Terça-feira, 29 de Janeiro de 2008
Com a saúde não se brinca
Depois de semanas a garantir que o problema não era a política da saúde, mas a má comunicação da mesma, Sócrates cedeu à oposição e mudou de responsável pela pasta. E logo na semana em que Correia de Campos esteve por três vezes na SIC, e deu uma entrevista ao Expresso, a garantir que continuaria no seu lugar até ao fim da legislatura. Ironicamente, foi remodelado na véspera de se deslocar ao Parlamento para apresentar já famoso plano de requalificação das urgências.

Dificilmente o timing podia ser pior para o Governo. Mudar de ministro no meio de uma barragem da oposição, do próprio partido e de uma contestação popular sem precedentes é coisa para tirar o sono a qualquer governante. Mas não havia outra solução. Há muito que o Governo tinha perdido o controlo político e já não havia política de redução de danos que valesse a Correia de Campos. O ministro da Saúde, num certo sentido, teve azar. Porque o problema das populações não foi (só) levarem-lhe o centro de saúde. É que antes já lhe tinham tirado a escola, a GNR, os CTT e o tribunal. Correia de Campos chegou tarde à centralização dos serviços do Estado nos centros urbanos do litoral. Chegou tarde e pagou caro, talvez porque, como diz a Teresa Ribeiro, "com a saúde não se brinca".

Culpa do ministro ou não, há muito que os dados estavam lançados e os recentes casos - como o do telefonema da operadora do INEM para os bombeiros de Alijó - apenas aceleraram o passo. Sócrates pode dizer o que quiser amanhã na sua deslocação ao Parlamento. Hoje teve uma das suas maiores derrotas. Cedeu, em toda a linha, à oposição parlamentar e à ala esquerda do PS, personificada em Manuel Alegre. Que o tenha feito a pouco mais de um ano para as eleições não é um pormenor.

publicado por Pedro Sales às 23:26
link do post | comentar |

Comentários:
De Anónimo a 31 de Janeiro de 2008 às 20:23
ha coisas que nao entendo, uma delas é a fé inabalavel que algumas pessoas de lisboa tem nos "peritos" e nos "estudos conclusivos" e "cientificamente provados", se andassem mais no interior do que apenas nas ferias de verao para ver os rusticos portugueses compreendiam que quem tem de ter voz primordial nesta questao sao as pessoas que vivem nas proprias terras. Depois queixam-se de "incompreensão", como se a benevolencia das reformas de estado nao fosse compreendida pelos indigenas, que visao tao arrogante e centralizadora dá asco.
A segunda questao é a da incomportabilidade financeira. Desculpem-se se estou errado mas nao é a saúde um pilar essencial do serviço que o estado deve prestar as populaçoes? Maior do que rotundas, chafarizes, estadios de futebol, autoestradas, tgvs, aeroportos de raiz, cimeiras africanas, computadores para toda a gente, novas oportunidades, bolas de berlinde na praia... afinal trata-se de dinheiro ou de prioridades?. quantas urgencias a funcionar e por quantos anos equivalem um estadio de futebol novinho em folha?


De A. Castanho a 31 de Janeiro de 2008 às 17:05
Concordo, friamente, com este Nuno e, por acréscimo, com Lino José (que igualmente desconheço e com quem, aliás, até costumo estar em desacordo).


Acho mesmo que nada mais tenho a acrescentar. A não ser que partilho da tristeza do Pedro Sales pelas consequências objectivamente negativas, para as pessoas afectadas, desta inevitável reforma.


Mas eu, que sou funcionário público, há nove anos que vejo o meu poder de compra a decrescer. E não me queixo disso, compreedo que o momento é de apertar o cinto.


E também estou muito mal servido de cuidados de saúde, mesmo morando em Lisboa: se tiver um acidente na Segunda Circular em hora de ponta, dificilmente serei atendido mais prontamente do que um habitante da Anadia que vá de urgência para Coimbra, ou um de Alijó que tenha de ir de ambulância para Vila Real...


