Segunda-feira, 31 de Dezembro de 2007
Portugal português
Amanhã entra em vigor uma lei que afecta milhões de portugueses e milhares de estabelecimentos comerciais, que têm que fazer avultados investimentos se quiserem ter espaço para fumadores, e ninguém se entende sobre os requisitos necessários para que a fiscalização reconheça a conformidade dos estabelecimentos à nova lei. Bem pode o Governo investir milhões nuns assépticos anúncios de promoção à costa oeste da Europa e esforçar-se para construir um país sem fumo e sem rissóis feitos em casa. O país não muda por decreto e, estava na cara, que uma lei com esta complexidade nunca estaria pronta a entrar em vigor na semana a seguir ao Natal e ano novo, com o país ainda a ressacar das compras e filhoses.

publicado por Pedro Sales às 18:26
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Estupidez gananciosa
Não contente em processar todos os adolescentes que apanha na rede a trocar música, as grandes editoras musicais resolveram ensandecer de vez e declarar, num processo contra um cidadão norte-americano, que é ilegal transferir musicas de um CD – comprado legalmente – para o computador. Só mesmo a indústria mais estúpida do mundo para tentar regular a utilização individual de um produto comprado legalmente. O processo não tem muitas pernas para andar, mas não deixa de ser mais um sinal na evidente fobia persecutória de um indústria que teima em acreditar que a solução para um modelo de negócio esgotado se encontra na barra do tribunal. O problema é outro e bem simples. Ninguém quer ouvir a música que editam. É toda igual. Dezenas de girls e boys bands que duram um semestre e já ninguém quer saber. As bandas independentes, ou as que, como os Radiohead, escolhem modelos diversos de distribuição, estão bastante bem e não se queixam. E gastando bem menos em advogados.

publicado por Pedro Sales às 15:17
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Sábado, 29 de Dezembro de 2007
Se não sabe porque é que pergunta?
O Banco de Portugal garantiu ontem que a mais recente contra-ordenação ao BCP reporta-se a novos casos porque “a natureza e actividade destas sociedades foram sempre ocultadas pelo BCP, nomeadamente em anteriores inspecções.” Ora aí está uma bela definição da forma como funciona a instituição presidida pelo senhor Constâncio. Se os prevaricadores não confessam a extensão das irregularidades, o Banco de Portugal arruma as malas e dá a inspecção e fiscalização por encerrada. Entre cavalheiros de bem é assim. Mais valia enviar uns formulários e dispensava-se mesmo o indizível senhor Constâncio. Bem vistas as coisas, o resultado final não deveria ser muito diferente e sempre se poupava uns cêntimos valentes ao erário público.

publicado por Pedro Sales às 19:21
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O jogo das cadeiras
À primeira vista não se percebe muito bem o interesse que o PSD parece ter na escolha de um “dos seus” para a liderança do banco público. Se há dinâmica no nosso país que se revela mais forte do que o bloco central, é o bloco central dos interesses. E esse, como se sabe, começa e acaba no governo em exercício de funções. É o Governo que assina os cheques com os escritórios de advogados e empresas de consultoria. É o Governo que assina as lucrativas concessões que fazem andar e lucrar certo país que passa o resto da semana a criticar o Estado. Não é preciso ir muito longe para se perceber como funcionam as coisas. Fixemo-nos em António Mexia. Santanista desde pequenino, desde que foi nomeado por Sócrates para a EDP tem-se portado como o mais diligente dos socialistas. Mexias há muitos. O barulho de Menezes, que não hesita em vir pedir umas cunhas em público, não tem nada a ver com a importância de manter alguém da área da oposição na Caixa e no Banco de Portugal. Para manter o poder é preciso transmitir a imagem de que se tem algum para dividir e distribuir. Anima as hostes e mantém-nas unidas. Evita a deserção para o outro campo. Os governos vão cedendo, pontualmente. Porque é irrelevante para a sua gestão do poder e porque, no fundo, mantém a aparência e garante a estabilidadezinha com que se vão fazenda as coisas neste nosso país. E os negócios.

