Sexta-feira, 2 de Novembro de 2007
A (i)responsabilidade das escolas privadas
Em resposta aos posts aqui publicados sobre os rankings, o João Miranda diz que eu respondi à sua critica da incapacidade da escola pública para “anular os efeitos do meio socioeconómico” tentando demonstrar que as escolas privadas também não o conseguem. Vamos por partes. São os defensores do cheque ensino quem, de há seis anos a esta parte, chamam a atenção para a dicotomia entre os resultados do privado e do público para dizer que primeiras são melhores e mais exigentes. Uma barulheira danada por causa de uma diferença de 0,7 valores. Uma assimetria menor do que a revelada entre as escolas do interior e litoral, ou entre escolas grandes e pequenas. E isto, num sistema que escolhe os seus alunos à partida e, desses, os que leva a exame nas suas instalações.

A partir daqui o João Miranda entra em piloto automático. “As escolas privadas não são uma questão pública. As escolas públicas é que são. As escolas públicas é que têm de ser avaliadas pela capacidade de atingirem os objectivos para os quais foram criadas. As escolas públicas é que têm que justificar o dinheiro que lhes pagamos". Desculpe lá, mas as escolas privadas também são uma questão pública, mais não seja porque os estudos de cerca de cem mil estudantes dessas escolas são pagos com dinheiros públicos. São 3343 euros por ano por cada aluno, mais de 30 milhões de euros no Orçamento de Estado. O Estado paga a essas escolas privadas, ao abrigo de contratos de associação, para prestarem um serviço público de educação. O nome é explícito. Desde quando é que o dinheiro dos nossos impostos não é uma questão pública? Desde quando é que as qualificações do país não são um questão pública?

"Uma escola privada que não vence os efeitos do meio socioeconómico é um facto da vida. Uma escola pública que não vence os efeitos do meio socioeconómico é uma prova da inutilidade da escola pública", continua o João Miranda. Aqui já entramos noutro registo. A escola privada não é melhor, como passam a vida a dizer, as suas exigências é que são exíguas. Deve ser mais “um facto da vida”. Ao chamar a atenção para o meio socioeconómico, os defensores da escola pública não estão a reconhecer que esta é um falhanço e que não cumpre a sua função, como assevera o João Miranda, mas sim a dizer que - apesar de todos os defeitos, erros e problemas criados ao longo dos últimos 30 anos - a escola pública foi, e é, o mais eficaz mecanismo de mobilidade social existente no país.

PS: Sobre este tema, ler também o artigo de Pedro Lomba, no DN, e de Vital Moreira, no Público.

publicado por Pedro Sales às 09:11
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Comentários:
De OrCa a 4 de Novembro de 2007 às 17:38
Antes de mais, um aplauso - que também faz falta - pelo desassombro das "Distopias..." lá mais para baixo e que li com atenção e interesse.

Pela parte que me toca, nem sendo sequer professor, vou-me batendo como posso, enquanto cidadão, contra a bandalheira - não me ocorre termo subtil - em que sucessivos governos mais ou menos liberalóides têm vindo a transformar o Ensino, promovendo despudoradamente o 'ensino privado' contra o interesse público, de que deveriam ser primeiros garantes.

As (muito meritórias?) análises e os (empenhados?) comentários de estudiosos da coisa, MF Mónica, VP Valente e outros, acabam entretanto por ajudar à corda desse sino, pois centram sempre a pretensa objectividade das suas apreciações no indivíduo e nunca na comunidade.

Como é possível (e serve para quê e a quem) afirmar-se que uma escola privada é melhor - em termos absolutos e relativos - para o desenvolvimento cognitivo de qualquer indivíduo, quando a multiplicidade infinita de factores envolvidos torna a afirmação irrelevante... de tão subjectiva?

E onde fica, no meio de tanto dislate e nuvem de fumo, a apreciação desassombrada da evolução ou regressão de uma sociedade, enquanto um todo mais propiciador do desenvolvimento de cada um dos seus elementos constituintes, que, essa sim, é a matéria que a todos interessa?

Não. Preferem esses 'mentores da opinião' discutir o sexo dos anjos que, no caso, para além de papudos, não têm, na verdade, nada de 'anjinhos'.

