Sábado, 18 de Agosto de 2007
A verdade da mentira
Sempre me pareceu completamente despropositado o destaque que ganhou a história da licenciatura de José Sócrates. Retrospectivamente, não há como olhar para o que aconteceu na primeira quinzena de Abril como não sendo o resultado da má gestão que o Governo fez do caso. Nunca liguei muito ao assunto, razão pela qual não deixa de ser totalmente irónico que, quatro meses passados, aqui esteja a escrever sobre um episódio absolutamente lateral sobre o que se passou nesses dias. Mas, depois de ver a lamentável reportagem de ontem da SIC - em tudo distinta da que passou à hora do almoço -, e onde só é dada voz ao gabinete do primeiro-ministro, dizendo que tudo o que o governo fez foi “repor a verdade, apagando um conjunto de calúnias”, vale a pena lembrar algumas coisas. Até porque, reparo agora, a tese é repetida hoje pelo JN, que titula que o ”Perfil de Sócrates na Wikipedia foi pirateado”, e onde o seu assessor de imprensa aparece a dizer que foram introduzidas "falsidades, mentiras e calúnias", que já foram retiradas. A "reposição da verdade" foi feita a partir do Governo.

Vale a pena, então, ver algumas das calúnias e falsidades que o governo apagou:

As médias de curso de José Sócrates. Ambas as notas estavam certas. É verdade que 12, que foi a média do curso no Instituto Superior de Engenharia de Coimbra, não é uma nota famosa, mas considerá-la uma calúnia demonstra pouco respeito dos assessores pelo passado académico do primeiro-ministro. Também não me parece muito cordial considerar os 14 valores na Independente uma falsidade. A Universidade Independente tem o valor que tem, mas daí até às suas notas serem uma falsidade...

Foi apagada a referência à Independente ser uma universidade privada. Esta aqui é mesmo estranha, até porque não há registos que o Governo alguma vez tenha pensado em nacionalizar a Universidade Independente. Era, e sempre foi uma instituição privada. Tudo bem, não tem propriamente o prestígio de Oxford, mas não fica nada bem aos funcionários do Governo terem vergonha da faculdade onde andou o PM, ao ponto de considerarem caluniosa a alusão ao seu estatuto jurídico. Preconceito social?

Foi apagada a alusão à “breve” passagem pelo ISEL. Todos temos que convir que não é muito comum um aluno concluir uma licenciatura passando por três instituições diferentes, concluindo, até, os dois últimos anos em estabelecimentos distintos. Mas, parece-me estranho, como o fizeram as fontes do governo à SIC e JN, considerar que é uma calúnia e falsidade lembrar a “briefly” passagem de um ano pelo ISEL. Não fica bem a um funcionário governamental fazer criticas veladas ao percurso académico do primeiro-ministro, mas compreende-se o excesso de zelo. Apesar do percurso ser totalmente legítimo, é capaz de não ser muito do agrado de grande parte dos pais que se têm que esforçar financeiramente para que os seus filhos acabem o curso sem poderem saltitar de instituição em instituição.

A dimensão que isto ganhou só prova que estamos mesmo na silly season, mas, mesmo assim, convém chamar as coisas pelos nomes. Pode haver referências caluniosas que tenham sido apagadas, mas não foram estas que o Vasco referiu. Compreende-se que tenham sido retiradas as alusões à vida privada. Apesar da maioria dos líderes políticos terem, na sua página da wikipedia, essas referências, a esfera privada diz respeito apenas ao próprio e aos que lhe são próximos. Nada a objectar a este respeito e, como o próprio Vasco reconhece, o exemplo de Luís Amado era dispensável e sem assunto.

Mas, curiosamente, as verdadeiras calúnias e falsidades, que o DN dá conta e que estavam na versão portuguesa da wikipedia que nunca para aqui foi chamada (como a data da morte do PM ou a alusão a ser construtor civil), não foram apagadas por alguém a partir de um computador do governo. Não, a preocupação governamental em “repor a verdade” foi cirúrgica e limitou-se a tudo o que tivesse a ver com a Universidade Independente, precisamente nos dias em que o currículo de José Sócrates sofria grande escrutínio mediático. Mas, o que se percebe deste caso, que não é um caso de censura mas de propaganda e contra-informação, é que houve um cuidado desmedido do Governo em apagar todas as referências ao caso Universidade Independente, para que a versão da Wikipedia batesse certo com o discurso oficial do gabinete do Primeiro-ministro, nesses conturbados primeiros dias de Abril.