De JD a 31 de Janeiro de 2008 às 16:52
Quanto a Sócrates ter cedido "à oposição parlamentar e à ala esquerda do PS, personificada em Manuel Alegre" talvez seja uma leitura precipitada. afinal a senhora já veio desdizer o que afirmou há semanas e passou a apoiante da política de Sócrates para a saúde. Significa isto que o "engenheiro" mais uma vez demonstrou ser um animal feroz e encostou Alegre às cordas convertendo uma distinta apoiante do poeta numa neo-socrática.


De Nuno a 31 de Janeiro de 2008 às 15:23
Gostava de chamar a atenção para o facto de estarem aqui 2 Nunos e com posições opostas face a esta questão!

Eu estou praticamente em total acordo com os comentários do Lino José! Apenas acho que os demagogos tb se situam à direita do PS (chamam-se por ex Menezes, Portas, Feyo, Mendes Bota) não só à esquerda! Faz parte do género humano!

É falso q os critérios das reformas sejam puramente ecomomicistas. Quem o afirma ou é ignorante ou está de má fé! É óbvio que esses critérios TAMBÉM estão presentes pois há muito desperdício, há serviços desadequados face às populações q devem servir, há médicos e funcionários q não cumprem horários, etc. Os critérios economicistas estão presentes em todas as decisões das nossas vidas, esta situação não é excepção.
Não, estes critérios não perigam a existência do SNS, antes pelo contrário, permite q preste um melhor serviço aos utentes.

O outro Nuno está a entrar pela demagogia que eu vi nos media e achei vergonhosa! Só desinformam! Usam parte da informação e esquecem o que não lhes interessa! Esquece-se que as urgências q fecharam não eram verdadeiras urgências. Eram SAP q tinham como recursos, salvo erro, 1 médico e 2 enfermeiros q muitas vezes atendiam uma pessoa com dor de cabeça, pq se fosse algo sério tinham de os encaminhar para uma urgência a sério!
Estes recursos q passavam as noites a dormir nos SAPs e a ganhar do belo, fazem falta noutros lados, durante o dia a dar consultas como médicos de família por ex (claro q irão ganhar menos e muitos não querem!). Utilizam-se recursos excessivos nas urgências qd esses recursos têm maior utilidade noutros sítios! Além do mais as pessoas usam abusivamente das urgências, prejudicando quem delas efectivamente precisa!

Esquecem-se tb que há 2 anos não havia CODU, as pessoas iam de táxi ou nos seus carros particulares! Na Anadia esquecem-se q a ambulância estava mais bem preparada q o hospital e q a urgência a sério não é naquele hospital!

Qto às maternidades idem aspas! Não tinham condições! Só atingimos os níveis de mortalidade infantil dos melhores do mundo (Obrigado Leonor Beleza) pq se concentraram os serviços e lembrem-se dos coros de protestos! Querem o quê? Uma maternidade em cada vila?
E por incrível q pareça em 2007 nasceram menos crianças em ambulâncias q nos anos anteriores! Quem ouve os media acha q em 2007 foi um recorde de nascimentos em ambulâncias!

Qto às sugestões do Pedro Sales parecem-me boas (e não serão tb economicistas?).
Pq é q a OM e outras corporações esfregaram as mãos com a saída de CC? Ele estava a mexer nos proveitos dos médicos, das farmácias, da indústria de medicamentos, em resumo no status quo!
O interior está desertificado e as políticas de saúde não são a sua causa antes o efeito dessa desertificação. Não é por se construir um hospital no local A que as pessoas vão para lá! Primeiro têm de ir as pessoas e dps é que, se houver necessidade, se constrói um hospital.
É uma opinião!


