Segunda-feira, 22 de Outubro de 2007
O politicamente correcto tem as costas largas
Anda para aí uma grande indignação porque James Watson, um dos cientistas que descobriu a estrutura do ADN, viu ser cancelada uma conferência científica depois das suas polémicas afirmações sobre a base genética para a menor inteligência dos africanos. José Manuel Fernandes (sem link) e João Miranda encontram neste caso o exemplo do condicionamento da ciência pelo “politicamente correcto”, impedindo a continuação do debate. Já Desidério Murcho considera que estamos perante o germe do “pesadelo orwelliano”.

Numa curiosa escolha de palavras, Desidério Murcho pergunta se “um cientista não tem direito a ter crenças falsas”? Depende. Do método, do rigor e da honestidade. É que, contrariamente ao que defendem os três nomes citados, não é o condicionamento politicamente correcto da ciência que está em causa, mas a sua credibilidade. A questão não são tanto as “crenças” de Watson - onde em nada se distingue do mais idiota dos racistas -, mas o facto de elas serem proclamadas com o argumento de autoridade da investigação genética e do “único compromisso com a ciência pura”. A prova “científica” usada por Watson para desmentir a igualdade racial da inteligência é a suposta burrice dos empregados negros. Ora, como foi rapidamente negado pelos seus pares, não só há nenhum estudo que comprove as teses de Watson, como o próprio já veio pedir desculpa pelas suas palavras e dizer que “não há bases científicas” para as suas afirmações. Curiosa “ciência pura”, cujas conclusões se desfazem ao fim de uma semana de moderada polémica...

James Watson, continuando o seu historial de proclamações polémicas na véspera do lançamento dos seus livros, tentou vender a banha da cobra. Escolheu uma polémica garantida. Não existe nenhum "tabu", como insinua JMF, na conclusão científica de James Watson. O problema é que ela não é científica, mas vende a ciência para se legitimar e defender o mais profundo dos estigmas racistas.

É a esta luz que devem ser encaradas as conferências canceladas. É normal que a comunidade académica se queira preservar e não se queira ver envolvida numa polémica que nada tem a ver com a ciência. Ou será que José Manuel Fernandes convidaria Jayson Blair (o jornalista do New York Times que inventou dezenas de reportagens sem nunca sair da sua secretária) para conferenciar numa palestra sobre deontologia jornalística? E a patrulha do politicamente correcto, também convidaria Floyd Landis (o ciclista a quem foi retirada a camisola amarela, de vencedor da Volta a França de 2006, por estar dopado) como principal orador num encontro sobre a ética desportiva? É tudo uma questão de credibilidade. Do cientista e de quem não perde uma oportunidade para fazer campanha contra a suposta ameaça do "politicamente correcto".

publicado por Pedro Sales às 03:32
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Comentários:
De Holmes a 26 de Outubro de 2007 às 03:27
Que ia Watson fazer à conferência científica? Defender a suposta inferioridade intelectual genéticamente determinada dos negros? Porquê então o cancelamento da mesma? É por isso que JMF não deixa de ter razão. O políticamente correcto já passou das palavras aos actos sem palavras -> CENSURA. É uma verdadeira caça às bruxas e isso é inaceitável.


De Elisabete Joaquim a 24 de Outubro de 2007 às 23:04
Mais um dos raros textos sobre este caso Watson que posso subscrever.

A vírus do «politicamente incorrecto» assola a blogosfera, fazendo da ciência de rigor a sua principal vítmia.


De pedro figueiredo a 24 de Outubro de 2007 às 05:58
o politicamente incorrecto e' o politicamente correcto desta "nova" "direita", serve para justificar as maiores atoardas.

excelente texto.


De Anónimo a 24 de Outubro de 2007 às 00:22
Não existem estudos científicos? Essa é para rir...

Só estes dois artigos de revisão citam mais de uma centena de estudos publicados em revistas com arbitragem pelos pares:

J. Philippe Rushton and A. R. Jensen, "Thirty years of research on race differences in cognitive ability", Psychology, Public Policy, and Law, Vol. 11, No. 2, 235–294 (2005)

http://psychology.uwo.ca/faculty/rushtonpdfs/PPPL1.pdf

P. L. Roth et al., "Ethnic Group Differences in Cognitive Ability in Employment and Educational Settings: A Meta-Analysis,", Personnel Psychology 54 Issue 2 (2001) 297


De Tarzan a 23 de Outubro de 2007 às 13:54
Não há uma grande diferença entre contra-argumentar e mandar calar? O disparate desmonta-se facilmente. A não ser em questões de fé.


De Paulo Mouta a 23 de Outubro de 2007 às 00:32
Subscrevo na íntegra este texto. Há que ter a noção de que é possível manipular estudos científicos dando-lhe uma base aparentemente real. Se eu quisesse poderia facilmente comprovar que os ciganos são menos inteligentes do que os negros ou do que os brancos. Bastaria criar as condições para que a forma de medir essa inteligência fosse o mais abstrata possível. Com os testes correctos nas circunstâncias correctas faria parecer perante o mundo que a raça negra ou que a raça cigana tem efectivamente níveis de inteligência mais baixos. É evidente que,na realidade, essa questão nem deve ser colocada. Não é uma questão científica e não é sequer uma questão pertinente. É meramente uma questão política que só tem fundamento para quem quer estratificar e ficar na posição superior dessa estratificação. É por isso que os cientístas, e principalmente os das ciências sociais se deveriam inibir de "experimentar" sobre temas aos quais estão demasiado ligados. É óbvio que para um racista um negro será sempre menos inteligente mesmo que o seu QI seja superior.
Agora também há que ter em atenção que esta questão concreta não deve invalidar automaticamente todo o trabalho do cientista em questão. Podem existir estudos bem elaborados e dignos de serem analisados.


De samuel a 22 de Outubro de 2007 às 21:13
Sofreu quase imediatamente consequências por ter tido a lata de confessar o seu racismo abjecto ou, quem sabe, a brilhante ideia de se "esticar" um bocadinho na pura provocação, para melhor vender o seu peixe...
Bem feito!
Pena que por cá não aconteça o mesmo com luminárias como João Miranda, Pedro Arroja ou o vómito Alberto Gonçalves.
A liberdade é uma outra coisa, habitada por gente digna, mesmo quando pensa diferente!


De Esteva a 22 de Outubro de 2007 às 18:28
Subscrevo inteiramente o que disse. É duma lógica imbartível a meu ver. Às vezes tenho a impressão de que os nacionais-pensadores-em-público não pensam bem antes de escrever.


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