publicado por Pedro Sales às 18:48
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E para o ano, se não der muito trabalho, vejam lá se acabam com o desemprego e colocam a economia a
"Se o Sol não tivesse nascido a 16 de Setembro de 2006, o concurso da Ota já se teria realizado e a localização do novo aeroporto de Lisboa seria irreversível". É desta forma que este semanário dá à estampa uma das mais delirantes notas editoriais de que há memória. "Só por isto teria valido a pena lançar este jornal", asseveram. O "só" é para enganar, claro, que não há espaço para a modéstia na capa deste semanário que nos faz o favor de adiantar os temas em que "marcou a agenda" de 2007."O Sol trouxe mais, muito mais, à imprensa portuguesa e ao país". É uma pena terem parado por aqui, porque aqui chegados já só estamos à espera de encontrar sinais indesmentíveis do contributo decisivo do semanário para a excelência do último filme dos irmãos Coen, nos avanços na pesquisa com células estaminais e para a assinatura do Tratado de Lisboa. A desmesurada imagem que José António Saraiva tem de si próprio é responsável por algumas dos mais hilariantes editoriais e crónicas de que há memória na imprensa nacional. Mas, que consiga transportar as suas idiossincrasias pessoais de uma forma tão marcada para a primeira página de um jornal com alguns excelentes profissionais, sem que ninguém tema cobrir-se de ridículo, começa a ser um caso de estudo que merece ser seguido com atenção.
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publicado por Pedro Sales às 17:30
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Computador crashou sem conseguir encontrar um T1 no Porto por 220 euros
Alegando uma (conveniente) avaria no sistema informático, o Governo alargou o prazo para as candidaturas ao Porta 65, o novo programa de apoio à habitação jovem, cujas condições de acesso parecem ter sido feitas consultando os preços do mercado imobiliário de 1988.

publicado por Pedro Sales às 00:00
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Sexta-feira, 28 de Dezembro de 2007
Boa ideia. Agora só falta os outros países processarem a Arábia Saudita
O Ministério da Saúde saudita vai pedir às companhias internacionais de tabaco indemnizações no valor total de 19 mil milhões de dólares (12.926 milhões de euros) pelos danos causados pelo fumo naquele país.

publicado por Pedro Sales às 22:56
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Quinta-feira, 27 de Dezembro de 2007
Para Uma História Sanitária da Academia Portuguesa
Este post do Miguel Vale de Almeida lembrou-me um anúncio do departamento de gestão do ISCTE. Era um anúncio que se dirigia a todo aquele ou aquela que se aprestava para escolher a sua futura licenciatura. O mais importante no anúncio era uma legenda que comentava uma fotografia parecida com esta aqui em cima e que dizia: "Esta será a última cadeira da tua licenciatura em Gestão".
Perante isto, e já lá vão alguns anos, uns quantos entre nós refilámos contra a banha-da-cobra que presidia à propaganda em causa. Altas instâncias do ISCTE, no entanto, responderam que não se tratava de uma "falsa promessa", como nós acusávamos, mas que sim se tratava de um "estímulo". Acabei por aceitar o argumento e, na verdade, até acabei por fitacolar o anúncio-panfleto sobre a tampa da sanita cá de casa; se era um "estímulo" para tantos, então também poderia sê-lo para os visitantes cá de casa, ajudando-os a sentirem a nossa sanita como se fosse sua, o que é sempre complicado. Infelizmente a coisa resultou tão bem que houve algum malandro ou alguma malandra que se sentiu suficientemente à vontade para levar o panfleto-anúncio consigo. Se o virem por aí, é favor trazerem novamente. É que a malta por aqui gosta de fazer merda à grande e à francesa, como só os grandes líderes de gestão sabem fazer.

publicado por José Neves às 21:13
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Quarta-feira, 26 de Dezembro de 2007
Cosmopolitismo de fachada
Até há poucos dias nunca tinha ouvido falar no nome. Parece que Cristina Areia é uma das vedetas das telenovelas juvenis da TVI. Talvez por isso foi convidada pela junta de freguesia para abrilhantar a festa de Natal das escolas de Alfama. A sua tarefa era simples. Anunciar o nome das crianças à medida que iam subindo ao palco receber umas prendas. Mas a Cristina é uma rapariga sensível e tradicionalista. Há nomes que lhe fazem espécie. A Bárbara Reis, no Público do passado sábado, conta como, em pouco tempo, a menina conseguiu insultar quase todas as pessoas presentes na festa:

- Hania! Ai credo, o que é isto? Ah, é indiana...Pronto, está bem.
- João bin[qualquer coisa]. Bin?! Será primo do Bin Laden. Cuidado, se calhar é melhor irmos embora.

