Quarta-feira, 21 de Novembro de 2007
Uma Esquerda sem Heróis
(publicado no Público de hoje)
0. A já ida discussão entre o presidente Hugo Chavez e o rei Juan Carlos é ainda motivo para que em Portugal, à esquerda do governo PS, recrudesçam elogios à figura do primeiro-ministro espanhol Zapatero: entre o presidente venezuelano e o rei bourbon, salve-nos o primeiro-ministro espanhol, sugerem entre outros os cronistas Daniel Oliveira e Rui Tavares. Se bem entendo, por detrás destes elogios a Zapatero está a vontade de colocar em cima da mesa, para debate, questões importantes.

1. Em primeiro lugar, os elogios a Zapatero valorizam o seu perfil de líder sóbrio, sobriedade celebrada por oposição à excentricidade de Hugo Chavez. Se é assim, compreendo este elogio; compreendo que depois de tantas experiências históricas em que inúmeros “Grandes Homens” caíram em desgraça, quanto menos aventureiro nos (a)parecer o líder, mais seguros estamos de que tudo continue a correr mal e não pior do que mal. Note-se porém que há qualquer coisa de paradoxal nesta atracção pela sobriedade; em bom rigor, se a crítica à excentricidade de Chavez pretende ser uma crítica ao “culto da personalidade”, então a solução não poderá ser um outro culto de uma outra personalidade.

2. Não se trata aqui – no sublinhar deste “paradoxo” – de uma questão meramente “lógica”. Trata-se de uma questão com implicações políticas. Veja-se que se focalizarmos a crítica ao “culto da personalidade” na figura de Chavez, estaremos a proceder de modo semelhante ao que fazem vários sectores políticos de direita que hoje criticam o “populismo” do presidente eleito da Venezuela e que ontem elogiaram outros “Grandes Líderes”, de Margaret Tatcher a Augusto Pinochet. Esta semelhança com a direita, que em si mesmo não é um problema, faz com que, todavia, percorramos um mesmo caminho com ela: o caminho de – e para usar uma imagem de gosto duvidoso – deitar fora o menino com a água do banho, isto é, o caminho de secundarizar os processos anticapitalistas que decorrem na Venezuela por causa da crítica à personalidade de Chavez.

3. Ou seja: tal como criticamos o elogio de direita à figura do “Grande Homem” que quer comandar a História a golpe de espada, devemos criticar Chavez; mas, e por esta mesma razão, a nossa crítica a Chavez não pode ser simétrica àquela crítica da direita, uma crítica especificamente dirigida a Chavez. A menos, claro está, que queiramos adoptar uma posição de neutralidade num dos processos políticos e sociais mais conflituosos da actualidade, um processo onde de novo se decidem vários enlaces das lutas de classes. Devemos criticar o “culto da personalidade” de Chavez, mas devemos fazê-lo, antes de mais, por razões que não o seu famigerado estilo “populista”: devemos fazê-lo porque queremos que os processos políticos de transformação social se desenvolvam em termos de não-líderes e de não-heróis; e queremos que assim seja porque entendemos que só assim é que tais processos podem ser processos de transformação do poder, processos de alteração da natureza do poder – à imagem do “nosso” PREC –, processos que revolucionam as lógicas de liderança do poder antigo.

4. O processo político e social em curso na Venezuela tem em Chavez uma figura cimeira mas não se reduz – e muito menos queremos que se reduza – à graça ou à desgraça de Chavez. Na realidade, o significado revolucionário do auto-culto de Chavez é contraditório: ele ambiciona alimentar um processo de mobilização de “massas” mas ele também procura manter este mesmo processo de mobilização, que tem implicado rupturas políticas com o capitalismo em variados domínios, “sob controlo” da elite chavista, elite entretanto instalada no topo da velha máquina do poder antigo, o Estado. É criticando este “controlo” que interessa fazer a crítica a Chavez.

5. Julgo também compreender que, no contexto português, os elogios a Zapatero tenham o condão de manter vivas as esperanças na possibilidade de uma política socialista diferente da política vigente no governo Sócrates. São esperanças que não me animam porque não as acho realistas – cada um tem o “seu” pragmatismo… – e porque entendo que a crítica do “socialismo real” implica a crítica da tradição marxista-leninista mas também a crítica da tradição social-democrata: o “socialismo num só país” e a “revolução a partir de cima” fracassaram e a alternativa não é regressar à “social-democracia num só país” ou ao “reformismo a partir de cima”.

