Sábado, 4 de Agosto de 2007
A indústria mais estúpida do mundo
Enquanto por cá, Polícia Judiciária e ASAE encerravam vários sites nacionais de partilha de ficheiros digitais, sequestrando material informático que lhes permite aceder aos dados individuais dos utilizadores desses serviços, um tribunal alemão recusou a necessária autorização judicial para que a indústria musical tivesse acesso à morada dos utilizadores do mesmo tipo de plataforma. Considerando que se trata de uma ofensa menor, a justiça alemã justificou a decisão afirmando que as editoras não conseguiram provar que a alegada troca de ficheiros lhes tenha causado danos criminais relevantes. Enquanto isso, o Tribunal Europeu está a um passo de decretar que os fornecedores de internet não são obrigados a dar os dados dos seus clientes às editoras nos processos civis que estas estão a abrir um pouco por todo o lado.

Como as novidades demoram sempre a chegar à província, as autoridades portuguesas - talvez cansadas de perseguir imigrantes ilegais a vender bolas de Berlim - parece que não encontram nada mais importante para fazer do que cumprir os desmandos lunáticos de uma industria gerida por incompetentes. Esta senha persecutória só se compreende porque, na mentalidade dominante entre a industria musical esta é a melhor maneira de proteger o “modo de vida de artistas, músicos, actores, editores”. Já conhecemos a lengalenga. A indústria musical está em crise e a culpa é da pirataria. Desculpem lá contrariar o aparente consenso, mas não é. Só há uma razão para as vendas descerem de ano para ano: a música que nos querem impingir é uma porcaria que não vale um cêntimo.

Com os lucros a pique, e as vendas a diminuírem para pouco mais de metade em poucos anos, os patrões das cinco maiores editoras mundiais deixaram, de vez, de apostar em novos formatos. Tudo começa e acaba nas enésimas repetições do gangster rap, girls ou boys bands e mais umas quantas estrelas adolescentes que toda a gente perde o rasto mal deixam de ter acne juvenil. O problema é que são poucos os que estão para aturar isso, à excepção do público alvo da Floribella. Infelizmente, esse pessoal não tem dinheiro e, o que consegue, vai para os jogos da playsation, sair à noite ou qualquer outra coisa. Não deixa de ser curioso, aliás, reparar que ao mesmo tempo que as majors definham, as editoras independentes e alternativas apresentam cada vez melhores resultados. Há outros gostos musicais, e pessoas dispostas a pagar pela música, as editoras é que já nem se preocupam com os ouvintes.

O problema começou quando, entretidos em estoirar milhares de milhões de dólares para encerrar o Napster e pôr em tribunal 200 mil pessoas nos EUA, as editoras viram a revolução digital passar à frente delas sem dar por nada. A única forma de parar a pirataria é o suporte legal oferecer uma vantagem competitiva sobre os mp3´s que demova as pessoas de acharem que a música deve ser gratuita. Mas, ao contrário da industria cinematográfica, que cedo percebeu as potencialidades oferecidas pelos formatos digitais, quem compra um “cd” compra o disco e mais nada. Salvo raras excepções, levamos o álbum, com umas fotos e as letras. Não há vídeos, entrevistas, filmagens dos bastidores, o que quiserem. Nada. É exactamente o mesmo produto que se encontra à borla em cinco minutos e, depois, admiram-se que os putos não queiram pagar 15 ou 20 euros.

Mas, só mesmo a industria mais estúpida do mundo é que sente a necessidade de vir alguém de um meio totalmente diferente explicar-lhes como é que, em vez de se lamuriarem sobre os malefícios da net, podiam ganhar uns trocos com a venda de formatos digitais. Só que, mal viram que o sucesso do iTunes não era para ganhar trocos mas milhões, do que é que se lembraram os good folks das editoras? Encetar uma guerra com a Apple para obrigá-la subir os preços. Perderam o primeiro round, mas ainda não desistiram.

Vale a pena fazer a decomposição do custo da música no iTunes para perceber a insanidade e hipocrisia desta gente. Cada música custa 1 dólar (1 euro na Europa), um álbum 10. As editoras recebem 70% do dinheiro e não têm nenhuma despesa: os potentíssimos servidores e sistemas de armazenamento, cartões de crédito e publicidade é tudo por conta da empresa da maçã. As editoras cobram 70% pela propriedade intelectual. A tal que, nas suas palavras, permite manter o estilo de vida dos autores e músicos, lembram-se? Só que eles, nem sete cêntimos desse dinheiro vêm. As editoras, que não mexeram um dedo, ficam com 90% dos lucros.

