Quarta-feira, 28 de Novembro de 2007
Não é bem-vindo, mas ainda bem que vem
Robert Mugabe vem a Portugal e Gordon Brown não vai estar presente. Ainda bem. A birra inglesa era inaceitável. Goste-se ou não do regime de Mugabe, a cimeira Europa-Africa é um encontro que ocorre entre duas organizações internacionais. Se a União Europeia convidou a União Africana é porque reconhece a sua legitimidade, não lhe competindo decidir quem é que esta pode ou não fazer representar em seu nome. A pretensão britânica é uma óbvia, e ainda por cima selectiva, ingerência nos assuntos internos de um outro país e instituição internacional.

Por muito que não se goste do regime de Mugabe, e existirão boas razões para isso, não é assim tão distinto de tantos outros que estão no poder no continente africano e que vêm a Lisboa sem que isso levante qualquer tipo de celeuma. As razões de Gordon Brown não têm nada a ver com os direitos humanos. Se assim fosse, teria dito que não se reuniria com a miríade de ditadores que vão estar em Lisboa, o que não fez. Se assim fosse não se encontraria, como aconteceu há menos de um mês, com um representante da teocracia saudita que, ainda esta semana, mostrou o que valem os direitos humanos no reino com a condenação a 200 chibatadas de uma mulher, porque teve “relações impuras” com os sete homens que a violaram. O problema de Brown não são os direitos humanos. Mugabe é o pretexto para fugir aos crescentes problemas do seu governo, desviando as atenção para a causa popular e simpática entre muros da defesa dos grandes proprietários britânicos em risco com as expropriações levadas a cabo por Mugabe.

Luís Amado também está longe de ficar bem no retrato. Não se convida um líder de um país para estar presente numa reunião internacional para depois dizer que “era preferível que não estivesse”. Ainda por cima a fazer passar o recado pela imprensa. Não chega a ser troca tintas. É mesmo a proverbial falta de coluna vertebral da nossa “política externa”. Amado, e o governo português, talvez não tenha percebido a figura ridícula que está a fazer em toda esta história. Pelas “razões do costume”, como uma vez explicou o próprio ministro a propósito da visita a Portugal do Dalai Lama.

publicado por Pedro Sales às 10:14
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Comentários:
De Cláudia Ribeiro a 29 de Novembro de 2007 às 22:36
A União Africana não tem um terço de integridade que a U.E. tem.

É uma organização fachada e penso que esta cimeira só servirá para eu reforçar essa opinião.


De Anónimo a 29 de Novembro de 2007 às 15:41
O que Mugabe merecia era levar uma bela prenda de Portugal, mas da Ordem dos Jornalistas, que com ele já têm "assunto" garantido para as "massas", sem terem que prescindir das suas belas "sestas"...


De almada a 28 de Novembro de 2007 às 23:12
O problema de Brown e que já era de Blair, é que o governo de Mugabe decidiu levarb adiante um reforma agrária, retirando terras aos brancos que possuiam a quase totalidade, para as redestribuir pelas populações negras.
Essa é a única razão, os ditadores e as ditaduras não são chamados para esta posição dos democratas Blair-Brown.
Quanto a Luis Amado, continua a fazer o papel que melhor sabe fazer, o de palhaço, como se verificou no final da reunião sobre a aprovação da constituição europeia.


De samuel a 28 de Novembro de 2007 às 15:57
Nem sei o que é que há para argumentar sobre esta triste cena.
Os ditadores sentados â mesa serão mais que as mâes, os dirigentes europeus, com Brown no topo, são basicamente uns hipócritas e Luís Amado o bobo de serviço, rezando para que alguém finalmente o cumprimente nas putas das cerimónias...


De Filipe Tourais a 28 de Novembro de 2007 às 15:15
Bem sei que sim, vai ser uma parada de ditadores. E também entendo o seu ponto de vista, que Brown não vem por ser um ditador, mas sim por ser aquele ditador, o que prejudicou a comunidade inglesa no Zimbabwe. Mas a UE, neste momento, é uma coisa esquisita, uma amálgama de diferenças esbatidas em consensos forçados que lhe retiram qualquer identidade, como se a UE fosse um todo homogéneo e como se as políticas seguidas favorecessem todos por igual. E estes consensos só se demonstram puro plástico com atitudes como a inglesa. A mesma que deveríamos ter quanto à cotação do Euro, ou quanto às taxas de juro, ou quanto ao PEC, só para dar três exemplos, que objectivamente nos prejudicam e que, caso as contestássemos, não estaríamos a ingerir-nos em assuntos que não nos dissessem respeito. A Inglaterra faz o mesmo, contestando a política externa da UE. Não concorda e não o esconde. Faz bem.


De Nuno a 28 de Novembro de 2007 às 14:48
As razões da Inglaterra de facto nada têm a ver com os direitos humanos. É miserável a Inglaterra vir fazer estas birras qd sabe que o q se discutirá nesta cimeira não se esgota no Zimbabwe e pior ainda é escudar-se com a desculpa dos direitos humanos! Pq na realidade vêm aí de visita (muitos) ditadores ricos de países miseráveis!
Não me parece q Luis Amado ande a passar recados e nada tem de troca tintas! Aplique a mm objectividade de julgamento q fez da posição Brown e verá q assim é. O LA disse o q pensava, q se o Mugabe não viesse seria melhor pois a discussão estaria centrada no q é verdadeiramente inmportante! Ele disse alguma mentira?
Quem vai ouvir das boas e das grossas na cimeira é o Mugabe!


De Anónimo a 28 de Novembro de 2007 às 14:13
Depois de ler Zero de Conduta e Arrastão, entendo melhor a frase de Reich (Escuta, Zé Ninguém!) sobre os fascismos negros e vermelhos.


De Pedro Sales a 28 de Novembro de 2007 às 14:10
Filipe Tourais,

Não é só a Arábia Saudita. Em Lisboa, na mesma cimeira, vão estar para cima de 10 ditadores. O que a Inglaterra tentou foi condicionar a participação de um país de outra organização internacional. Imagine que os países africanos diziam que aceitavam discutir com a União Europeia mas condicionavam a sua presença à ausência do governo Polaco (no tempo dos irmãos gémeos, uma democracia também muito pouco recomendável). Imagina o que é que se diria sobre a ingerência nos assuntos da União?


De Filipe Tourais a 28 de Novembro de 2007 às 13:03
Não estou nada de acordo quanto ao que diz relativamente à posição britânica. Sou contra os falsos consensos dentro da União. A Inglaterra vem em sua própria representação. É um Estado soberano, tem legitimidade para o fazer e recusa-se sentar à mesma mesa que Mugabe. Não o fez com a Arábia Saudita, também está mal, é certo, mas um mal não legitima outro. Ficam dois.


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