- Ramona! Mas o que é se passa em Alfama? Que nomes esquisitos! Dantes era só Maria de Lourdes e Anas Cristinas, não era?

- Ana! Um nome normal, viva a tradição, viva!
- Regiane. O que passou pela cabeça destes pais?

Neste último ponto teve razão. O que passou pela cabeça de dezenas de pais para não se levantarem e interromperem este espectáculo degradante? Neste país dos brandos costumes, parece que os familiares das Anas Cristinas acham normal que alguém insulte e envergonhe em público uma criança porque não se chama Maria Albertina. O que não deve ter passado pela cabeça da Cristina Areia é que muitos deles nasceram no nosso país e são tão portugueses quanto ela, mas isso para o caso até é indiferente. Mais revelador é que esta vedeta da televisão é a voz de um país que se diz tolerante mas que se conforma com estas gratuitas demonstrações de xenofobia. Uma voz que tem autoridade e impunidade porque, à sua volta, todos se calam e encolhem. Os pais das Anas ou porque tiveram vergonha ou porque até acharam piada. Os outros, os pais das Ramonas e das Regianes é que me preocupa. Porque o seu silêncio é a mais violenta demonstração de como funciona o racismo dos pequenos gestos do dia-a-dia e de como este está interiorizado pelas suas vítimas. Ninguém se levanta porque não é suposto protestarmos numa casa que não é a nossa. É assim este Portugal natalício. Andamos o ano todo a tentar vender lá fora uma imagem de cosmopolitismo e modernidade, para, cá dentro, percebermos que o cosmopolistmo que aceitamos e toleramos se esgota nos Antónios, Marias e Silvas. Já agora, alguém podia explicar à Cristina que não se deve gozar com o nome dos outros. É que alguém pode olhar para o dela e reparar que Areias é nome de camelo. O que explica alguma coisa.

publicado por Pedro Sales às 15:29
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Segunda-feira, 24 de Dezembro de 2007
O melhor anúncio do ano...


publicado por Pedro Sales às 14:50
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Uma dúvida metafísica
Ainda estou indeciso a tentar perceber o que é mais ridículo. Se Menezes criticar uma eventual OPA socialista ao BCP para, logo a seguir, sugerir um nome ligado ao PSD, se aqueles que, perante o desmoronar da credibilidade, imagem e independência do maior banco privado, defendem a privatização da Caixa Geral de Depósitos.


publicado por Pedro Sales às 14:11
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Domingo, 23 de Dezembro de 2007
"Eu vejo o futuro repetir o passado. Eu vejo um museu de grandes novidades"
A Starbucks vai chegar a Portugal no próximo ano. Prometem revolucionar os cafés do país, oferecendo um espaço amplo para os clientes conversarem, lerem ou acederem à net na rede sem fios dos seus estabelecimentos. É o sinal dos tempos. Depois de, há pouco mais de 15 anos, termos assistido ao encerramento dos principais cafés do país, onde se podia conversar, estudar e ler o jornal sem ser importunado pelos empregados, vêm agora as grandes cadeias internacionais embrulhar o conceito e apresentar a mesma proposta como uma grande inovação.

Faz apenas dezasseis anos que a McDonalds instalou o seu primeiro restaurante em Lisboa nas instalações do antigo café Colombo. O local não podia ser mais simbólico. O país estava com pressa de modernidade e não tinha mais tempo para se sentar no café a ler o jornal e a conversar. Um a um, vários se lhe seguiram. O Café Portugal e a Chave de Ouro, em Lisboa, ou o Café Imperial na Praça da Liberdade, são apenas alguns exemplos. Agora, basta um breve passeio pela baixa de Lisboa e é impossível não tropeçarmos num qualquer chill out café ou lounge café . Locais onde se pode estar com tempo e com calma. Nada contra. Mas não deixa de ser um exemplar retrato da forma como a economia global nos embrulha a modernidade, reescrevendo a história e vendendo o velho como uma novidade absoluta. Não se apropria apenas das fachadas e do espaço físico. Resgata a memória e a língua. É como se nada tivesse existido antes destes espaços normalizados, estandardizados e assépticos. O velho é novo. O novo é velho. A novílingua passou por aqui. E esqueceu-se do tabaco, claro.

