiro de 2008
Aborto ano um
Na imprensa e blogosfera, o aniversário do referendo pela despenalização do aborto foi recebido com um coro de vozes a tentar ajustar contas com uma lei que, dizem, não está a ter resultados. Pouco interessa que a regulamentação esteja em vigor há meia dúzia de meses e que seja prematuro avaliar o seu impacto. Num país pródigo em milhares de leis, portarias e diplomas regulamentares a que ninguém liga pevide, os suspeitos do costume acordaram indignados porque, através do trágico caso de uma adolescente que abortou muito para além do prazo legal, descobriram que a lei não funciona. Daí até acusarem os defensores do SIM de mentira e de conivência com o aborto clandestino foi um passo.

Vamos lá a ver se nos entendemos. A despenalização não põe fim a todos os abortos clandestinos, e nunca ninguém disse isso, mas torna-os a excepção residual. A lei que tínhamos tornava-os a regra. A diferença é simples e até já tem números. Em seis meses, 6000 mulheres interromperam a gravidez em condições de higiene e saúde pública, evitando um sem número de situações não muito diferente da que aconteceu na Torredeita. Têm a certeza que querem regrassar ao passado?

PS: Ainda estou para perceber o que é mais lamentável. Se a conferência de imprensa convocada pelo director da escola profissional onde uma jovem aluna abortou fora do prazo, e para a qual convidou as colegas para relatarem minuciosamente o que sucedeu, se os jornalistas que não encontraram nenhuma questão ética e deontológica em expor assim uma pessoa para todo o país, num julgamento mediático que em nada dignifica a sua profissão.

publicado por Pedro Sales às 15:46
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Comentários:
De Leon T. a 16 de Fevereiro de 2008 às 18:35
Desculpe Pedro Sales, publicar aqui este texto do M Vale Almeida mas ele é tão bom e tão certeiro, que tambem se enquadra no seu post.

A vacina

Diz Pacheco Pereira no Público de hoje que «(…) O “multiculturalismo”, com o seu forte relativismo cultural, é cada vez mais difícil de compatibilizar com o adquirido civilizacional ocidental. Os valores que consideramos universais, em particular os direitos humanos, são postos em causa pelo relativismo “multicultural”, que tende a desvalorizar a universalidade desses conceitos e a substituí-los por “interpretações” culturais que os põem em causa (…)»

Pois é. Só que, posto assim, na economia de um texto de jornal, ficam de fora muitas coisas: a) a distinção entre relativismo cultural e relativismo moral; b) a distinção entre multiculturalismo no plano descritivo e analítico, e multiculturalismo no plano normativo; c) a distinção entre muitas histórias, contextos e políticas multiculturais; c) a distinção entre muitas teorizações sobre multiculturalismo - inclusive algumas, mais liberais, que suponho PP não desdenharia. PP contribui para um processo de demonização simplista: “multiculturalismo” passa a ser um palavrão. O processo não é novo; já foi conseguido com a demonização da expressão “politicamente correcto” (usada, aliás, no mesmo texto de PP, criando um efeito de contágio na leitura da sua… “interpretação” do multiculturalismo.

A agenda - mesmo que, ainda admito, “inconsciente” - do pensamento do arco do poder (um agregado não necessariamente orgânico de jornais, opinion makers e académicos munidos de dicionários de demonização) consiste em vacinar rapidamente a sociedade portuguesa para o que inevitavelmente há-de vir com a sua crescente multiculturalidade: mais e maiores exigências de reconhecimento.


De Manuel Leão a 16 de Fevereiro de 2008 às 21:45
Esta é a Direita a que temos direito.

Mas, ao contrário do que as suas vozes apocalípticas diziam, as mulheres não desataram a fazer abortos copiosamente.

Ao contrário, o número de abortos esperados era muito maior do que os que se realizaram.

Quanto à falta de ética, já estamos habitados. Falar nisso, é gastar cera com ruim defunto.


De PALAVROSSAVRVS REX a 17 de Fevereiro de 2008 às 07:28
Há outro dispositivo legal que era costume desde há milénios salvaguardar: «Não matarás!»

Dá-me vontade de mandar foder tanto estilo e argumentação se este fundamento estiver em causa, assim como os coralistas comentaristas pastantes da hipocrisia porque os extremos da hipocrisia tocam-se também.

Basta um orgulhoso como tu, um, nesta matéria, empedernido, para terraplanar isto. Porque, quanto a isto, nem uma palavra. É gestão. É talho! É sarrabulho!

De modo que estamos conversados. Mais Sibéria, menos Sibéria, mais Auschwitz menos Auschwitz, mais assassínio do humano com menor volume menos assassínio do humano com menor volume, é tudo gestão, não é, Pedro?

Lamento!

PALAVROSSAVRVS REX


De Manuel Leão a 18 de Fevereiro de 2008 às 23:40
Sr. Palavrossauros Rex :

O seu comentário é de um perfeito democrata.

Argumentos:
"Gestão" ;"talho" ;"serrabulho" ; "Sibéria mais Auschwitz ".

E depois, ainda diz que lhe dá vontade de ... , dando uma de “Rambo”.

Com esse discurso, seria melhor adoptar o pseudónimo de o "Quinto Cavaleiro do Apocalipse”.

P.S. A propósito: escreve-se “sarrabulho”. Por favor não terraplene a língua Portuguesa.

A propósito, ainda, escreve-se “terraplenar”. Já é azar!


De nelio a 17 de Fevereiro de 2008 às 15:59
em resposta ao comentário anterior, é incrível como ainda há pessoas que não compreendem que o que está em questão não é se matarás ou não, mas em que condições (para a mulher) se mata e que interesses obscuros a matança serve. espanta-me que ainda haja pessoas que pensem que as políticas proibicionistas sejam eficazes para controlar certos fenómenos sociais. fazer ou não fazer aborto, nunca foi a questão, a questão que muitos se recusam a encarar de frente é em que condições esses abortos são feitos.

desculpem o tom crú, mas há touros que têm que ser pegados pelos cornos.


De Ana Matos Pires a 17 de Fevereiro de 2008 às 18:02
"... evitando um sem número de situações não muito diferente da que aconteceu na Torredeita."

Ou pior ainda, Pedro, como a morte: "Mais de 300 milhões de mulheres no mundo sofrem actualmente de doenças a longo ou a curto prazo provocadas pela gravidez e pelo parto. As 529.000 mortes maternas anuais, incluindo as 68.000 mortes atribuíveis ao aborto inseguro, estão distribuídas de forma ainda mais desigual do que as mortes neonatais e infantis..."

"Panorama Geral - Relatório Mundial da Saúde 2005 - para que todas as mães e crianças contem" (http://www.who.int/whr/2005/media_centre/overview_pt.pdf)


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