Domingo, 24 de Junho de 2007
Droga, loucura, morte?

O Courrier Internacional desta semana apanhou o comboio em andamento e juntou-se ao “Independent” na proclamação de que a cannabis já não é a mesma dos bons velhos tempos. Agora faz mal, descobriram. Segundo o matutino inglês, a cannabis que hoje circula nas ruas é mais potente do que a que era consumida nos anos 70 ou 90 e, por isso, o seu consumo tem mais consequências no comportamento psíquico dos consumidores do que a comunidade científica vinha dando como certo.

Em nenhum caso o jornal apresenta números ou estudos credíveis para sustentar a sua mudança de opinião. E não apresenta nenhuma novidade porque há quase 100 anos que a comunidade científica reconhece a perigosidade da cannabis. Se os riscos do consumo recreativo ocasional são bastante reduzidos, já o seu consumo intensivo, em especial no caso restrito dos consumidores que já têm um passado de patologias psíquicas, coloca o risco de exacerbar esses problemas ou, potencialmente, criar novas patologias. As drogas, principalmente o seu consumo pesado, podem prejudicar a saúde. Se só agora é que o "Independent" descobriu isso, então têm mesmo boas razões para pedir desculpa aos leitores. Não pela cannabis, mas pela azelhice.

Não por acaso, o único cientista ouvido pelo “Independent” discorda do jornal, lembrando que o estudo da “Lancet” sobre a perigosidade de diversas substâncias colocou a cannabis em 11.º lugar - atrás do álcool (5.º) ou do tabaco (9.º), duas substâncias legais. Também a comissão do governo inglês para o consumo da droga, alterou recentemente a sua classificação, colocando-a na tabela dos estupefacientes com menor perigosidade.

Nestas condições, dizer, como o faz Fernando Madrinha no editorial da versão portuguesa do Courrier Internacional, que “o mito da cannabis inofensiva acabou” e que essa é a base das “politicas de rendição” que conduziram à despenalização é partir do pressuposto, errado, que os países que avançaram com políticas de despenalização ou descriminalização o fizeram por causa do carácter inofensivo deste estupefaciente - até porque esta política não é circunscrita à cannabis.

Pelo contrário, a despenalização parte do pressuposto de que existe um problema de saúde pública. Reconhece que os consumidores de estupefacientes são doentes e que, perante isso, a solução não é a repressão ou a guetização, mas o tratamento cujo aumento exponencial causa tanta impressão ao “Independent” e a Fernando Madrinha.

O aumento do recurso ao tratamento não nos indica que se tenha andado no caminho errado, como defendem, diz-nos é que as redes de acompanhamento clínico são hoje muito mais eficazes do que eram há 10 anos. Em vez de serem perseguidos pela policia, os consumidores passaram a ter direito a um médico e as clínicas passaram a estar cheias. Uma maior atenção ao fenómeno tem permitido estudos e estatísticas mais fidedignas, daí também o aumento nos números.

Resta uma questão, o aumento da potência e dos níveis de THC hoje encontrados no material que é vendido nas ruas. Com efeito, e mesmo descontando a confusão de números apresentados pelo "Independent", é verdade que hoje não é muito difícil encontrar variedades com elevados níveis de THC. Este alarme é cíclico e recorrente, mas parece ignorar que as pessoas ajustam o seu consumo à potência daquilo que estão a fumar. Fenómeno semelhante acontece com o tabaco light, cujos fumadores, ao fim do dia, acabam quase sempre por fumar mais cigarros do que faziam antes de aderirem à versão light. Um teor de THC 3 vezes superior não quer dizer que se fica 3 vezes mais pedrado, quer dizer que se pára de fumar mais cedo.

Contrariamente ao que se pretende fazer crer, nunca ninguém falou em drogas inócuas. Argumentar nesse sentido, não hesitando em criar falsos alarmes, é que um péssimo sinal de uma “política de rendição” ao sensacionalismo mais fácil. Que o façam em nome de uma politica proibicionista que há muito provou a sua ineficácia é mesmo o pior de tudo isto.

publicado por Pedro Sales às 06:45
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Comentários:
De San a 24 de Junho de 2007 às 14:56
Deve mais reconfortante para estes fazedores de opinião, (partindo da sua boa-fé, naturalmente) arengarem às massas sobre os malefícios da cannabis em tom de virtuosa verdade científica, do que enfrentarem o clima de restrição de liberdades que ajudam a consolidar, por omissão e comodismo.


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