Fica-me, por vezes, a dúvida de saber se, por exemplo, VP Valente preconiza como sociedade perfeita aquela em que cada jovem infante, mal desmamado não deveria inscrever-se em Oxford... e apenas assim chegaríamos aos amanhãs que cantam.

Chego, pois - desculpando-me por este excesso opinativo - à questão central que é tão bem colocada: "Desde quando é que as qualificações do país não são um questão pública?".

José Sócrates e Maria de Lourdes Rodrigues manifestamente não sabem responder e as práticas respectivas demonstram que nem querem saber.

Aplausos, pois e outra vez, pelo desassombro das análises aqui feitas.


De baldassare a 2 de Novembro de 2007 às 16:59
Esses contratos são um espectáculo.
O estado paga por cada aluno que lá está... ou seja, é do interesse do colégio que os alunos fiquem lá por MUITO tempo.

Eu vivo em Torres Vedras, e há uma escola aqui no concelho que tem esse tipo de contrato. É só alunos a chumbar duas e três vezes... não lhes querem dar o 6ºano! Numa escola genuinamente pública, isto nunca aconteceria(na escola pública, depois de se chumbar uma vez, o encarregado de educação tem de dar autorização para o filho ser chumbado...).

Além disso, os alunos que estão fora da área de abrangência (e que, portanto, pagam o colégio) são postos em turmas especiais. A prova disto é que há famílias que estão na área de abrangência, mas preferem pagar pelo colégio. Podiam estar lá à borla, mas pagando, têm a certeza que ficam nas boas turmas. É a lei do mercado...

No fim disto tudo, a população pensa que é uma benesse haver este contracto e opõe-se à contrução de uma escola pública (já está em projecto). Porquê? Por causa dos rankings. O problema é que, dos poucos que chegam ao 9ºano, só os melhores alunos vão a exame. os outros são "aconcelhados" a não ir, se já estiverem praticamente chumbados. Isto alguma vez acontecia numa escola pública?

Não dar o 6º ano a alunos que sabem ler! Depois não se queixem que as localidades de Maceira, A-dos-Cunhados e Santa Cruz estão cheias de toxicodependência e deliquência. É ver as seringas espalhadas pelo chão...

E o que me mete mais nojo é que os sacanas dos católicos conseguem sempre dar a impressão de benevolência e solidariedade, quando estão há anos a atrasar aquela região. Isto tudo é observado com muita alegria pela Empresa das Águas do Vimeiro, que vai buscar mão-de-obra barata para as fábricas e para os hotéis.

Escola Pública? Escola Privada? Eh pá escolham, mas estas "parcerias" são caras, a nível monetário e social.


De HM a 2 de Novembro de 2007 às 13:43
acerca dos resultados do privado, neste caso do ensino superior quero só acrescentar que já privei com professores que laboravam nos dois campos e confidenciaram-me que havia pressão para subir as notas no privado. Sempre me interroguei porque é que os alunos do privado no geral tinham melhores médias finais, e a resposta foi sempre que o critério de avaliação era mais laxativo.


De Mosca a 2 de Novembro de 2007 às 13:36
Corolário:
O João Miranda escreve posts (e artigos) inúteis.


De samuel a 2 de Novembro de 2007 às 12:53
Debater com João Miranda é um exercício extraordinário! Inútil mas extraordinário (ainda estou a falar do debate).


De JSA a 2 de Novembro de 2007 às 10:17
Não vale a pena debater com o JM. Poderia haver uma disparidade de 10 valores entre os resultados das escolas públicas e das escolas privadas que ele não teria problemas em encontrar explicações e continuar a argumentar a superioridade do privado sobre o público. Quando a cegueira atinge este ponto não vale a pena.


De Shyznogud a 2 de Novembro de 2007 às 10:07
Ainda podes acrescentar os custos dos "contratos simples" (q financiam - via escola - os pais de alunos q frequentam o ensino privado), entre outros. Por acaso gostaria de encontrar dados oficiais sobre quanto gasta o estado com este tipo de contratos. Tens ideia de onde os encontrar?


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