* título do post retirado da letra d´O tempo não pára, de Cazuza.
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publicado por Pedro Sales às 22:47
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Um partido desmantelado
Portugal tem dois milhões de pobres e mais dois milhões de pessoas que só subsistem com os apoios estatais. É neste contexto que Menezes, num país em que a carga fiscal fica a léguas da média europeia, se propõe a desmantelar um Estado que, diz, oprime as pessoas com o seu peso excessivo. Que pessoas? Os pobres que só têm uma creche e uma escola para os filhos, ou direito a protecção na saúde graças ao incipiente estado social que ainda vamos tendo?

Mas, como se tem reparado nestes últimos meses, nada do que Menezes diz é para fazer sentido. É para fazer efeito. Defende uma fúria liberalizadora ao mesmo tempo que confessa que o seu modelo é Sarkozy, sem se deter três segundos para reparar que este é o representante europeu de uma direita economicamente proteccionista e intervencionista. Tudo porque, como na “opressão” do peso do Estado, alguém lhe deve ter dito que ficava no ouvido e aparentava uma imagem de “solidez” politica que procura incessantemente transmitir.

Menezes criticava Marques Mendes porque dizia que este era um líder fraco e não se fazia notar na oposição ao governo. Se neste campo o PSD tem sido um deserto desde que Menezes chegou à liderança, é justo dizer que nunca existiu uma liderança mais fraca do que a de Menezes. Não por causa da sua imagem, popularidade ou eficácia, mas porque representa a derrota da política e da ideia de confronto de alternativas às mãos de uma pequena equipa de especialistas em escrutinar as mais pequenas tendências do dia-a-dia. O líder que prometia o poder às bases entregou a linha estratégica do maior partido da oposição a uma equipa de especialistas comunicacionais.

Os liberais podem estar esfusiantes com o liberalismo do homem que se tornou conhecido dos portugueses insurgindo-se contra o elitismo liberal de Durão Barroso. Não se iludam. Quando chegar a altura de apresentar propostas, e alguém na Cunha e Vaz lhe soprar que esse modelo já não vende e que é mais fácil o partido ser desmantelado nas urnas do que desmantelar o Estado, o autarca de Gaia será o primeiro a meter as proclamações liberais na gaveta. Está escrito. O populismo de Menezes não é um defeito, é mesmo o seu feitio.

publicado por Pedro Sales às 11:59
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E eu faço uma aposta ainda mais radical. Com esse programa nunca vais conseguir ganhar a aposta
“Faço a aposta radical de, em meia dúzia de meses, desmantelar de vez o enorme peso que o Estado tem e que oprime as pessoas”. Luís Filipe Menezes, em entrevista ao Expresso

publicado por Pedro Sales às 04:18
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E o mais engraçado é que ele diz estas coisas sem se rir
"Eu ando há dois meses a denunciar a situação de insegurança, disse há 15 dias que a situação no Porto estava descontrolada. O ministro Santos Silva veio dizer que eu estava a exagerar, afinal no dia seguinte houve um suicídio e toda a gente já percebeu que há um descontrolo." Luís Filipe Menezes, em entrevista ao Expresso.

publicado por Pedro Sales às 04:12
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Um emprevisto de última hora acontece a qualquer um
"A entrevista estava marcada para as nove e meia. Acabou para ser adiada para as cinco da tarde porque o líder do PSD tinha que ir ao Porto festejar os anos de um filho."
Início da entrevista de Luís Filipe Menezes ao Expresso.

publicado por Pedro Sales às 04:08
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Sexta-feira, 21 de Dezembro de 2007
A guerra do Iraque explicada em 3 segundos
via Andrew Sullinvan

publicado por Pedro Sales às 19:23
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Para memória futura
José Sócrates promete, na tomada de posse do Governo, realizar um referendo sobre o Tratado Constitucional Europeu.

