Terça-feira, 15 de Janeiro de 2008
O fascismo instrumental
Numa das suas últimas crónicas no Público, o Rui Tavares chamou a atenção para os manifestos exageros retóricos de Vasco Pulido Valente e Pacheco Pereira a propósito da lei do tabaco. “Vasco Pulido Valente ameaçava aniquilar com o verbo quem se permitisse chamar “fascismo” à ditadura de Salazar — uma ditadura que censurava, prendia e torturava os seus opositores. Pacheco Pereira indignou-se por ter havido quem chamasse “fascista” a George W. Bush, — isto por causa de Guantánamo, do Patriot Act e da Guerra do Iraque. E eu levei-os a sério. E agora descubro que estes mesmos historiadores não tiveram dúvidas em classificar como “fascista” a nova lei do tabaco. Não lhe chamaram exagerada, mal concebida ou uma série de coisas que, concebivelmente, se poderiam dizer acerca de uma lei que transforma espaços que eram por regra de fumadores em espaços de não-fumadores. Não: fascista é que é.”

Precisamente porque vindo de quem, ao longo de décadas, tem vindo a exigir um rigor exegético na utilização do termo “fascista”, o caso de Pacheco Pereira é merecedor de uma atenção especial. Este prolixo autor de um blogue perseguido por meia blogosfera, tem-se empenhado na reabilitação de Mário Machado. “Tudo na longa manutenção de prisão preventiva de Mário Machado é estranho e aponta para razões puramente políticas, o que é inadmissível numa democracia”. Onde Pacheco Pereira encontra a perseguição por delito de opinião (de um movimento que se junta para cantar os parabéns a Rudolf Hess com protecção policial), o Ministério Público viu dezenas de crimes, entre os quais a posse ilegal de armas, agressões, ameaças de morte, insultos e sequestro. Mário Machado, e os seus amigos que se entretêm a profanar cemitérios judeus, é o mesmo que escreve cartas da prisão a ameaçar a vida de magistrados, coisa que se presume séria de quem já se foi preso e condenado pelo homicídio de uma pessoa que cometeu o “crime” de ter nascido com a cor “errada”. Mas, também nessa altura, Pacheco Pereira não via razões para falarmos de "fascismo". No dia 17 de Junho de 1995, poucos dias depois do homicídio de Alcino Monteiro por Mário Machado e companhia, era isto que Pacheco Pereira dizia no Expresso:

“O ridículo de falar na “noite de cristal” ou no “terror fascista” à solta em Lisboa só não salta aos olhos de toda a gente porque o nosso discurso estão tão degradado que as palavras já não têm o significado que pretendem ter”.

“Se pensam que há alguma coisa de pedagógico nesta histeria colectiva “anti-racista” e que com ela se previne qualquer outro crime, estão bem enganados: o feito será precisamente o contrário.”


“Ao se perder a medida perde-se a razão e entra-se na história do rapaz e do lobo. Ao se destruir o valor das palavras falando de “terror fascista” para com stampede racista de 50 guetos, está-se a gritar ao lobo antes de ele vir.”


"No dia em que de um Tribunal saírem para passar uns anos na cadeia os assassinos do jovem negro, a verdadeira pedagogia anti-rascista far-se-à.”


Como em quase tudo o que diz e escreve, Pacheco Pereira tem uma visão instrumental da palavra "fascismo". A sua definição, e aceitabilidade, pertence-lhe. A lei é fascista e quem não a critica nestes termos é porque convive bem com o ambiente de conformismo generalizado. Os fascistas, que matam e sequestram, são presos políticos. Pacheco Pereira tem razão numa coisa. O discurso está tão degradado que as palavras já não têm significado. E o seu discurso é apenas mais um exemplo disso mesmo.

publicado por Pedro Sales às 20:01
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Comentários:
De Anónimo a 24 de Janeiro de 2008 às 16:43
Olá, boa tarde,

A lei do tabaco não tem nada haver com fascismo nem com comunismo, tenham juizo.

A lei do tabaco tem haver com civismo que pessoas degradadas não tem.

Tudo tem limites inclusive a liberdade. Ponham isso na cabeça

Depois os degradados querem fumar em todo o lado sem se preocuparem com os outros e com a sua saude.

Um fumador é um viciado, logo ele não é livre, é escravo do tabaco.
Por isso como querem ter liberdade se eles mesmos se privam dela ?

Foi com essa ideia em relação à liberdade que os degradados defensores do aborto aprovaram a lei do crime contra seres humanos indefesos.
Bom, mas isso é conversa para outra hora.

A lei do tabaco como está está muito bem

Deixem-se de fascismos e comunismos

Cumprimentos
César Oliveira
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De VT a 22 de Janeiro de 2008 às 19:04
Na mouche. Também considero a lei anti-tabaco exagerada e paternalista, e acho que a fúria antitabagista não é mais do que uma maneira de os governos distrairem os cidadãos relativamente aos problemas realmente importantes do planeta. Mas daí a falarmos de uma lei fascista vai um passo enorme.


De max a 17 de Janeiro de 2008 às 00:17
post certeiríssimo...


De Tiago Pregueiro a 15 de Janeiro de 2008 às 22:54
Parabéns pelo post! JPP deve ter a mania que sabe tudo sobre todas as coisas e como tal quer impor a toda a gente uma verdade que é a dele.

Depois, pensa que é o pai da internet em portugal! Aliás acha que é o pai da blogosfera mundial! O mais engraçado é que o senhor "democracia" tem um blogue que não permite comentários! Ou seja, é a lógica católica apostólica do "Eu falo e vocês ouvem o que eu tenho para dizer!".

Como pode ele falar de democracia?


De josé manuel faria a 15 de Janeiro de 2008 às 22:18
Neste caso Pacheco é tonto. Defender criminosos neonazis.


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