6. Resumindo, podemos simpatizar com a figura de Zapatero mas não me parece que o zapaterismo possa fazer sombra ao processo revolucionário em curso na Venezuela, um processo que é parte das viragens sociais e políticas sul-americanas e que é motivo de alento, aprendizagem e experiência para todos os que se encontram sobre o lado esquerdo.

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publicado por José Neves às 17:12
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Comentários:
De F. Penim Redondo a 26 de Novembro de 2007 às 16:10
Basta ver uma conferência de imprensa de Chavez, em que só falta dar biberon ao neto, para perceber tudo. Faz esmola ao povo com as riquezas naturais do país como se se tratasse de uma magnanimidade pessoal que lhe desse o direito a presidir para sempre.

Não basta alguém opor-se aos maus para ter razão. Até há aqueles, como o Chavez, que se opoem de tal maneira que até favorecem o inimigo.
E não é só uma questão de estilo embora até isso seja importante.
Se alguém que defende uma causa projecta uma imagem de bronco ou de lunático reduz claramente as probabilidades de sucesso. Até se costuma dizer "cão que ladra não morde".

É precisamente para quem não gosta de Bush e do que ele representa que Chavez constitui um problema. Quase faz o Bush parecer um ser civilizado, uma pessoa de bem.

O Chavez e o seu socialismo pimba, movido a petróleo, é o pior compagnon de route que a esquerda podia desejar; não tem qualquer futuro e não pode ser modelo para os que não têm petróleo.

A tolerância perante Chavez é a demonstração mais cruel do desnorte em que a esquerda se encontra.


De Nuno Castro a 23 de Novembro de 2007 às 09:03
OK´, dizes montes de coisas importantes. Mas esqueceste-te de explicar por que devemos prestar atenção ao processo transformativo em curso na Venezuela. A menos que esta atenção seja meramente crítica. Se assim for, não dizes nada que 90% da blogosfera à direita do BE não tenha dito; apenas apagas o sibilino termo ditadura. Por conseguinte, permite perguntar, para que serve o teu texto exactamente, senão como viagemm diletante em torno dos perigos do culto da personalidade?


De André Gomes a 22 de Novembro de 2007 às 06:23
Eu tenho, por princípio, a precaução de nunca confiar em líderes ou governos cujos principais rendimentos nacionais são derivados da exportação de petróleo. A protecção das exportações serão sempre a sua preocupação mais evidente e, para além disso, parece-me no mínimo contraditório que um regime "socialista" se baseie na própria força vital do capitalismo. Não será por acaso que a democracia não passe de uma miragem nos países pertencentes à OPEP, que contribuem com quase 80% das exportações mundiais de petróleo. É arriscado de mais deixar o controlo destas máquinas exploradoras ao controlo períodico dos cidadãos. Melhor distribuição de rendimentos? Acredito que Chavez o tenha feito mas com certeza à custa de reformas sociais que não passam de uma gota de água no dinheiro distribuído entre os oligarcas do estado venezuelano.


De Paulo Mouta a 22 de Novembro de 2007 às 01:27
Excelente post. Chavez representa hoje ao mesmo tempo uma esperança e uma preocupação. Esperança num processo anticapitalista que possa representar uma verdadeira alternativa e principalmente tendo em conta que se trata de uma realidade muito específica a da américa latina. Preocupação porque a sua figura pode representar uma contradição com os seus objectivos. Chavez está a anos-luz de ser um Allende a todos os níveis mas tem nas mãos uma oportunidade histórica única. Esperemos que não se deslumbre e que coloque a última palavra na vontade da maioria de povo venezuelano.


De almada a 21 de Novembro de 2007 às 23:21
Entre a social democracia e um processo revolucionário, há "uma certa esquerda" que prefere a social democracia. A social democracia, por sua vez (e como se nota claramente), prefere a defesa do capital.
Donde se pode concluir que há "uma certa esquerda" que óbviamente se coloca ao lado do capital.


De André a 21 de Novembro de 2007 às 18:15
isto é o que se chama um começo em grande.
abraço
A


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