publicado por Pedro Sales às 14:26
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Quinta-feira, 20 de Dezembro de 2007
Retratos da costa ocidental da Europa
De vez em quando o país acorda do torpor em que se encontra e vê na televisão imagens que se julgavam esquecidas. Faltam as palavras para descrever a barbaridade e crueldade de um suinicultor que abandona centenas de porcos à sua sorte, condenando-os a morrerem de sede e de fome, não hesitando mesmo em colocar em risco a saúde das populações vizinhas. Um dia depois da ASAE emitir um comunicado sobre a higiene das colheres de pau, sabemos que uma suinicultura que funcionava ilegalmente há sete anos nunca conheceu qualquer entrave à comercialização para consumoda carne dos seus animais. As autoridades competentes conheciam o caso e nada fizeram porque a suinicultura era ilegal! É normal. A lei que deveria proteger os direitos dos animais, o PL 92/95, está há 12 anos à espera de regulamentação governamental, criando um vazio legal que permite que actos como este permaneçam impunes. É mesmo o triunfo dos porcos.

publicado por Pedro Sales às 19:46
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Portugal no seu melhor
A Direcção Geral de Veterinária sabia, há sete anos, que a suinicultura em Alcácer do Sal estava a funcionar ilegalmente. Quando questionada sobre o porquê do tardio encerramento da exploração: “Nunca foi mandada fechar porque, oficialmente, nunca abriu.” É uma metáfora certeira sobre a forma como vai funcionando o país. Se tiver um negócio e não quiser ser importunado pelas autoridades permaneça na ilegalidade.

publicado por Pedro Sales às 19:03
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Quem não deve não teme?
A Junta de Freguesia de São Nicolau prepara-se para instalar 32 câmaras, de alta definição, para vigiar a baixa da cidade de Lisboa. Esta proposta, que geraria um intenso debate público em qualquer país em que os cidadãos tivessem consciência dos seus direitos individuais e prezassem a liberdade, é recebida com indisfarçável alegria pelos portugueses. “Já vem mas é tarde”, diz uma pessoa escutada por um canal televisivo. Outras, estranham mesmo as perguntas do jornalista sobre a potencial colisão destas câmaras com o direito à privacidade.

“Quem não deve não teme”. A máxima popular justifica tudo. Mas essa passividade e despreocupação tem um custo. Nos últimos meses, o Parlamento aprovou legislação para autorizar a videovigilância nos táxis e uma base de dados de ADN que o deputado Paulo Rangel - antes de a votar favoravelmente (!) - definiu como um "gravoso instrumento de biopolítica”. Ainda havemos de ver o cartão único do cidadão com dados biométricos. Tudo, claro, para nos defender. A segurança, como não podia deixar de ser, foi a justificação apresentada pelo presidente da Junta. É uma medida para recuperar o comércio da baixa, como se a crise dos seus comerciantes tivesse alguma coisa a ver com o recrudescimento da criminalidade. As pessoas não deixaram as ruas da baixa por estas serem inseguras, mas porque a geografia comercial se deslocou para as grandes superfícies e os pequenos comerciantes não se conseguiram especializar e valorizar a sua especificidade. Tragam pessoas para a Baixa, em vez de câmaras para as vigiar, e talvez resolvam a questão. Assim, é só mais um passo para o pesadelo orwelliano.

publicado por Pedro Sales às 16:39
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Quarta-feira, 19 de Dezembro de 2007
Spin para principiantes
Fazendo eco de um comunicado do Ministério do Ensino Superior, a quase totalidade dos jornais diz hoje que os “empréstimos da banca abrangem já 800 alunos”. “Já” é mesmo a palavra chave. Em Agosto, com a habitual pompa mediática, primeiro-ministro e ministro anunciaram um programa de empréstimos sem fiador para os alunos do ensino superior, anunciando que o programa deveria beneficiar 30 mil estudantes. Agora, que começam a surgir as críticas dos bancos, o governo congratula-se com a adesão de 800 estudantes, quase 40 vezes menos do que as metas apresentadas. “Já” dizem os jornais, referindo-se a um programa que, dois meses depois de terem começado as aulas, chega a menos de 0,3% do universo a que se destina.

