Sexta-feira, 14 de Setembro de 2007
A novela da noite precisa sempre de culpados
A forma como está a ser construída, na praça pública, a nova imagem de Kate Mccann é perturbadora. Não faço a mínima ideia se a senhora é inocente ou culpada, mas incomoda-me detectar os mesmos esquemas para acicatar o julgamento popular que já conhecemos de outras paragens. Prova que não aprendemos nada com o que se passou com o processo Casa Pia e com a sua derivação envelope 9. Sistema judicial e alguma imprensa continuam a funcionar como se nada se tivesse passado.

Há poucos dias a PJ apreendeu o diário de Kate Mccann, considerando-o um elemento de prova essencial para estabelecer o seu perfil psicológico. Ontem, um jornal e uma revista publicaram abundantes detalhes sobre o mesmo caderno pessoal. Parece que a mãe escreveu que a filha se comportava como uma "histérica" e que a sua "hiperactividade" lhe consomia as forças. Na capa, bem destacado, mãe "insulta" a filha. Hoje, no mesmo jornal, ficamos a “saber” que a “PJ investiga cúmplice dos Mccann”. O julgamento já foi feito, são culpados e têm cúmplices.

De cada vez que a opinião pública começa a questionar o trabalho da PJ ou do MP já se sabe que, nos dias seguintes, aparece na imprensa alguma “notícia” que crie a comoção necessária para explicar a mudança de rumo na investigação policial. Em Lisboa, no Porto ou em Faro as fugas de informação são uma constante tão regular como a sua permanente impunidade. Não é preciso testes de ADN para saber de onde partiu esta fuga e que a mesma teve que partir de alguém ligado à equipa de investigação. As fugas de informação são a instrumentalização da justiça, pervertem a presunção de inocência, são um chamariz para o julgamento popular. Em vez de andar a distribuir computadores, Alberto Costa (que, ao que consta, ainda é o ministro da Justiça) devia era estar a fazer qualquer coisa para garantir que as “fugas de informação” não são toleradas.

Verdade se diga que há sempre algum jornal ou revista disponível para ser instrumentalizado e nos justificar esta perversão com o interesse público e jornalístico. Curiosamente, a mesma que, no processo Casa Pia, se viu envolvida na divulgação das escutas ilegais...

publicado por Pedro Sales às 10:54
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Comentários:
De PAULO MOUTA a 15 de Setembro de 2007 às 23:27
Pois aqui a questão central é mesmo essa, a do segredo de justiça. Pois ele existe, mas não é respeitado. E não é porque não interessa ser. Um segredo não gera notícias. Contudo há algo neste caso que pode ser ainda mais perturbador. E se não houve qualquer fuga de informação? E se tudo o que se ouve e lê é fruto de uma imaginação inspirada mas macabra dos media? É que a cada dia nascem novas ideias convertidas em factos. A miuda está morta sem cadáver. Os pais são os assassinos sem cadáver nem conclusão de investigação, quanto mais julgamento. A vida destas e de muitas outras pesssoas é devassada à exaustão. Toda esta história está muito mal contada desde o início. Se o que é dito são fugas de informação então temos apenas mais do mesmo. É grave. Mas se são meras invenções é ainda mais grave. A ditadura da necessidade de notícias pode muito bem tornar-se no carrasco da (residual) democracia que ainda temos.


De Anónimo a 15 de Setembro de 2007 às 09:20
A nova imagem da Sra Mccann está a ser construída da mesma maneira que foi construída a imagem de mãe dedicada em desespero pela filha raptada, nos média, através da encenação que estes facilitam. A realidade é coisa de menor importância aqui. Não escondo, dá-me um certo gozo...


De A. Cabral a 14 de Setembro de 2007 às 16:51
O telejornal aprendeu um novo formato. Martela ate a inconsciencia o tele-espectador com a mesma historia, com todos os intervenientes possiveis e improvaveis, o cao, o gato e o poste de iluminacao; com o piscologo, o advogado e todos os que tenham labia. E entre os segmentos um atrapalhado pivot a improvisar com voz hesitante, porque deve ter sido tudo cozido mesmo 'a ultima...


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