Segunda-feira, 20 de Agosto de 2007
atirar poeira não-transgénica para os olhos
There’s a real feel of Arizona about the site and I am confident it will emerge as one of the best examples of a desert-style course in Europe." (do site da Oceanico Developments)

Lameira, Silves (Herdade e Morgado da Lameira)
imagem

Se há exemplo de vandalismo no Algarve é este. Ao lado da herdade do milho transgénico fica o morgado da Lameira. São 259 hectares que faziam parte da antiga Companhia Agrícola do Morgado da Lameira, SA. Foram comprados em 2005 pela Ocêanico Developments, uma empresa irlandesa de investimentos imobiliários. Em terrenos da Reserva Agrícola Nacional, e antes da obra estar licenciada, a empresa já vendia apartamentos no Reino Unido, com o chamariz do campo de golf no "tipo-deserto" do Algarve.

(imagem)

Este episódio é trágico porque diz tudo sobre o estado da protecção ambiental em Portugal (e no Algarve em particular: posso ser ainda um miúdo mas lembro-me da zona de Cabanas/Tavira antes do Macário Correia aparecer em cena). Mas como isto se repete vezes sem conta (ao contrário da porcaria de um hectar de milho transgénico), desta vez vou tentar contar a história toda.

Em Março de 2006, o Barvalento online noticia com pompa o início da construção do Amendoeira Golf --- sem que a Câmara de Silves tenha emitido qualquer licenciamento. São 800 unidades de habitação, hotel de 5 estrelas, centro hípico e de conferências, academia de golf, e 2 campos de golf. Uma coisa à maneira, daquelas que o Algarve tem pouco. Curiosamente, a construtora indica que os trabalhos começaram a Julho de 2005, ou seja, 3 meses antes do projecto de impacto ambiental dar entrada no Ministério de Ambiente, e muito antes, claro, de começar a consulta pública.


Por altura da "consulta pública", a empresa já vendia apartamentos no Reino Unido. "O empreendimento turístico que o grupo britânico Oceânico Development está a construir em Silves", noticiava o DN em Outubro de 2005, "está a fazer sucesso no Reino Unido. O projecto, avaliado em 400 milhões de euros, já tem 70% das propriedades reservadas." Tudo dentro da lei, pois claro. O estudo de impacto ambiental fora entretanto aprovado à presssa em 2006, com condicionantes, nunca cumpridas nem vigiadas. O vereador da CDU na câmara de Silves, em acta da reunião da câmara disponível online, declarava a Julho de 2006: "no caso das obras de mobilização de terras ocorrida no Morgado da Lameira para construção do Campo de Golfe, houve uma precipitação por parte dos donos da obra, sem reacção por parte dos serviços camarários"... quando -- surpresa! -- "as obras de mobilização violenta de terrenos de superior qualidade agrícola e arqueológica tinha já ocorrido."

construção no Morgado da Lameira, 2006

Respeito pela lei? Pois: é que o Ministério da Agricultura, apesar das restrições à construção, deixa que se vandalizem os terrenos da Reserva Agrícola Nacional para "campos de golfe declarados de interesse para o Turismo pela Direcção-Geral do Turismo." Deixamos o país às decisões de patos-bravos do turismo e logo veremos os hotéis e os apartamentos, e os parques de estacionamento e tudo o que mais vem atrelado aos campos de golf. De interesse claro.

Ao pé disto (ou dos 2,8 milhões de hectares queimados em Portugal nos últimos 20 anos), ceifar um hectar de milho transgénico é brincadeira de miúdos. Que não me repugna nada, por razões semelhantes às defendidas por Miguel Portas. Os mesmos fanáticos que há uns anos comiam mioleira de vaca são os mesmos que hoje rejeitam liminarmente, à lei da bala se preciso for, qualquer princípio de precaução sobre transgénicos. E quando o Estado não cumpre a lei (desafio-vos a ler o decreto 72/2003 e a encontrar alguma nota no ministério do ambiente sobre João/José Menezes ou os seus 51 hectares de milho transgénico) há um vazio que alguém tem que ocupar -- ainda que simbolicamente como na 6a passada. Os agricultores biológicos do Algarve (quem protege os seus direitos?) sabem-na melhor: há umas semanas manifestaram-se contra a exploração transgénica por saberem que aquele milho, com valor económico irrisório, pode destruir o valor acumulado da agricultura biológica Algarvia pelo processo de polinização cruzada (sim, acontece: vejam este documentário aqui).

