Terça-feira, 30 de Outubro de 2007
A distopia liberal sobre a escola pública I
Quando acabei o 12.º ano, estive um ano sem estudar antes de me candidatar à faculdade. Durante 3 meses trabalhei para o Circulo de Leitores. Em pouco tempo, entrei na casa de centenas de pessoas do Entroncamento e Torres Novas. Quase todas tinham a História de Portugal, de José Mattoso, nas estantes ou prateleiras. Havia outra constante. Os dois primeiros volumes estavam abertos, os restante seis repousavam dentro do saco de plástico em que vinham embalados. Um sem número de pessoas chamava enciclopédia às obras completas de Júlio Diniz, Camilo ou Eça.

São famílias inteiras que nunca tiveram hábitos de estudo, de leitura, de trabalho intelectual individual. Os seus filhos irromperam pela escola pública há pouco mais de 30 anos. Para milhares de famílias, esta é a primeira geração que tem alguma escolarização. O facilitismo do sistema público de ensino, de que fala Helena Matos, fez com que, desde cedo, tivessem mais conhecimentos a matemática ou português do que os seus pais. Em casa não há ninguém para os ajudar nos trabalhos de casa. A escola secundária do Entroncamento, onde colocavam os filhos, ficou este ano em 138.º lugar no ranking dos exames nacionais do 12.º ano. É má? Pior do que o colégio São João de Brito ou do que um selecto internato de raparigas que fez 32 exames?

A massificação do ensino teve que lidar com um país que já existia antes da democracia. Nem tudo correu bem, é certo. Partindo do mesmo atraso que também tínhamos na Saúde – sector, onde hoje temos dos melhores indicadores mundiais - ainda continuamos atrás das médias de conhecimento europeias. Mas, simplificando um pouco, a educação não é só construir hospitais e formar profissionais competentes. Tem o lastro cultural que a suporta. E que os detractores da escola pública omitem totalmente, como se o sistema educativo, a iliteracia, o analfabetismo e as dificuldades económicas tivessem aparecido há seis anos com a publicação do primeiro ranking de exames do 12.º ano. É simplista e pouco sério extrapolar uma leitura depreciativa sobre a qualidade do ensino público a partir da leitura do “top ten” dos rankings. Como veremos, nas próximos entradas sobre o assunto.
Etiquetas:

publicado por Pedro Sales às 11:37
link do post | comentar |

Comentários:
De paulo g. a 31 de Outubro de 2007 às 23:10
Amanhã espero ligar estes textos no Umbigo pois, embora não concorde com tudo, foram do melhor que se escreveu sobre o tema.


De Moriae a 31 de Outubro de 2007 às 19:17
Alexandre, tb tive desses professores fantásticos! Mestres para a vida. Amigos, lições, evocações. Pessoas que recordo com frequência e gosto.
Concordo consigo, estes professores têm muita culpa. Por outro lado, não têm toda a culpa. Quanto aos sucessivos governos, já não digo o mesmo ... a nenhum deles tem interessado formar um cidadão pensante, autónomo e com vontade própria. Aliás, são eles os responsáveis até pela má habilitação de alguns docentes e pelo fomento da ideia, na modda há cerca de 20 anos: "se não tens emprego, porque não vais dar aulas?" (ou algo do género). curiosamente, tenho habilitação suficiente, ou tinha, desde os 12 anos e própria desde os 13. Tem piada não tem? E demorei tantos anos até achar que poderia efectivamente ensinar e/ou ajudar a aprender (etc porque educar e ensinar é muito mais do que isso). E agora, desisto ... estou farta e não colaboro neste trucidar de gente, ideias e civilização.

Assim, hoje, há um 'corpo' de gente robotizada que dá (ou paga para dar) aulas. Vão doentes dar aulas, vão "ocos" tanta vez. Não têm filhos ou acompanham-nos mal etc etc etc ... Isso é deplorável ...
Peço desculpa por ter sido extensa e pessoal. Não reli porque tb não quero apagar. Pode ser que sirva para alguma coisa ...
Abraço ao Alexandre e aos 'donos' e comentadores do blogue.


De S.V. a 31 de Outubro de 2007 às 12:45
No ano em que entrei para a Universidade a minha escola secundária (algures em Coimbra) foi a primeira escola pública do ranking. Magnifico... não fosse a maioria dos estudantes (, famílias dos) ter recursos económicos para pagar a explicadores e afins e tinham-nos.

Ensinar matemática assim como outras disciplinas numa turma de 25 alunos não é fácil nem se tem o tempo para explicar como se tem em sessões de explicadores .

Se há professores que "não fazem nada" pelos seus alunos, também há os que tentam de tudo e vivem os sucessos e fracassos de todos os seus alunos mas são traídos pelo tempo, ou falta deste, face a turmas enormes que dificultam ensino personalizado e essencial em muitos casos, onde os défices já vêm de trás, também fruto de turmas sobrelotadas entre outros.

Por outro lado temos as suspeitas que em ALGUMAS instituições privadas haja comportamentos menos justos nos próprios exames nacionais... os rumores vão-se avolumando neste campo e a partir do momento em que eu no meu 12º ano me mostram um teste sumativo de matemática também 12º ano de uma escola privada de Coimbra e que eu e os que comigo estavam (e não éramos/somos nenhuns génios) o conseguíamos resolver em menos de metade do tempo para o qual ele tinha sido feito tal era a facilidade das perguntas, passei a compreender que se calhar as boas notas desse colégio durante o ano não eram fruto de melhores professores/menos alunos por turma.