Mas não pode o próprio alterar o seu perfil na wikipedia, leio em vários sítios? Claro que pode. Por mim até pode dizer que a Independente é a universidade mais prestigiada do país. Mas convinha que o gabinete do PM não reescrevesse o seu passado académico, fazendo-nos passar por tontos dizendo que está apagar falsidades. Começa-se na wikipedia, mas nunca se sabe onde é que esta constante obsessão em retocar o passado do primeiro-ministro nos leva.

ps 1: Compare-se o trabalho do SOL, onde são listadas as alterações e é dada a palavra ao assessor de José Sócrates, com o trabalho jornalístico da SIC onde só aparece a versão do último e nunca se referem as alterações. Sobre isto, não tenho mais nada a dizer e limito-me a recomendar esta excelente resposta, do vocalista dos Los Hermanos, sobre algum jornalismo que se lê e vê todos os dias. (Via Kontratempos)

ps 2: sobre o péssimo hábito da imprensa publicar notícias, que têm por base a blogosfera, sem citar a fonte (TSF) ou fazer um link (mesmo nas versões digitais) para permitir aos leitores lerem por si, sem a mediação jornalística, vale a pena ler este post no Marketing de Busca. Mas, como o demonstra o inacreditável anúncio de um dos maiores jornais brasileiros, o Estadão, alguma imprensa ainda parece ver a blogosfera como uns macaquinhos mentirosos e caluniadores.


publicado por Pedro Sales às 10:02
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Comentários:
De josé a 18 de Agosto de 2007 às 18:09
Com a agravante que o GW não mandou calar ninguém do modo como este o faz e não instaurou processos crime contra ninguém ( nem sequer ao "paranóico" Michael Moore).


De josé a 18 de Agosto de 2007 às 18:08
Escolha-se o nome GWBush em vez daquele em que estavam a pensar, e verão perfeitamente o que quero dizer.


De josé a 18 de Agosto de 2007 às 18:06
Entre um suposto paranóico, sem poder algum, a não ser o de emitir a sua opinião e um mentiroso compulsivo, com o poder executivo de mandar calar, ameaçar ou amedrontar, quem será pior?
E se este mentiroso compulsivo ( porque mente muitas vezes em coisas mínimas que para ele são máximas e em coisas máximas que lhe parecem mínimas)estiver no poder, legitimado por votos?

E se ainda por cima, houver um partido minoritaríssimo que precisa de apoio do mentiroso?


De António a 18 de Agosto de 2007 às 16:12
Repor a verdade...:-)

De vez em quando olho para os jornais e até acredito que eles possam engolir piedosamente este spin que lhes é servido.

Obrigado pela referência.


De Anónimo a 18 de Agosto de 2007 às 13:46
Vejam a pa´gina de discussao da enciclopédia e a quantidade de paranoicos que por lá andam , inclusive um tal "arrebenta".

É uma tristeza. Que pessoas baixinhas e pequeninas. Querem mesmo é dizer mal. Parecem criancinhas do infantário

http://pt.wikipedia.org/wiki/Discuss%C3%A3o:Jos%C3%A9_S%C3%B3crates


De Anónimo a 18 de Agosto de 2007 às 13:45
A atracção pelo abismo da irrelevância continua a atacar o BE. Continuem com as futilidades e tontices, façam-nos esse favor.


De Arrebenta a 18 de Agosto de 2007 às 13:42
Será que Sócrates também irá processar a "Wikipédia"?...

Leiam

http://asvicentinasdebraganza.blogspot.com/2007/08/nova-pgina-de-scrates-na-wikipdia.html#links


De Anónimo a 18 de Agosto de 2007 às 13:36
E o que é que isso tem de interesse na biografia de uma pessoa? Qual é na verdade o mal de editar essas coisas que nem sequer importam?!

Ou se calhar importam. Estavam lá escritas com a intençao de desvalorizar a pessoa biografada, ou nao? Quem foi que teve esse interesse?


De Pedro Sales a 18 de Agosto de 2007 às 12:41
Caro anónimo,

Tive o cuidado de listar 3 entradas que foram apagadas pelo governo: a Independente ser privada, a média do curso e a breve passagem pelo ISEL. Todas elas são absolutamente factuais. Diga-me lá que calúnias e falsidades é que o governo apagou ali.

Quanto às calúnias que inundaram a entrada do PM na wikipedia convém dizer que nenhuma dela foi apagada a partir de um computador do governo. O gabinete do PM não estava preocupado com as calúnias, mas sim com o passado académico do PM.

O assunto não merece o destaque que lhe está a ser dado? de acordo, mas não vale a pena misturar o que não é para ser misturado e nunca foi citado pelo Vasco no post que escreveu sobre o assunto.


De Anónimo a 18 de Agosto de 2007 às 12:19
E também,já agora

Podiam pesquisar os ip's de quem faz as entradas maldosas na biografia e de quem teve tanto interesse em colocar o assunto licenciatura online na enciclopédia
e denunciar.

Nunca se sabe podia aparecer coisas com piada se os ip's fossem de entidades conhecidas ou empresas.

Já agora. A "pide" ou "kgb" podia continuar o se afazer

Ainda bem que nunca me lembrei de editar biografias ou ainda me pesquisavam o ip e me perseguiam. E já nem sei se será seguro escrever coisas a favor do governo ou o que seja. Estas pessoas parecem perigosas.


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