Quarta-feira, 12 de Setembro de 2007
O 12 de Setembro
Não há nada mais violentamente inaceitável do que a instrumentalização política da emoção e vulnerabilidade das massas. É o caldo mais certo para a manipulação. Cerceia a democracia, que se baseia na liberdade de discordar, tornando o unanimismo o único estado de alma aceitável. Coloca quem o questiona em anti-patriota ou, pior, no idiota útil que cumpre os desígnios do inimigo. Com a barbaridade sem nome dos ataques terroristas do 11 de Setembro, George Bush dispôs da solidariedade e do apoio raramente desfrutados por um seu antecessor. Os americanos estavam dispostos a segui-lo. O resto do mundo, preparado para apoiar uma administração norte-americana, como poucas vezes aconteceu no passado.

(gráfico: Wall Street Journal)

Tudo isso foi desbaratado pelo que veio a seguir, sempre com o ataque às torres gémeas como caução moral. O Pactriot Act e a limitação das liberdades civis. A vigilância electrónica de jornalistas e opositores. A admissão e banalização da utilização da tortura. A ausência de leis e direitos em Guantanamo. A violação da separação de poderes, base do Estado de direito, alterando a legislação a cada entrave dos tribunais aos desmandos da administração. O ajuste de contas com o passado e a ocupação do Iraque, em nome de uma gigantesca mentira. Os sucessivos erros e a ausência de um pingo de inteligência na gestão do período pós Saddam. O atoleiro em que se tornou o Iraque, palco da violência sectária e, agora sim, entregue aos fanáticos da Al Quaeda.

De um e do outro lado do Atlântico usou-se e abusou-se da (real) ameaça terrorista para criar as raízes de um estado policial cada vez mais presente, e em que os mais básicos direitos foram sendo postos em causa em nome da luta contra o terrorismo. É a essa luz que deve ser julgada a mais recente proposta da Comissão Europeia, que pretende banir da net palavras como genocídio ou terrorismo. É sempre em nome dos melhores princípios que começamos a vacilar na protecção contra o abuso e a aceitar o autoritarismo. Bush, ou alguém por ele, foi o principal arquitecto desta campanha. Foi ela que permitiu a um pequeno grupo ganhar milhões, aumentando quase sem limites o orçamento militar e os contratos sem controlo no Iraque.

Tudo isso deveria bastar para alguma discrição na celebração do 11 de Setembro. Fazer como fizeram ontem os americanos. Mas nada disso é suficiente para a nossa armada de corajosos guerreiros de sofá e para a direita radical. Depois de uma série de posts disparatados, estão muitos indignados porque o Daniel Oliveira escolheu o 11 de Setembro para criticar o Bush. É mais uma prova da superioridade moral da esquerda, dizem. “Claro que DO sabia de fonte segura que não existiam armas de destruição maciça. Claro que DO sabia que não existiam ligações entre Saddam e a al-Qaeda”. É o dono da verdade, rematam.

Como se a questão fosse que os opositores da guerra nunca tenham conseguido provar antes da guerra as suas dúvidas e não, como é obvio, que a administração Bush tenha começado uma guerra sem ter essas mesmas certezas. Mesmo para rescrever a história deve haver limites para a falta de pudor e de descaramento.
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publicado por Pedro Sales às 10:13
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Comentários:
De headskin a 12 de Setembro de 2007 às 17:45
Mt bem


De J a 12 de Setembro de 2007 às 13:48
Ainda hoje estou para perceber onde raio foram desencantar essa de que "George W. Bush tem boas capacidades de liderança", um argumento utilizado nas eleições de 2004. Quem consegue ter o apoio de quase 90% do eleitorado no dia 12 de Setembro de 2001 e em seguida inicia uma descida que graficamente mais parece a encosta de uma montanha, deve faltar-lhe alguma coisa - até o Irão ofereceu apoio aos EUA! E no entanto, toma lá "Axis of Evil"...é um grande desrespeito pelas vítimas.


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