É a isto que se chama uma gestão comunicacional perfeita. O primeiro-ministro anuncia a proposta com as televisões e rádio atrás. Um mês depois, quando a medida entra em vigor, os jornais fazem um dossier . Depois, perante o evidente desinteresse e confusão entre os destinatários, a avaliação do seu impacto vem numa nota de rodapé , e, mesmo essa, com o “dedo” do governo. “Já” são 800 em 350 000. Boa sorte. Tem tudo para ser um sucesso.

publicado por Pedro Sales às 18:39
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Bons velhos tempos

A direita blogosférica está exultante com os "sólidos" "fundamentos teóricos" da crítica da Juventude Popular à existência de um salário mínimo nacional. É uma restrição à liberdade contratual entre empresas e funcionários, dizem-nos. Pois é. A propósito, vale a pena lembrar este filme pouco conhecido sobre as relações laborais totalmente livres.

PS: Como se vem tornando habitual, as respostas mais sólidas a este disparate podem ser lidas nos ladrões de bicicletas, aqui, aqui e aqui.

publicado por Pedro Sales às 18:26
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Eurocrata para principiantes
O Miguel Portas, no seu blogue, está a descodificar o Tratado de Lisboa numa interessante sequência de posts (I), (II), (III) e (IV)


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publicado por Pedro Sales às 18:24
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Terça-feira, 18 de Dezembro de 2007
E um clone de Arroja chegou ao Parlamento

A Associação Ilga apresentou uma petição à Assembleia da República solicitando o seu apoio à instituição de um “Dia Mundial de Luta Contra a Homofobia”. Esta petição teve o apoio internacional, entre outras instituições, do Congresso Mundial de Judeus e dos Grupos Verde, Socialista e Liberais e Democratas do Parlamento Europeu. Calhou na rotação parlamentar que o relatório sobre a aceitação da petição fosse entregue ao deputado Nuno da Câmara Pereira, que se pronunciou pelo seu arquivamento, com esta brilhante argumentação:

«A instituição de um dia de luta contra a homofobia, entendida, de um modo genérico, como o medo irracional ou preconceito em relação à homossexualidade, seria, de alguma forma, atentar contra a liberdade de opinião. Ao instituir-se um dia mundial de luta contra a homofobia estar-se-ia, no fundo, a instituir um dia contra todos aqueles que pensam a sexualidade de modo distinto e, consequentemente, a colocá-los numa situação de discriminação.»

Com Arrastão



publicado por Pedro Sales às 22:33
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Debate à Esquerda 3: Que Internacionalismo?
No debate blogoesférico à esquerda, uma das divisões mais claras foi suscitada pela “questão nacional”. Pego agora nela e deixo para futuras discussões a questão do modo comum de produção política que ali prometera retomar. Sobre a “questão nacional” quero nomeadamente discordar da ideia de que a relação política da esquerda com o estado-nação (melhor talvez dizermos Estado nacional) deva ser uma relação instrumental. Esta ideia, que tem uma longa história mas que se consolidou recentemente com o debate sobre o tratado constituinte chumbado em referendo na França e na Holanda - um debate em que a discussão à esquerda, pelo menos em Portugal, se reduziu muitas vezes a uma discussão sobre o conteúdo mais ou menos neoliberal da constituição e esqueceu outras tantas vezes a questão da forma mais ou menos supranacional da constituição - tem que ser liminarmente rejeitada. Não podemos aceitar a concepção de que o Estado nacional é uma simples forma à espera de ser substanciada com os conteúdos propostos pelos diferentes agentes políticos. E não podemos desde logo porque a redução do Estado nacional a simples forma – ou melhor, uma simplificação tão rude da questão da forma – coloca dois problemas históricos muito evidentes. Por um lado, na concepção instrumentalista do Estado nacional, a figura do Estado ressurge como espaço de poder neutro, instrumentalizável, criando-se a ilusão de que basta os socialistas tomarem conta do governo e do aparelho de Estado para que o Estado se torne socialista, a polícia do Estado se torne socialista, a política externa do Estado se torne socialista, etc.. Por outro lado, a nação surge aqui como uma entidade apropriável (desejavelmente apropriável) pela esquerda, na senda de um patriotismo socialista – o famigerado “nacional na forma, socialista no conteúdo” do Stalin de 1920's – que necessariamente recusa a mundialização das lutas.