De Pedro Sales a 31 de Janeiro de 2008 às 13:00
Lino José,

Quem é que disse que o SNS não deve ser pago através dos impostos? é isso mesmo que quer dizer o "gratuito". Diz que isso atiraria a carga fiscal para os 70 ou 80%. Vamos lá a ver se nos entendemos. As propinas e as taxas moderadoras, embora representem um encargo significativa na bolsa de muitas famílias, não chegam a representar 100 milhões de euros no OE. Se reparar que, só em despesas de consultoria, o Governo vai gastar este ano 380 milhões de euros, na sua maioria uma duplicação de gastos, atendendo às centenas de assessores em ministérios, institutos públicos, secretarias de Estado e direcções gerais e regionais, estamos falados.

Fala-se muito sobre os custos dos serviços sociais, mistificando os seus números e apresentando-o sempre à beira da falência, mas convém chamar a atenção para que as nossas despesas de saúde estão a par com a dos outros países da OCDE em termos percentuais no PIB.

É certo que as despesas de saúde têm a tendência para subir, mas há várias formas de a racionalizar. Uma delas (a principal?) começa pela política do medicamento. A generalização dos genéricos é um primeiro passo, a unidose seria outro. Já aqui se falou no controlo de assiduidade dos médicos, que é importante, mas tem que se avançar é com modelos de contratação que tormem a exclusividade a norma e não a excepção. Há formas de racionalização financeira bem mais eficazes do que desertificar o interior do país.


De Anónimo a 31 de Janeiro de 2008 às 12:37
O comentador anterior (Lino José,que não conheço) aplica a este problema racionalidade e bom senso, que parecem valores cada vez mais afastados das discussões politicas. A influência perniciosa dos tabloides televisivos e jornalisticos,assinalada noutros posts,tambem é outro elemento a ponderar. Não se pode coarctar a liberdade da imprensa, mas poder-se-ia investigar como e porquê decorrem certas campanhas aparentemente estruturadas visando manipular (e quase sempre com sucesso) a chamada "opinião pública". O caso Correia de Campos não é o primeiro, e não será o último. Talvez a corrupção mediática seja tão corrosiva para a democracia como a corrupção politico-económica, única a suscitar as indignações dos bastonários,editorialistas,procuradores,e outras vestais do regime.


De Lino José a 31 de Janeiro de 2008 às 10:33
Deixemo-nos de demagogias baratas !

Não existe tal coisa como um "Serviço Nacional de Saúde Universal e Gratuito", pelo simples motivo que tudo tem de ser pago.

Um Serviço Nacional de Saúde é um sistema organizado para prestar cuidados de saúde à população de um país.

Para isso, precisa de técnicos altamente qualificados. Precisa de equipamentos, de preferência tecnológicamente actualizados; precisa de medicamentos, de preferência os de ultima geração.

A maioria desses items correspondem a bens importados, que têm de ser pagos, e cujos custos tendem tendencialmente a subir, uma vez que largos montantes são aplicados no seu desenvolvimento.

É o país que tem de pagar um sistema desse tipo, ou seja a população.

Se o faz através do pagamento por acto médico, do tipo utilizador-pagador, ou se o faz por via dos impostos, um sistema desses tem de ser pago, porque senão, os fornecedores cortam o fornecimentos e o sistema colapsa e deixa de existir "Sistema Nacional de Saúde" !

Colocar na Constituição um artigo em que se diz que tem de haver um "Sistema Nacional de Saúde Universal e Gratuito" , ou um "Sistema Educativo Universal e Gratuito", ou "Seja o que fôr Universal e Gratuito", é Demagogia ! A Constituição fica muito bonita, aquilo a que os demagogos profissionais intitulam de "Constituição de Abril", mas que não tem aplicabilidade prática.

Só existem duas maneiras de pagar o Sistema Nacional de Saúde : ou por via de taxas de cada vez que um cidadão vai ao médico, ao hospital ou ao centro de saúde, e/ou por via dos impostos !

