Terça-feira, 30 de Outubro de 2007
A distopia liberal sobre a escola pública IV
Helena Matos, João Miranda ou Filomena Mónica passam a vida a falar dos perigos de uma educação estatizada. Não há liberdade de escolha, o ensino é pior. Uma balda onde ninguém é avaliado. Os indicadores internacionais não existem apenas para dizer que estamos atrás dos países nórdicos ou do leste europeu. Também nos servem para pormos os olhos nos outros e vermos que há países onde não há rankings, não há retenção de alunos com piores resultados, só é possível abrir uma escola privada com aprovação do Conselho de Ministros (e estão proibidas de cobrar propinas, recebem o dinheiro do Estado). Países onde existem menos de 40 escolas privadas, mas que são, ao mesmo tempo, classificados pelo insuspeito Fórum Económico Mundial como tendo o melhor ensino secundário do mundo. O país é a Finlândia e, segundo o estudo internacional de referencia, o PISA, os seus alunos costumam ter os melhores resultados mundiais a quase todas as disciplinas.

A distopia liberal é isto. Ideologia e preconceito contra o sistema público, baseada no aproveitamento demagógico do senso comum. Não tem nenhuma base, nacional ou internacional, que a suporte. É o preconceito de classe travestido de preocupação social. Tudo em nome da liberdade da iniciativa privada que, veja-se, só é verdadeiramente livre se for o Estado a financiá-la. E diz-se esta gente liberal.

publicado por Pedro Sales às 11:28
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Comentários:
De maria josé vitorino a 2 de Novembro de 2007 às 01:47
A Opus, porque é uma organização... será por isso?
Pedro: grandes textos!Magníficos e oportunos.


De Anónimo a 31 de Outubro de 2007 às 11:51
Excelente série de posts. Só uma coisa, "opus" é masculino! É "o" opus dei, não "a"!
Cumprimentos
PM


De jj.amarante a 31 de Outubro de 2007 às 10:07
Muitos parabéns por estes magníficos posts sobre o ensino. Gostaria apenas de acrescentar que esta lavagem ao cérebro da propaganda liberal de que somos vítimas assume aspectos de profecia que se auto-realiza. Ao dizerem tantas vezes que o ensino privado é melhor acabam por convencer as famílias com mais recursos a não enviar os seus filhos para o ensino público, piorando a média deste.


De Paulo Mouta a 31 de Outubro de 2007 às 02:09
Tenho de felicitar o Pedro Sales pela excelente forma como retrata e argumenta uma evidência. Os defensores do Portugal, S.A. estão numa batalha desenfreada para querer fazer-nos entender as virtudes de tudo quanto é privado. No entanto, e partindo desta mesma questão do ensino, quando chegamos ao ensino superior a coisa muda de figura. Estes mesmos liberais até subornam para um lugarzinho nas faculdades públicas, as mesmas que todo o povo português paga com os seus impostos. Se fizermos um ranking dos melhores estabelecimentos de ensino superior será que teremos o mesmo resultado? E para a análise continuaremos a utilizar os mesmo critérios?


De rafael a 30 de Outubro de 2007 às 23:13
Brilhantes posts, parabéns!

Em Portugal privado privado só o café da esquina, de resto é uma competição (lamentavelmente sem ranking) a ver quem mama mais do... Estado.

Estado esse que não sabe defender os seus interesses e estruturas. Por exemplo, porque há um aluno do privado concorrer a uma universidade pública em igualdade de circunstâncias com um aluno do ensino público? Já as universidades privadas podem dar prioridade a quem entendam...


De Pedro Gomes a 30 de Outubro de 2007 às 21:39
Muito boa sequência de artigos, do melhor que eu já li até hoje sobre os resultados do ranking das escolas.