publicado por José Neves às 19:37
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Parem as máquinas. Salário mínimo impede patrões de pagar 200 euros a portugueses poupados e com av
A Juventude Popular diz que a fixação de um salário mínimo "atrasa a economia". "Este preço mínimo tem dois efeitos muito claros no mercado de trabalho: impedir de trabalhar quem estiver disponível para trabalhar por valor inferior a esse preço", diz. Exacto. É mesmo por isso que deve existir um referencial salarial mínimo: para conferir uma vida minimamente digna a quem trabalha e impedir a degradação do valor do trabalho. Dumping social, alguém no Caldas ouviu falar de dumping social?

Por outro lado, acrescenta o documento, a fixação de um valor mínimo "impede de operar todas as empresas e serviços que não tenham a capacidade de remunerarem aquele montante". Se não conseguem pagar, por um mês de trabalho, o mesmo que custa o arrendamento de uma qualquer casa em Lisboa ou Porto, então talvez esteja mesmo na altura de fecharem as portas.

"Não nos assusta o tradicional receio/argumento de que sem o salário mínimo as empresas irão pagar ainda menos", refere o comunicado, sublinhando que "o paradigma da competitividade baseada nos baixos salários já mudou". Em que ficamos? Mas, então, não existem empresas e serviços que não têm a capacidade "de remunerarem aquele montante"? É assim tão difícil escrever cinco parágrafos sem se contradizerem?

"Acreditamos na liberdade contratual entre empresas e funcionários sem que o Estado imponha um salário". Pois. E a mãe do Bruno Pidá acredita que ele é um menino de coro. Num país em que existem dois milhões de pessoas que, mesmo trabalhando, continuam pobres, declarações como estas são enternecedoras. O PP acredita. Que não lhes falte a fé.

PS: Também sobre o salário mínimo vale a pena ler o que dizem os ladrões de bibicletas, aqui e aqui.

publicado por Pedro Sales às 18:53
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Remorsos? Sentimento de culpa? Estava na cara que não era advogada
Giuditta Russo era uma jovem e promissora advogada italiana. Em pouco mais de 10 anos, não perdeu um único dos mais de 250 processos que defendeu. Tudo lhe corria de feição, até ao dia em que percebeu que não conseguiria obter a indemnização que o seu cliente pretendia. Decidiu pagar-lhe os 70 mil euros do seu bolso. Foi o seu penúltimo processo. Não aguentou a pressão e a mentira em que tinha vivido e confessou que nunca tinha concluído a licenciatura de Direito. Na verdade, nunca tinha sequer entrado na faculdade. Durante anos tinha fingido que frequentava Direito e estudado na época de exames. Agora tem o julgamento mais importante da sua vida. Do outro lado da barra de tribunal. Sinal dos tempos. A sua autobiografia é um sucesso de vendas e vai ser transposta para o cinema.

publicado por Pedro Sales às 17:02
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Autonomia de trela curta
“No quadro da nossa autonomia, temos a liberdade de dizer o que pensamos”, defende Pedro Nuno Santos, garantindo o apoio da JS à realização de um referendo para ratificar o Tratado europeu. Apesar desta “declaração política”, garante, não pretende apresentar nenhuma iniciativa no Parlamento para propor o referendo. “Não, claro que não”. Até porque, se o assunto for a votos na Assembleia respeitará “o sentido de voto oficial definido pelo PS. É exigível alguma unidade do partido”. Pois é. A mesma autonomia que dá para dizer o que pensam, obriga a que votem como pensam os “grandes”. O que fazem, naturalmente. Escusavam era de dar-se a tanto trabalho para nos fazer crer que, por algum insondável mistério, desta vez pudesse ser diferente.
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publicado por Pedro Sales às 13:26
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O Pai Natal veio mais cedo e vestido de Afonso Henriques

Encontrei um dos autores.
(Sim, eu sei quem eles são).
E tive a felicidade de saber que estão de regresso.
Vou por isso abrandar a escrita aqui no blogue.
Doravante, estarei por ali ocupado em leituras.
Para já, siga a marinha com Guimarães.
Vejam bem.Regressou o melhor blogue português.
O único blogue onde o "país real" existiu.


publicado por José Neves às 01:28
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