Resumindo: há que melhorar o ensino em Portugal, não andar sempre a trocar de livros (vi uma reportagem excelente sobre o ensino na Finlândia na SIC Notícias que aconselho a todos), turmas mais reduzidas, horários de aulas de apoio semanais das diversas disciplinas, etc... Deixem os governantes de ter mil e um motoristas e andar de topos de gama e há logo dinheiro para isto tudo.


De Alexandre Lagoa a 31 de Outubro de 2007 às 12:21
Moriae: os professores não estão isentos de culpa, não. Não serão porventura os principais culpados; têm culpa na exacta proporção em que obedecem cegamente, sem pensar, aos programas estipulados pelo Governo - ou são tanto inocentes quando decidem, para além do programa estupulado pelo governo, fazer um pouco "trabalho por conta própria", de carácter semelhante a uma desobediência civil, em nome da Educação, com E grande, daquela que serve seres humanos e não pautas, e têm a capacidade de estimular os alunos de uma forma que o programa, por si só, não consegue. Nessa pequena diferença, que nem todos são capazes de estabelecer, é que está a diferença entre os bons e maus professores. Lembra-se do mito do "Clube dos Poetas Mortos"? Graças a deus, tive professores assim. E nos anos em que tinha professores assim, tirava notas como nunca antes tinha tirado. E agora?

Pôr as culpas todas no ministério é uma solução viável; antes deste, estavam outros, e antes desses outros, mais outros. Os professores de hoje são os alunos de ontem - não se lhes pode pedir muito mais. Mas não tenha dúvidas que também fazem parte do problema.

Ainda assim, descanse: não estou mesmo perto de chegar a Ministro da Educação.


De P Amorim a 31 de Outubro de 2007 às 09:40
Acabei de pôr um link no meu blog
(www.croquete-matinal.blogspot.com) para este artigo. A discussão lúcida que faz sobre este assunto, de primordial importância para o nosso País, levou-me a abrir uma excepção e em vez de escrever, li e concordei.
Bem haja


De cmonteiro a 31 de Outubro de 2007 às 00:28
Caro Pedro Sales,

O seu discurso é vago, como vagas são as suas referências às criticas que os detractores fazem. Este post poderia ser perfeitamente a defesa do sistema de ensino dos tempos de Cavaco Silva, mas já passaram quase vinte anos e a evolução entre o ensino público e o privado está à vista. O que o meu caro se deve perguntar é porquê, assim como deve analisar com toda a seriedade, caso a caso, ponto por ponto, que decisões é que não resultam no ensino público e porque é que resultam no privado.

Assim, é tudo muito vago, muito desculpabilizador até.

Com todo o respeito, porque até gosto do que escreve.


De Anónimo a 30 de Outubro de 2007 às 22:28
Privatizem-se as escolas,faça-se Dr. quem for filho de rico, entreguem-se os restantes aos abelhões e já não tenho pachorra para esta treta de rankings.


De LVB a 30 de Outubro de 2007 às 22:22
Na minha opinião apenas deveria haver escolas públicas, mas deveria ser permitido que cada escola tivesse liberdade de escolher os programas e os métodos, existindo, é claro, uma linha condutora comum a todo o ensino.
O perigo das escolas privadas é o de retirar os melhores alunos à publica transformando esta num repositório dos alunos com piores condições financeiras, os quais normalmente vivem em ambientes culturais mais pobres. Para mim só num ambiente exigente é que se pode ser melhor, ora se na pública ficarem os piores, vai ser dificil que alguém consiga superar esse ambiente.
Além disso, no acesso à universidade apenas deveria contar a nota dos exames nacionais ou de um exame feito por cada faculdade. esta é a única forma de acabar com o negócio da educação praticado por alguns externatos. Caso paradigmático é do externato RIBADOURO cujas as notas são inflacionadas em média 5 valores!! ano após ano!!
Que igualdade de oportunidades é esta se quem tem dinheiro compra notas e por isso consegue entrar nos melhores cursos?


De samuel a 30 de Outubro de 2007 às 21:39
Caro Pedro Sales
Tomei a liberdade de "encaminhar" os seus últimos quatro posts para o meu blog.
Cumprimentos.


De Dário Nemésio a 30 de Outubro de 2007 às 20:25
É o capital cultural. Que muitos ignoram nos seus discursoa, mas que, influencia, e muito, os resultados escolares.


Comentar post

Zero TV
ZERO DE CONDUTA
Filipe Calvão

José Neves

Pedro Sales

Vasco Carvalho


zeroconduta [a] gmail.com
Indecisão 2008
Subscreva
Zero links
arquivos

Setembro 2008

Agosto 2008

Julho 2008

Junho 2008

Maio 2008

Abril 2008

Março 2008

Fevereiro 2008

Janeiro 2008

Dezembro 2007

Novembro 2007

Outubro 2007

Setembro 2007

Agosto 2007

Julho 2007

Junho 2007

Feeds