Falar do hectar de milho transgénico sem se discutir o problema dos OGMs ou da destruição em curso há 30 anos no Algarve é tapar o sol com uma peneira, esperando que esses problemas desapareçam levantando muita poeira com a discussão táctica de formas radicais de activismo. A questão é que toda a lei, já dizia Walter Benjamin, toma a violência como acto fundador. E no vazio legal em que o Estado colocou a região, o que me choca mesmo é ver o país a ser esventrado por interesses imobiliários.

publicado por Filipe Calvão às 22:42
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Comentários:
De Osvaldo Lucas a 22 de Agosto de 2007 às 22:39
O saber não ocupa lugar!!
Parecer conjunto do Conselho Nacional de Ambiente e Desenvolvimento Sustentável / Conselho Económico e Social sobre OGM (2000)
http://www.cnads.pt/docs/ParecerOGM%20Dezemb2000.pdf


De Anónimo a 22 de Agosto de 2007 às 18:25
Independetemente da crítica que se possa fazer à forma de acção escolhida, a "manifestação de silves" teve a virtude de, pelo menos em certos núcleos, trazer a discussão dos OGM e, já agora, da ocupação do espaço no Allgarve para cima da mesa. Falaste em Cabanas e , coincidência, estive lá este fds. Terrível, a forma como todo o espaço livre (por livre entenda-se sem prédios ou casas) o vai deixando de ser.

PSR


De rei dolce a 22 de Agosto de 2007 às 11:06
caro fc: não estou se quer a colocar em causa o investimento imobiliario, o debate é sobre o milho, e sendo sobre o milho, e sendo eu agricultor garanto que se me fizessem aquilo seria um ataque a minha profissão, a minha pessoa e ao meu sustento, e isso é grave e é crime.
Mais, se uma acção deste tipo fosse no norte do país os agricultores não seriam tão brandos e serenos como foram em silves(ver JN de ontem).
Os culpados devem e têm que ser punidos.


De Anónimo a 21 de Agosto de 2007 às 23:09
A quêm tenha alergias , faça uma experiencia : Coma uma maçaroca daquelas e veja como fica depois da digestão?

A questão colocada sob o prisma da politica agricola Europeia com o agreement dos governos sucessivos ( PSD+PS) leva-nos a considerar uma das piores derrotas para a Espanha que Portugal já alguma vez apanhou !
Façam uma visita pela Andaluzia e vejam as plantações de morangos, Olival , citrinos, Etc . Voçês veêm lá algum milho? Pois é !!!!
E já agora vão investigar o que fez o actual ministro da Agricultura nos ultimos 10-15 anos e depois falamos !!!!!

Em portugal o OTELO SARAIVA DE CARVALHO foi considerado um activista politico pelos Juizes , que baseando-se em pareceres um dos quais do Mario Soares, livraram-no dos tais 25 aninhos que ele tinha direito pelos assassinatos e roubos perpetrados. Agora os jovens , verdadeiros activistas politicos são apelidados de vadios e criminosos . Realmente a opinião publica em Portugal está bem trabalhada. Sim senhor ! Portugal no seu melhor!!!


De FC a 21 de Agosto de 2007 às 18:53
Rei Doce: aquele hectare vale 3900 euros (público de hoje). Ao lado, o investimento imobiliário vale 400 milhões de euros.

Rui Gonçalves: ninguém atacou o agricultor mas o milho. A diferença está toda aí.


De rei dolce a 21 de Agosto de 2007 às 16:33
"porcaria de um hectare de milho"???!!!

se fosses agricultor perceberias o insulto que estas a cometer.


De Anónimo a 21 de Agosto de 2007 às 15:54
Meus caros, peço que oiçam o seguinte notícia:

http://fileho.com/download/c231be5731/Transgenicos---boa-vontade-TSF-24-07-2007.mp3.html


Tundra


De busilis a 21 de Agosto de 2007 às 14:02
Uma opiniao ponderada sobre o ocorrido. Quando os apoiantes dos trangenicos puderem garantir que aquela "propriedade privada" nao vai interferir nas propriedades privadas dos outros,que todos os produtos sao comercializados com os respectivos avisos e ja agora que nao sao prejudiciais(os trangenicos)entao invoquem a lei.Ate la um queijo


De António a 21 de Agosto de 2007 às 12:35
...e o ataque a costa alentejana está iminente, de cada vez que saio da zona comporta/carvalhal e penso que seja a ultima vez que vejo aquela paisagem sem edificações...é angustiante. Em relação ao Sr Rui Carlos Gonçalves, ja pensou em comparar o preço da pesca biologica á saida da lota e a entrada no saco do supermercado?


De San a 21 de Agosto de 2007 às 11:33
Não há coincidências, como diria aquela senhora que vende prosa transgénica com tanto sucesso!


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