O que é inadmissível é que hajam Louçãs e Jerónimos, demagogos, a mentirem às pessoas, a fazerem crer que as coisas não se pagam, e que podem ter acesso a serviços de saúde do 1º mundo sem pagar um chavo. E que usam a sua verborreia demagógica para impedir que haja toda e qualquer tipo de reforma que torne o sistema sustentável e racional.


De Zé Miguel a 30 de Janeiro de 2008 às 20:01
Bom, a mim parece-me que um Serviço Nacional de Saúde Universal e Gratuito é um bem essencial para qualquer sociedade! Vejam ao ponto a que chegou os Estados Unidos nesse aspecto, total liberalização dos cuidados de saúde para completo prejuizo dos mais necessitados (milhões de americanos não têm seguros de saúde). Qualquer governo tem de tomar decisões, e no campo da saúde, a reforma das urgências parece-me muito interessante e necessária! No entanto, a reforma não se limitava a encerramentos, mas também a requalificação de alguns serviços e em certas zonas do país ao incremento dos existente, e não foi isso que o Correia de Campos fez! Limitou-se a fechar serviços com uma visão puramente de contenção de custos. Por outro lado, via-se que a reforma não estava a ser levada a cabo de forma organizada e sustentável, muito pelo contrário todos os dias surgiam notícias nada abonatórias para o senhor ministro!!

Para mim o Sócrates não tinha outra opção senão demitir o ministro, mas tb n tenho ilusões de que a política não é do Correia de Campos mas sim do governo....

Por fim, quero reforçar um aspecto: uma coisa é a reforma (necessária, importante, urgente) outra era a forma como estava a ser implementada e como estava a ser manipulada somente para a redução de custos do ministério da saúde.


De cadeiradopoder a 30 de Janeiro de 2008 às 19:48
Correia de Campos é apenas a cara à frente da política idealizada por José Sócrates. Remodelar o Ministro é apenas uma diversão, dando a entender que ele foi o culpado de medidas impopulares, quando sabemos que apenas foi um mero núncio. O responsável ainda está lá.


De Lino José a 30 de Janeiro de 2008 às 14:59
Nuno, o que eu ouvi a alguns peritos que elaboraram o estudo que está por detrás desta reforma foi que nenhum português estaria a mais de "X" tempo (que eu agora não sei quantificar porque não me lembro) de uma urgência.

Afirmaram também que seria criada uma rede de unidades de cuidados básicos que cobriria o país, e em que todos os portugueses teriam um médico de familia que os acompanhasse.

Afirmaram também que seria criada uma rede de cuidados continuados, para os doentes crónicos e para os mais idosos.

O estudo foi feito com base em parâmetros técnicos, objectivos, com vista a melhor cobrir o país em termos de necessidades de saúde e de forma racional, em termos de custos.

Quere-me parecer que é totalmente impossível ter uma verdadeira urgência em cada terra, ao pé de cada cidadão porque, mesmo que houvesse dinheiro para isso, não existiram os meios humanos e tecnicos suficientes. Claro está que os custos seriam astronómicos e a sua eficácia nula.

Ter simulacros de urgências que só servem para atender os casos corriqueiros, que nem sequer urgências são, mas que são totalmente incapazes de atender as verdadeiras urgências, aquelas em que existe real perigo para a vida do doente, reeencaminhando-o para as urgências centrais, é um absurdo.

Esta reforma faz todo o sentido.


Comentar post

Zero TV
ZERO DE CONDUTA
Filipe Calvão

José Neves

Pedro Sales

Vasco Carvalho


zeroconduta [a] gmail.com
Indecisão 2008
Subscreva
Zero links
arquivos

Setembro 2008

Agosto 2008

Julho 2008

Junho 2008

Maio 2008

Abril 2008

Março 2008

Fevereiro 2008

Janeiro 2008

Dezembro 2007

Novembro 2007

Outubro 2007

Setembro 2007

Agosto 2007

Julho 2007

Junho 2007

Feeds