Aliás tomei a liberdade de o citar no meu blog (http://opovoesereno.blogspot.com/2007/10/escola-pblica-vs-privada.html)


De Pedro Sales a 30 de Outubro de 2007 às 20:04
Nuno V,

1. Não me esqueci nada de referir as boas notas das escolas da Opus Dei. Devem-se ao mesmo facto das do São João de Brito. Os seus alunos são recrutados na elite da elite. Dêm-lhes outros alunos, como acontece com a Companhia de Jesus, e verás como os resultados descem por aí abaixo.

2. As escolas públicas de zonas favorecidas aparecem, quase todas, nos primeiros 50 lugares. Estudei numa dessas escolas. A sua composição é sempre mais heterogénea do que nos colégios da Opus Dei. São escolas universalistas. E os seus alunos tê, em média, notas bem melhores do que as dos colégios privados (incluindo os da Companhia de Jesus) do interior. Vá-se lá saber porquê.

3. Porque é que os ricos têm que pagar duplamente a educação dos filhos? Podem, e muitos fazem-no, colocá-los em escolas públicas. Depois, sabes, acho que esse é um drama social com que o país pode perfeitamente viver.

4. Eu refiro que os nossos resultados são maus, muito maus mesmo. Não o escondo, mas também não tenho uma visão ahistórica da educação. Há 30 anos tínhamos 20% de analfabetos. São os filhos dessa pessoas que estão na escola. COmo diz hoje o Rui Tavares, a Suécia estava toda escolarizada no século XIX. Achas que um filho de um analfabeto, e um filho de um engenheiro ou advogado estão em igualdade de condições no que diz respeito a ritmos e hábitos de estudo? Quanto à liberdade, não sei onde é que ela está em causa. Quem quer pôr os filhos numa escola privada não tem nada que o impeça. Pelo contrário, 1/3 delas até são generosamente financiadas com os nossso impostos. um contrasenso, sendo iniciativa privada, não achas?

5. Viste as capas da imprensa? os leads dos noticiários televisivos. Melhor escola é o Mira Rio, melhor escola é um internato, melhor escola é da Opus Dei. Em que país vives? Não se falou, e fala, de outra coisa.

6. A referência a 1917 é engraçada. Usei, como fontes, e estão linkadas, o NY Times, o estudo internacional PISA, a OCDE e O Fórum Económico Mundial. Tudo perigosos comunistas, claro. Podemos despachar tudo o que não concordamos com argumentos do género "defende a Rússia em 1917" ou dizer que quem defende a escola privada defende "Portugal em 1973". Não me parece uma maneira muito séria de discutir, em todo o caso.


De nuno v a 30 de Outubro de 2007 às 18:52
* Esqueceste-te de dizer que dos 4 colégios orientados pelo Opus Dei, 3 ficaram nos primeiros lugares do ranking (Mira Rio, Cedros e Horizonte, sendo que o Planalto só lá não está porque, tendo o IB, não conta para o ranking).
** Esqueceste-te também de dizer porque as escolas públicas de zonas favorecidas não têm bons resultados.
*** Esqueceste-te ainda de dizer porque é que tens tanto medo de dar a possibilidade de escolha às pessoas, porque é que a liberdade de escolher está vedada aos pobre e acessível apenas aos ricos, e porque é que os ricos têm de pagar duplamente a educação dos filhos.
**** Esqueceste-te (aliás, mentiste) de dizer que países como a Holanda, a Dinamarca e a Suécia são um caso de sucesso no que diz respeito à liberdade de criar escolas e escolher escolas, e de referir que o lugar que Portugal ocupa nos rankings globais de educação é vergonhoso quando comparado com os outros países.
***** Finalmente, esqueceste-te de notar que os rankings não servem para dizer quais são as melhores escolas, mas antes para se perceber que as más escolas têm de procurar novos rumos.
Ps. 1917 acabou em 1989.


De Karl Macx a 30 de Outubro de 2007 às 17:18
Absolutamente fantástica, esta série de posts.

Tão boa que vai direitinha para uma página especial em http://vidairritante.wordpress.com (com a devida autorização, espero eu)


De lastrão a 30 de Outubro de 2007 às 15:40
Grande Salix. A culpa é do lastro cultural.


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