Por isso, quando oiço esses senhores falarem em defender a propriedade intelectual, fujo. Fujo eu e começam a fugir os artistas fartos de ficar com as migalhas de um negócio de milhões. Como o demonstra o Courier Internacional da semana passada, são cada vez em maior número os artistas que fogem ao controlo das majors, ora criando a sua etiqueta ora criando edições de autor apenas disponíveis na net. O nome do dossier não podia ser mais elucidativo sobre o que se está a passar: "músicos largam editoras". Ponham-se a pau. Podem encerrar os btugas ou os limewire que quiserem. Continuem nesse caminho, julgando que resolvem os vossos problemas, e, quando repararem, não têm é autores para explorar. Será um óptimo dia para a sanidade mental de quem já não consegue ouvir sempre as mesmas playlists nas rádios.

ps: sobre este mesmo assunto vale a pena ler "A Motown digital", na Estação Central. 


publicado por Pedro Sales às 16:40
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Comentários:
De JSA a 6 de Agosto de 2007 às 14:25
Caro Pedro, isso é bem verdade. Lembro-me vagamente de uma entrevista do David Fonseca, imediatamente após a saída do primeiro albúm dos Silence 4 em que comentava um amigo que lhge tinha dito que o tinha ajudado a pagar o carro novo ao comprar o albúm. Terá então DF retorquido que lhe dava os cinquenta escudos (ou quanti semelhante) que lhe devia, caso lhe fizesse diferença.

Há ainda um aspecto extra a considerar quando falamos do iTunes: o volume puro. Se imaginássemos que as vendas das músicas de um único albúm a um único utilizador (fossem uma, duas ou todas) correspondessem a um CD inteiro (muitos compradores de CD's fazem-no ou faziam-no por causa de uma ou duas músicas), teríamos provavelmente um aumento das vendas em termos de volume global. Só que esses números não são referidos.


De zero de conduta a 6 de Agosto de 2007 às 13:51
Caro anónimo,

Pois, os números que dei são os internacionais e que dizem respeito às principais vedetas das maiores editoras. Com os outros autores, como é parece ser o caso dos Xutos, é sempre a descer. E depois falam na protecção dos artistas...

Pedro Sales


De Anónimo a 6 de Agosto de 2007 às 10:09
Aquando da intervenção da ASAE, o vocalista dos Xutos e Pontapés disse numa reportagem que de cada música do grupo vendida pela internet (99 cêntimos ou um valor semelhante) apenas 2 cêntimos iam para os Xutos...


De DarkLuneAngel a 5 de Agosto de 2007 às 15:08
Não poderia estar mais de acordo!


De Paulo Mouta a 5 de Agosto de 2007 às 03:56
Alguns senhores pretendem ainda decidir o que deve ou não deve ser o gosto oficial. Decidem o que é ou não é editável. E depois não vêem que existe um mundo para além das suas próprias escolhas. As edições de autor são um excelente caminho para a asfixia dos monstros editoriais e a internet é o veículo por excelência para a divulgação da produção artistica. A edição de autor permite ao músico ter uma real mais-valia sobre o seu trabalho artistico sem passar por entidades parasitárias que apenas existem porque se estipulou que as estrelas devem nascer por este método. Estas entidades são as donas efectivas do trabalho produzido pelo artista e pior ainda são os ditadores do gosto do "consumidor" de produtos artisticos. Estas entidades são o crivo apertado por onde não passa nada que não possa ser facilmente transformado em milhões.
Ao libertar-se do parasitarismo editorial o artista pode e deve ele mesmo publicar. E deve ele mesmo decidir se faz uma distribuição gratuita da sua criação depois colhendo os frutos no contacto com um público já formado e informado dessa mesma obra, ou se faz uma distribuição paga mas onde por um valor justo acaba por satisfazer o consumidor e ganhar muito mais do que ganharia com a sua obra nas mãos das editoras do sistema. A lógica do associativismo de produção de eventos (veja-se como exemplo o caso de sucesso internacional da Portugal Progressivo - Associação Cultural na produção de eventos ligados a um estilo musical alternativo)e editorial e das editoras independentes tem-se vindo a transformar numa verdadeira alternativa ao decadente sistema actual. Mas é preocupante que, por outro lado, as autoridades pagas com dinheiro dos nossos impostos, estejam tão preocupadas com esta falsa criminalidade. Claro que condeno que copia música ou filmes para os vender nas feiras. Não posso nunca condenar quem o faz como único meio de ter acesso aos bens artisticos. Basta fazer as contas. Não é suportável para muitas famílias adquirir produtos culturais quando a realidade económica é aquela que muito bem conhecemos. Os artistas começam a ter consciência disso mesmo. A sua própria produção é mais barata, mais autêntica, mais genuína e sobretudo mais livre. E que bom seria se pudessemos voltar ao tempo das rádios piratas. As que temos só nos servem o lixo encomendado. Por mim, dispenso.


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